penetra surdamente no reino das palavras...

E lá que estão os poemas, é lá que está a vida que espera ser escrita!

.MariBlue.

MariBlue Gomes é uma peixa-marciana, meio Dori, meio Clarice. Acredita verdadeiramente na poesia da vida e na vida da poesia.

Todos merecemos um destino fabuloso; nada mais, nada menos

Uma breve reflexão a partir do filme ‘O fabuloso destino de Amélie Poulain’, de Jean-Pierre Jeunet, uma brilhante referência da cinematografia francesa. O filme é uma narrativa encadeada desde o nascimento à idade adulta da protagonista Amélie Poulain. Uma narrativa entremeada por uma fotografia esplêndida e trilha sonora perfeitamente composta por Yann Tiersen. O roteiro revela o quanto os sonhos de pessoas comuns são importantes e o quanto as nossas ações individuais podem ser determinantes na realização dos sonhos, os nossos e os das pessoas com quem convivemos.


Uma vida fabulosa! Um destino grandioso!

Será que é isso o que nossos pais desejam para nós quando nascemos? Será que é isso que fazemos por nós, à medida que crescemos e nos tornamos adultos?

O filme ‘O fabuloso Destino de Amélie Poulain’ (Jean-Pierre Jeunet, 2001) conta a estória de Amélie Poulain, uma jovem que se muda do subúrbio para o bairro parisiense de Montmartre, onde começa a trabalhar como garçonete. A partir de sua observação do cotidiano e das pessoas com quem se relaciona a jovem identifica algumas arestas que podem ser aparadas. Assim, a partir de pequenos gestos, ela passa a ajudar as pessoas que a rodeiam, descobrindo nessa empreitada um novo sentido para sua existência.

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A menina Amélie (Audrey Tautou) nem de longe teve uma infância normal. O pai, que era médico, acreditou que a pequena tinha sérios problemas cardíacos desde o primeiro exame realizado na filha, uma vez que seus batimentos iam do repouso absoluto para a aceleração intensa em segundos. Os sintomas eram ocasionados pela comoção que a menina sentia no momento do exame, pois era o único momento em que pai e filha tinham contato físico. A mãe de Amélie, tão cheia de manias quanto qualquer outro ser humano normal sobre a face da terra, alfabetizou a filha e a manteve sob a rigorosa redoma de proteção e zelo exagerados. A única opção para a pequena criança era a de observar e fruir o máximo possível do microcosmo a ser explorado por ela com a permissão dos pais.

Acredito ter sido essa única opção de Amélie o fato determinante que a salvou de uma vida insossa e morna. Para a menina, que vivia isolada do mundo e cujos pais eram a única referência social, cada pequeno detalhe de cada pequeno acontecimento era uma grande chance de uma intensa e minuciosa observação participativa e atenta, em que cada nuance e cada faceta do objeto ou fato era amplamente provada em seus mais diversos aspectos: sabor, textura, odor, coloração e, claro, os possíveis efeitos sobre as outras pessoas.

Essa rica oportunidade de observar e experimentar as coisas com tempo, curiosidade e prazer dotou a Amélie adulta de uma peculiar capacidade de tornar a vida das pessoas à sua volta um pouco mais feliz. A partir do momento em que ela encontra um pequeno tesouro no banheiro de seu apartamento, que supostamente seria do antigo morador, Amélie começa a trilhar o seu destino fabuloso. E desde então passa a tornar fabulosos os destinos das pessoas com as quais entra em contato.

Poderíamos imaginar Amélie como sendo uma versão moderna de fada-madrinha que vai realizando sonhos e desejos, transformando magicamente as vidas de pessoas que mal conhece apenas agitando vezes seguidas uma varinha de condão ou estalando os dedos, semelhante ao que estamos habituados quando vemos na televisão ‘realities’ que transformam ‘plebeias em princesas’ e ‘matutos em playboys’; ou quando nos vestimos muito mal e um ‘esquadrão’ vem prontamente nos socorrer e nos libertar desse tão grandioso problema.

Definitivamente, Amélie não possui um dispositivo mágico e poderoso que a ajude a traçar o seu destino e a interferir determinantemente no destino de outras pessoas. Ela possui apenas um coração puro e sensível, aberto às dores alheias, pleno do ardente desejo de ver felizes as pessoas em volta. E possui também olhos bem abertos para perceber as necessidades e as dores alheias.

Quantos de nós tivemos a oportunidade de, apenas no dia de hoje, parar o que estivéssemos fazendo para simplesmente contemplar algo? Para admirar uma árvore florida, um belo pôr de sol ou um beija-flor sugando o néctar de uma flor? Quantos de nós paramos um minuto sequer para olhar com olhar mais sensível a possível dor de nosso par, pai, filho, mãe, esposa, amigo? Quantos de nós sabemos decifrar o código para adentrar um coração? (Me parece que apenas as crianças o sabem de cor).

Pois bem, não somos Amélies, mas podemos aprender com essa personagem que não custa muito dedicar alguns minutos de nosso tempo em ajudar alguém. Podemos aprender ainda que nem sempre é de ajuda material que o outro necessita, às vezes é apenas de um par de ouvidos e de um olhar atento. Que às vezes podemos ser mais criativos e inventar um jeito mirabolantemente simples para unir um casal, reaproximar famílias ou promover amizades. Podemos aprender com a fascinante Amélie que pequenos gestos fazem a mesmo a diferença e que é distribuindo amor que recebemos amor.

E como faremos tudo isso, que parece requerer muito tempo e esforço? Eis que surge a pergunta. Mas a resposta vem simples. Basta perceber a riqueza e o significado dos detalhes, colecionar simbólicos amuletos, se encantar com miudezas, desbravar o subterrâneo dos sentimentos, destrinchar os enigmas do coração, desativar as correntes paralisantes do medo, do rancor e da mágoa, reagir e brincar como uma criança, olhar com outro olhar, traçar planos infalíveis, arquitetar projetos fabulosos, enfim, vale tudo quando o assunto é aproximar pessoas e deixar o amor fluir. O filme é brilhante no que tange à sua singela referência ao universo infantil, ao imaginário, ao fabuloso; também o é no que diz respeito à sincronia do enredo, trilha sonora (selecionada especialmente para o filme por Yann Tiersen) e belíssima fotografia. Cada detalhe em perfeita harmonia, um mundo mágico de cores e sons, em que cada adulto encontra a sua criança interior e pode livremente brincar com este(a) menino(a) que ainda se esconde dentro de si mesmo. Um relato de pessoas comuns, com manias e medos, vontades, desejos e muitos sonhos. Que anseiam um dia realizar.

Por essa razão devemos sempre lembrar que, no final das contas, um pequeno detalhe na vida de uma pessoa pode transformá-la para sempre.

Para o mal ou para o bem.


.MariBlue.

MariBlue Gomes é uma peixa-marciana, meio Dori, meio Clarice. Acredita verdadeiramente na poesia da vida e na vida da poesia. .
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