Chandra Santos

Jornalista

Belas artes em tempos líquidos: a efemeridade da arte contemporânea

"Atualmente, fazer arte é um exercício ególatra; as performances, os vídeos, as instalações estão feitas de maneira tão óbvia que subjuga a simplicidade criativa, além de serem peças que, em sua grande maioria, apelam ao mínimo esforço e cuja acessibilidade criativa revela tratar-se de uma realidade que poderia ter sido alcançada por qualquer um“ [Avelina Lésper] [...] "Percorrendo uma exposição de arte contemporânea, o visitante não tem tempo para aprofundar o conhecimento da história nem o processo criativo do artista, bombardeado como é por mensagens estéticas muito mais intensas e diretas. Então, é comum considerar aquela “arte” como um imbróglio" [Claudio Strinati].


Segundo o filósofo Charles S. Peirce, fundador da Semiótica, a principal função da arte é expressar os estados de consciência humana. Partindo dessa definição, por exemplo, terapeutas e psicólogos passaram a usá-las como parte de tratamentos. No entanto, essa é apenas uma definição dentro da árdua tarefa complexa de conceituar arte. Ao longo dos anos acumularam várias definições e houve a criação de uma "escala evolutiva" entre os acadêmicos para contar a história da arte. Hoje estamos submersos pela chamada arte contemporânea, que para muitos pesquisadores seria uma nova re-significação dos processos artísticos que vêm sendo desenvolvidos desde que o homem desenhou o primeiro rabisco na caverna. Já para outros ela simplesmente não existe. sondaggio-arte-contemporanea-450x294.jpg

Em determinado momento histórico as academias começaram a dar uma classificação para os tipos de arte existentes. Surgiram sete categorias nas quais as artes poderiam se enquadrar. O que vemos nesse momento contemporâneo é uma mistura das sete artes existentes aplicada muitas vezes sobre a plataforma digital, com afirmações de que por isso são contemporâneas e não modernas.

Esse artigo toma como base um texto escrito na época em que cursava a faculdade de jornalismo - originalmente publicado no meu blog há seis anos atrás. Na época ele foi o primeiro post do blog com o objetivo de esclarecer qual seria a temática abordada no mesmo - as chamada sete artes. Agora estou reescrevendo-o, pois me deparei-me com uma entrevista do historiador e crítico-especialista na arte dos séculos XVI e XVII, Claudio Strinati a revista Carta Capital e senti a necessidade de ampliá-lo relacionando-o as experiências estéticas atuais.

Belas-artes O termo beaux-arts (belas-artes) surge em 1746 aplicado às chamadas "artes superiores", de caráter não-utilitário, opostas às artes aplicadas e às artes decorativas. De acordo com a Enciclopédia Itaú Cultural, essa noção é incorporada ao vocabulário da história e da crítica de arte com o auxílio da obra Les Beaux-Arts Réduits à un Même Principe, de autoria de Charles Batteaux.

"As belas artes eram aquelas que, segundo o ponto de vista do período, possuíam a dignidade da nobreza. Já as artes aplicadas, devido ao fato de serem praticadas por trabalhadores, eram desvalorizadas.Se as academias separam artistas e mestres de ofícios, fazendo das belas-artes sinônimos de arte acadêmica, é possível notar ao longo da história da arte ocidental - e, sobretudo, no interior da arte moderna - aproximações entre as conhecidas como belas-artes e as chamadas artes aplicadas. Lembrando, entre outros, o exemplo do Arts and Crafts inglês, quando teóricos e artistas reafirmam a importância do trabalho artesanal diante da mecanização industrial e da produção em massa; o art nouveau europeu e norte-americano que esmaece as fronteiras entre arte e artesanato pela valorização dos ofícios e trabalhos manuais; a experiência da Bauhaus, ancorada na associação entre arte, artesanato e indústria; ou ainda o art déco, ou "estilo anos 20", que aproxima arte e design", diz um trecho do artigo publicado na enciclopédia virtual.

São consideradas Belas Artes: Arquitetura; Pintura; Escultura; Música; Literatura; Teatro e Dança; e Cinema. Abaixo uma breve descrição de cada, publicadas originalmente em meu blog.

Pintura O artista passa suas impressões sobre a realidade e expressa seus sentimentos em uma tela, através de linhas e cores. Entre os pintores mais conhecidos destacam-se: Frida Kahlo, Salvador Dalí, Tarsila do Amaral e Pablo Picasso.

Arquitetura Arte de projetar e construir prédios de acordo com os contextos históricos, sociais e políticos vigentes no período. Sendo influenciada, também, pelas mudanças estéticas e tecnológicas. O carioca Oscar Niemeyer é considerado um dos maiores arquitetos do século XX. A característica principal de suas obras é a presença de curvas, como na Praça dos Três Poderes, em Brasília.

Música Aristóteles, na Grécia, definiu música como "a arte de expressar sentimentos mediante o som". A lógica da construção musical é a combinação de sons em sucessão temporal formando melodias. Há diversos representantes dentro das numerosas categorias desta arte. Os mais conhecidos são: Mozart, Bethoveen, Beatles, Rolling Stones, Madonna e Frank Sinatra.

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Escultura Consiste em esculpir, talhar ou modelar diferentes tipos de materiais representando figuras reais ou imaginárias. São escultores conhecidos: Aleijadinho, Rodin e Victor Brecheret.

Literatura "É a arte da palavra". Consiste em usar exclusivamente a linguagem para se expressar contando histórias reais ou fictícias. O livro mais antigo do mundo é a Bíblia. Assim como a música, a literatura possui numerosas divisões e representantes, mas os mais conhecidos são Paulo Coelho, Umberto Eco e José Saramago.

