pé na alcova

"De pé, na alcova, ardias e fulgias" ( Olavo Bilac)

Christiane Brito

Não sou confiável porque já passei dos 30, prefiro que riam comigo do que me levem a sério.

Como se tornar um escritor best-seller após os 60 anos

Parece que é exceção, mas não. O sucesso na literatura tem relação proporcional aos anos de vida: as chances de dar certo crescem com a idade. Só que as portas desse mercado estão fechadas por preconceitos, é preciso arrombar com persistência, confiança e talento.


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Aqui vamos falar dos escritores temporões, especificamente, os de 65 anos (ou mais): que chances têm de se tornar best-sellers? Esse tópico de discussão surgiu em uma rede social e gerou quase mil comentários, inclusive o meu, ingênuo: “sim, lógico, no Brasil temos a Cora Coralina”...

Consegui me divertir e me instruir, divido com vocês estatísticas, previsões e reflexões que acrescentei.

1.Metade dos escritores publicados têm, na media, 64 anos. Então “65” é uma idade razoável para se lançar.

2.Mais de 4,2 milhões de livros publicados no mundo foram escritos por pessoas com mais de 80 anos.

3.Em 2014, 79% dos escritores, nos Estados Unidos, faturaram menos de 30 mil dólares, subtraídas todas as despesas. É pouco, por isso pessoas que trabalham com artes têm avaliação negativa de crédito nos bancos e dificuldade para pagar contas. Considerando-se que essa média incorpora também o faturamento dos best-sellers, pode-se dizer que muitos escritores não recebem nada por seus livros em um ano.

4.Já o escritor britânico médio ganha £11.000 por ano. “Eles adorariam ganhar £22.000 (30 mil dólares)”, garante um autor veterano.

5.Uma senhora -- que estreou na literatura com 83, tem 86 e já lançou o segundo livro em 2014 -- se dedica a escrever o terceiro. Sente-se realizada, embora distante de um título best-seller. Admirável empenho o dela na discussão, questionou, foi questionada (todos discutiram como se tivessem a mesma idade, coisa bem americana que achei legal, o excesso de respeito sacrificaria a honestidade das respostas), e não perdeu o ânimo.

6.Uma autora de 61 anos, estreante, diz que se sente realizada porque a sua visão de sucesso é: “a)Termina de escrever a porra do livro; b)Publique via Kindle (KDP); c)Acompanhe o “aguarde aqui” nas vendas pela Amazon.” Publicar pela primeira vez foi uma “experiência gloriosa” que quer repetir: “Durante 40 anos fui uma pessoa de hábitos rígidos, agora, com a aposentadoria, quero agenda livre. Há dias em que escrevo muito, em outros, nem uma linha. Talvez a disciplina venha com o segundo livro.”

7.Há outras motivações para a escrita após os 65, como o contato com um público interessado: “Eu nunca tive nenhuma inclinação para escrever poesia ou qualquer outro gênero até que conheci as crianças e elas sabiam exatamente o que queriam. Produzi 400 poemas para elas, já publiquei 344 em cinco livros. O bom de ser aposentada, é que não preciso do dinheiro das vendas para sobreviver. Faço por diversão e realização”, revela uma autora de quase 70.

8.Um escritor definiu duas regras para se dar bem com publicações após aposentadoria (e antes), afinal, o mercado literário está despontando como oportunidade de segunda carreira para uma grande maioria de maiores de 60. A regra número 1 é “nenhum editor ou editora pode garantir o sucesso do seu livro”. Regra número 2: nunca se esqueça da regra número 1.

9.A vocação pode despertar cedo, aos 12, caso de Brian Morgan. Mas só se realizar décadas depois. Conta Morgan: “Publiquei o primeiro livro aos 62 e me tornei best-seller. Aos 72, me tornei um escritor independente, hoje, com 74, já tenho sete livros no total. Pretendo me aposentar aos 100.”

10.Certamente a indústria discrimina os escritores velhos, sempre foi assim, diz uma autora consagrada. Conta que publicou seu primeiro romance pela Harper Collins quando estava com 55 anos. As vendas foram excelentes. A partir daí, sua idade deixou de contar. Hoje tem 85 anos, 15 livros publicados nos Estados Unidos, Irlanda e Inglaterra.

11.Cassie Harte, best-seller aos 64 anos com a biografia I did tell I did, 2009, discorda: “Eu escrevi minha autobiografia com 64 anos e fui para a posição número 1 nos rankings de não ficção de jornais como o Sunday Times”. O livro ficou nessa posição por quatro semanas, vendeu 90 mil cópias e está publicado em quatro países. “Meu segundo livro está em fase de lançamento”, diz,”portanto, se você tem uma boa história, escreva e boa sorte!”

