Chandra Santos

Jornalista

Pisando em flores

Quem passa por algumas ruas da Vila Madalena, em São Paulo – SP, não corre mais o risco de cair em um buraco. Isso porque ele está bem visível graças ao trabalho da artista Andressa Frugoli. Há anos ela usa as cores do graffiti para dar vida a jardins artificiais em ruas esburacadas.


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“Acredito que desde sempre - como toda criança criativa e ou ativa - eu desenhava em tudo: papel, móveis, paredes... O que aliás, continuo fazendo”, diverte-se Andressa, “Comecei a frequentar ateliês e oficinas de arte aos 11 anos e nunca mais parei.”

Graduada em artes, Andressa possui um currículo vasto: “Me graduei em letras, gestão escolar e licenciatura do ensino superior, dei aulas por dez anos, pois ganhei bolsas de estudo, mas nunca deixei de pintar. A formação acadêmica em artes só veio em 2010”, revela Andressa em entrevista exclusiva ao blog Sete Artes.

Comparando seus trabalhos como se fossem filhos, ela afirma que é difícil escolher um. No entanto reconhece que o que ganhou maior destaque por parte do público foi a intervenção urbana 'Buracos em Flor'.

270748_1961267914205_994645_n.jpg A série começou após Andressa ter passado em uma cratera na marginal Tietê. Seu protesto pacífico e inovador já rendeu mais de cem flores nas ruas de São Paulo e tem ajudado de forma criativa os demais motoristas a se desviarem dos buracos – um problema presente em quase todas as cidades brasileiras. “Por aqui, o asfalto é pior porque não é cartão-postal. Você vai até a avenida Paulista e não vê buraco. É tudo liso. Essa maneira de mudar a demografia da cidade é reflexo do 'jeitinho brasileiro’ de levar as coisas”, lamenta Andressa em entrevista ao portal R7.

Com o uso de vários tubos de spray coloridos, a artista dá vida a um jardim artificial no piche perfurado. É como se um arco-íris brotasse através dos buracos tomando conta da paisagem cinza. Ele chama a atenção para o descaso e também para o problema. Plasticamente é bem atraente. Imagine só em frente a sua residência várias flores pelo chão. 270748_1961267994207_7132079_n.jpg

As obras de Andressa fazem parte de um estilo de arte até bem pouco tempo marginalizado (no sentido de “estar a margem das outras artes”, por favor). Conhecida como graffiti, essa forma de manifestação artística em espaços públicos, existe desde o Império Romano.

De acordo com informações do Portal Aprendiz, os graffittis da era moderna generalizaram-se pelo mundo a partir de maio de 1968, quando, no contexto de revolução política e cultural, os muros de Paris foram tomados por inscrições de caráter poético-político. Em seguida popularizaram-se nas ruas de Nova York. E na década de 1970 chegaram ao Brasil, mais fortemente em São Paulo. Primeiro com pichações poéticas e depois com a stencil art (com reprodução seriada). Já nos anos 90, o graffiti ampliou sua presença para as periferias no rastro do movimento hip-hop.

(Abro aqui um breve parêntese para que possamos entender um pouco sobre a relação pichação x graffitti. Enquanto a primeira é composta apenas por letras, o segundo é baseado em desenhos cujas figuras utilizadas nas pinturas são pensadas, elaboradas, desenhadas e coloridas cuidadosamente, para que representem aquilo que o artista quer mostrar. Ambas são intervenções na paisagem urbana que estimulam a reflexão da população sobre o que tema apresentado. Apesar de andarem sempre a margem da sociedade, o caminho dessas duas artes se diferenciou nos últimos anos. Enquanto a pichação continua sendo discriminada, o grafite brasileiro ganha cada vez mais espaço. Recentemente até no design de interiores, mas isso é assunto para outro post.)

(Rosane Cantanhede, em sua tese de conclusão de mestrado acadêmico para o programa de pós-graduação em Ciência da Arte na Universidade Federal Fluminense (UFF), afirma que “grafites e pichações são como dois lados da mesma moeda, ora se mostram em formas e pinturas elaboradas, ora sob a forma dos mais variados signos e marcas, construídos segundo uma particular leitura de mundo. Sobrepostos sobre as superfícies da cidade revelam ações em que a pintura e a escrita constituem a base de execução de suas diferentes formas. São imagens revestidas de caráter político, contestatório e social, agenciando e mediando múltiplas referências culturais e que se deixam contaminar pelos meios de comunicação ao mesmo tempo em que fazem uso do repertório visual das culturas de massa e da história da arte. Seu método de criação permite que a cada momento se incorpore ao processo de execução novas técnicas, estilos e superfícies”. Aliás, esse trabalho riquíssimo pode ser lido na integra aqui.)

Vale destacar que hoje o graffiti brasileiro é reconhecido entre os melhores de todo o mundo. A dupla OSGEMEOS e o artista Eduardo Kobra são os representantes mais expressivos desse movimento.

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Andressa Frugoli, que iniciou a série “Buracos em Flor” por meio de um protesto, já tem opinião formada quando o assunto se refere a arte produzida pelos talentos brasileiros e a repercussão da mesma no exterior: “Considero que estamos em um excelente momento, artistas novos sendo valorizados aqui e lá fora. Mas ainda falta muito, tanto por parte de iniciativas políticas, como por parte das galerias e do público. Porque temos muitos artistas maravilhosos, que estão no anonimato e outros caíram no esquecimento. Costuma-se 'viciar' em determinados artistas, sempre os mesmos nas galerias, leilões e bienais, com raras exceções. É um círculo bem fechado, não abrem os olhos para novos talentos. Espero continuar presenciando mais mudanças”, declarou em entrevista ao blog Sete Artes.

Por enquanto, o site de Andressa está em construção. Mas, é possível encontrá-la nas redes sociais, em especial no Facebook.


Chandra Santos

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