Teatro/Dança São representados juntos, pois estabelecem até hoje uma relação de interação. A Dança, que consiste na representação de movimentos corporais sucessivos dentro de um ritmo musical, foi muito usada em rituais religiosos. São exemplos: o samba e o tango. O teatro, também, surgiu nos cultos religiosos. Por meio dele deuses eram representados através de gestos sem a utilização de sons. Entre os representantes dessa arte estão Soflóces, Nelson Rodrigues e Shakespeare.

Cinema Considerada como sétima arte, o cinema trabalha a expressão por meio da imagem e do som constituindo um todo através de frames. O ponto de referência das produções cinematográficas é Hollywood, nos Estados Unidos, embora quem tenha inventado o cinema tenha sido os irmãos Lumière, franceses. Entre filmes premiados e conhecidos estão: "E.T.", "Titanic", "Tempos Modernos" e "Central do Brasil".

A negação, o vazio e a rotatividade da arte contemporânea

Na arte contemporânea encontramos elementos das belas-artes mesclados em uma única obra. Cada artista é múltiplo. Por exemplo, ao mesmo tempo em que pinta ou esculpe (ou ambos), encena um monólogo interagindo com suas obras para uma plateia em uma galeria. E/ou ainda escreve sobre sua exposição para enviar aos meios de comunicação para publicação.

Leia entrevista a Carta Capital na qual Claudio Strinati reflete sobre a arte e a cultura contemporânea e afirma que a arte contemporânea não existe [aqui.]

"Arte plástica é visão, e o homem vive de experiências estéticas, mas hoje vivemos em um mundo onde essas experiências são contínuas e frenéticas, através de imagens de alta qualidade transmitidas por tevê, cinema, fotos, vídeos e até vitrines de loja. Antigamente, ao contrário, a experiência de visão da humanidade era só a arte figurativa: quadros e esculturas nas igrejas e nos palácios ou nos raros museus. Essas obras continuam sendo produzidas, mas são relativizadas pelas experiências estéticas do outro tipo. Nos dias de hoje, o artista oferece a “tradicional” obra plástica que chega ao usufruidor no final de um processo que lhe é estranho. Pensamos no desenfreado interesse pelo futebol: a visão de uma partida tem valor estético maravilhoso, e o espectador de tevê vive uma experiência envolvente e fascinante. Por outro lado, percorrendo uma exposição de arte contemporânea, o visitante não tem tempo para aprofundar o conhecimento da história nem o processo criativo do artista, bombardeado como é por mensagens estéticas muito mais intensas e diretas. Então, é comum considerar aquela “arte” como um imbróglio", enumera Claudio Strinati em um dos trechos da entrevista.

A crítica de arte mexicana Avelina Lésper também afirma que a arte contemporânea não existe. Em seus argumentos sobre os porquês da arte contemporânea ser uma “arte falsa“, ela apresentou a conferência “El Arte Contemporáneo- El dogma incuestionable” na Escuela Nacional de Artes Plásticas (ENAP).

Segundo ela, a carência de rigor nas obras permitiu que o vazio de criação, o acaso e a falta de inteligência passassem a ser os valores desta arte falsa, entrando qualquer coisa para ser exposta nos museus. Além disso, o Ready Made, expressando perante esta corrente “artística” uma regressão ao mais elementar e irracional do pensamento humano, um retorno ao pensamento mágico que nega a realidade, fez com que a arte fosse reduzida a uma crença fantasiosa e sua presença em um mero significado. Da mesma maneira, a figura do “génio”, artista com obras insubstituíveis, já não tem possibilidade de manifestar-se na atualidade. Consequentemente a substituição constante de artistas dá-se pela fraca qualidade de seus trabalhos.

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Assim Lésper afirma que, ao conceder o status de artista a qualquer um, todo o mérito é-lhe dissolvido e ocorre uma banalização. Ela cita, por exemplo, as obras de arte contemporâneas produzidas para serem executadas sobre plataformas digitais: “O artista do ready made atinge a todas as dimensões, mas as atinge com pouco profissionalismo; se faz vídeo, não alcança os padrões requeridos pelo cinema ou pela publicidade; se faz obras eletrónicas, manda-as fazer, sem ser capaz de alcançar os padrões de um técnico mediano; se envolve-se com sons, não chega à experiência proporcionada por um DJ; assume que, por tratar-se de uma obra de arte contemporânea, não tem porquê alcançar um mínimo rigor de qualidade em sua realização", explica para em seguida completar, "nos dias que correm, a arte deixou de ser inclusiva, pelo que voltou-se contra seus próprios princípios dogmáticos e, caso não agrade ao espectador, acusa-o de “ignorante, estúpido e diz-lhe com grande arrogância que, se não agrada é por que não a percebe".

Contemporaneidades: Bauman aplicado as artes Mas seria esse um problema que atinge apenas as artes? Esse vazio, essa arrogância, essas falhas no que se propõe a fazer? Não faço parte do time dos que creem que a arte contemporânea não existe, mas daqueles que a consideram uma arte efêmera, intimamente relacionada com o mundo, o tempo e as relações em que estamos inseridos. Como afirma Zygmunt Bauman: "os tempos são “líquidos” porque tudo muda tão rapidamente. Nada é feito para durar, para ser “sólido”. Disso resultam, entre outras questões, a obsessão pelo corpo ideal, o culto às celebridades, o endividamento geral, a paranóia com segurança e até a instabilidade dos relacionamentos amorosos. É um mundo de incertezas. E cada um por si”, conclui.


Chandra Santos

Jornalista.
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