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12.Uma atriz e também autora afirma que, lamentavelmente, aos 65 anos, o autor é praticamente impublicável porque não tem longevidade – na visão do mercado – para fazer uma carreira: “Do ponto de vista tradicional de publicação, a possibilidade de um escritor se lançar aos 65 com sucesso é mínima. Em nossa edição de inverno 2015, fizemos uma peça sobre James Anderson, que escreveu um livro verdadeiramente magistral, chamado The Never-Open Desert Diner. Ele tem sido elogiado por alguns realmente importantes meios de comunicação e é um grande sucesso do ponto de vista de vendas. Mas quase não foi publicado. Por quê? Porque - com 62 anos de idade - agentes e editoras disseram que James não tinha nenhuma "longevidade". Em outras palavras, ele era velho demais para escrever mais livros. Felizmente, a Caravel Books, em Nova York, publicou o livro simplesmente porque é muito bom, do contrário a obra nunca teria visto a luz do dia. Se um escritor talentoso como James quase "perdeu o barco da oportunidade" – que será do destino de outros escritores "mais velhos". "Por outro lado, a história dele prova que talento + persistência = sucesso. Está vendendo bastante em quatro países”, diz a atriz e autora.

13.Há autor que até tem nome para os jovens que julgam suas obras com má vontade e pouco conhecimento: “O problema é que existem uns “youngstêres”, não todos, mas alguns, nas agências literárias e editoras, que enxergam todo mundo acima de 60 como um bando de velhos, que não sabe onde despejar sua bolsa de colostomia. Eles também envelhecerão, não pensam nisso. Mas deve haver algum editor lá fora disposto a dizer “ok, velho, verei seu trabalho”.

14.Um especialista no mercado contra-argumenta que “em vez de idade, o que importa é a resistência, ética, determinação, memória, concisão, conhecimento de técnicas típicas por gênero, capacidade de fazer bastante leitura e pesquisa e a capacidade de fazer algum dinheiro com isso.”

15.Um autor de livros de negócios quer fazer sucesso na ficção: “Espero que a idade seja irrelevante. Publiquei livros de negócios quando eu era mais jovem. Agora, aposentado e 77 anos, vou descobrir se posso escrever ficção. Meu primeiro romance de suspense, Morte e impostos, será publicado ainda em 2015. E meu segundo romance, morte em alto mar está bem em curso".

16. Um autor que caminha para os 80 anos, expressou uma visão realista do tempo que passa, mas concluiu positivamente: “Idade é mais do que um número. Quando ouvimos que alguém tem um ano de idade, pensamos em uma adorável criança, se tiver treze, imaginamos um dínamo de energia ilimitada; aos 22, uma máquina de fazer sexo, aos quarenta, cinquenta, um pai ou uma mãe já cansados, e , aos 65, um galho seco, cabelos brancos, ataque cardíaco à espreita ...imagine aos 90! Mesmo que os mais velhos tenham aparência jovial, se forem honestos consigo mesmos, sabem que já apresentam sinais sérios de desgaste físico. A cabeça é ainda bastante jovem, mas o cérebro definha. No entanto, essas realidades não necessariamente limitam a habilidade ou liberdade de escrever um livro. Conhecemos muitos autores que estavam perdendo os dentes quando escreveram suas obras-primas. Então, sim, idade é mais do que um número, mas dane-se. Já publiquei quatro livros e continuarei publicando até minha capacidade de pensar acabar.”

17. Uma outra veterana faz uma descrição das mudanças na área: “Quando eu estava com 20 anos, os editores eram profissionais capacitados, bem-sucedidos e experientes, com idades geralmente acima dos 50. Hoje, há crianças tomando decisões no mercado, eles posam como sérios, donos da situação, mas suas avaliações são superficiais, arrogantes e autorreferentes. Vivemos no templo e culto da juventude, principalmente no mundo dos livros. Sinto que meu tempo passou, mas vou completar meu trabalho porque esta é a minha vocação, tenho esse compromisso comigo mesma.”

18.”Se Grandma Moses tornou-se uma pintora de sucesso na velhice, por que os escritores não podem conseguir?”, diz outro escritor de meia-idade. (Moses começou a pintar aos 75 e, apesar da descrença da família, fez muito sucesso. Em 20 anos, pintou 1600 quadros, morreu ativa e consagrada mundialmente com 101 anos, em 1961).

Aproveito a deixa e concluo citando outros famosos, na literatura, que criaram obras-primas já na idade avançada:

- Knut Hamsun, Nobel de Literatura em 1920, escreveu um dos seus melhores livros aos 90 anos: “Pelos Atalhos Fechados”, de 1949.

- Frank McCourt publicou o primeiro livro aos 67 anos, em 1996: “As cinzas de Angela”, autobiográfico. No ano seguinte ganhou o Prêmio Pulitzer pela obra, que foi levada para o cinema com grande sucesso.

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- Nirad Chauhuri escreveu seu primeiro livro, "Autobiography of an Unknown Indian" aos 54 anos;aos 90, publicou a sequência, e lançou o ultimo livro "Three Horsemen of the New Apocolypse", aos 100 anos.

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- Na Inglaterra, um exemplo famoso de escritor que estreou tarde e fez sucesso é Mary Wesley, autora de “The Camomile Lawn”, lançado em 1984 quando ela tinha 70 anos. Vendeu 3 milhões de livros e teve 10 best-sellers até morrer aos 90.

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Christiane Brito

Não sou confiável porque já passei dos 30, prefiro que riam comigo do que me levem a sério..
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