penetra surdamente no reino das palavras...

E lá que estão os poemas, é lá que está a vida que espera ser escrita!

.MariBlue.

MariBlue Gomes é uma peixa-marciana, meio Dori, meio Clarice. Acredita verdadeiramente na poesia da vida e na vida da poesia.

Quem quer amigos chatos, invejosos e inconvenientes?

Será que estamos costurando bem as nossas relações? Será que arrematamos direito a linha ao final de cada relacionamento? Ou estamos fazendo de nosso coração uma velha colcha de retalhos, cheia de pedaços que não deveriam mais estar ali?


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Tinha ouvido recentemente um amigo dizer assim: ‘meu perfil do face tá bloqueado por uns dias. É que eu percebi que tenho mais gente me vigiando do que amigos’. Ouvi o desabafo com certa estranheza, mas não tive tempo para digerir o assunto, uma vez que meu amigo continuou a conversa, mudamos o tema e esqueci o problema.

Alguns dias depois, uma amiga relata que desabilitou o perfil no facebook, pois estava sendo vigiada pelo ex. Achei aquilo muito, muito estranho. Daí que respondi de imediato: ‘ué, tenho perfil no face, mas não tem ninguém me seguindo ou perseguindo! E ela, replicou ligeira: ‘é porque você não tem ex'. Na hora não respondi. Mas algo me incomodou na fala de ambos, nos relatos e, claro, na resposta que recebi da amiga.

Aprecio bastante a interação com os amigos, especialmente aquelas em que eles se contrapõem a alguma ideia, comportamento ou opinião que eu tenha expressado ou manifestado. Aprecio porque posso refletir e analisar meu próprio comportamento tendo a chance de melhorar algo ou reforçar qualidades que eu considere importantes.

No caso específico, há duas coisas básicas a explorar: as redes sociais como vitrine para as glórias, atividades e conquistas pessoais, bem como a responsabilidade de saber lidar com as consequências criadas quando queremos ter popularidade, sermos curtido(a)s, sentirmo-nos desejado(a)s e até mesmo sermos invejado(a)s. Entretanto, a maioria das pessoas dispensa uma preparação para lidar com o fato de ser ‘vigiado’ por um parceiro ciumento, inseguro ou imaturo. Ou por um amigo(a) possessivo e invejoso(a). Ou talvez por pais e mães controladores ou excessivamente cuidadosos. E ainda por membros da família inconformados com o teu sucesso e também com curiosos de plantão que, ‘de passagem’, visualizaram teu perfil para aquela ‘olhadinha’ básica. A lista é bem extensa.

E, atire a primeira pedra quem nunca, em dado momento, esteve em um desses papéis acima descritos. E que pelo menos por curiosidade tenha visualizado o perfil de um(a) ex, de um(a) parceiro(a), de um amigo(a), de um(a) concorrente, etc, etc, etc.

Até aí tudo bem. Mas o que de fato me incomodou no comportamento de ambos foi que os dois desabilitaram os seus perfis. E os amigos dessas duas pessoas, que não se incluem nesse rótulo de ‘vigilantes inconvenientes’ ficam privados da interação virtual com pessoas que possivelmente consideram.

Acho estranho eu ter de me desfazer de muitos amigos, ainda que virtuais, em função de dois ou três, que talvez não merecessem nem a minha consideração. A meu ver uma solução simples e bastante eficaz seria excluí-los ou bloqueá-los, o que pouparia os demais amigos e ‘puniria’ somente os amigos chatos.

Foi daí que floresceu a reflexão: será que estamos costurando bem as nossas relações? Será que arrematamos direito a linha ao final de cada relacionamento? Será que estamos avaliando bem quando é recomendável remendar uma relação? É possível que estejamos cerzindo roupa nova com remendo velho? Ou estamos fazendo de nosso coração uma velha colcha de retalhos, cheia de pedaços que não deveriam mais estar ali?

Da fala da amiga dizendo que não sou vigiada porque não tenho ex, tiro a segunda lição. Talvez eu não seja (ou não saiba que seja) vigiada porque faço questão de manter laços de afeto verdadeiros; talvez porque prefira definir bem o tipo de relação que tenho com cada um de meus amigos; talvez porque meu ex seja ex mesmo e o relacionamento terminado não sobreviva de flashbacks; talvez porque eu saiba que meu perfil no facebook não deve ser vitrine para o que acontece em minha vida, ainda que por lá eu compartilhe algumas muitas alegrias e poucas intimidades.

Daí que mudar status de relacionamento, provar que estou feliz – ou infeliz –, dar mostras de tudo o que posso, faço e aconteço postando ‘trocentas’ fotos no instagram, pode até ser uma coisa bacana.

Especialmente se eu quiser amigos chatos, invejosos e inconvenientes.

Affffs!

Pensando bem...

Melhor não!


.MariBlue.

MariBlue Gomes é uma peixa-marciana, meio Dori, meio Clarice. Acredita verdadeiramente na poesia da vida e na vida da poesia. .
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