penetra surdamente no reino das palavras...

E lá que estão os poemas, é lá que está a vida que espera ser escrita!

.MariBlue.

MariBlue Gomes é uma peixa-marciana, meio Dori, meio Clarice. Acredita verdadeiramente na poesia da vida e na vida da poesia.

‘A morte do texto’ ou ‘O balé de palavras’

Deixar de escrever algo é dar morte ao texto que poderia ter sido. E tudo que poderia ter sido e não foi gera angústia e inquietação. Por essa única e forte razão, escreva. Não deixe um texto morrer!


ballet.jpg Fonte da imagem: http://www.zazzle.com.br/arte+da+palavra+papelaria

Ela tinha o texto pronto na sua mente, ele estava lá vívido, cristalino e contundente. Sim o argumento era forte o bastante para resultar num bom produto.

Mas ela inventou de fazer outra coisa, e outra coisa, e tantas outras coisas mais, daí o tempo passou, o argumento murchou, a força se esgotou e o que seria um texto tornou-se uma mera intenção.

Mas e o que faz um texto existir? O que faz com que ele deixe de ser uma intenção e passe a ser um produto, um bom produto, uma produção de excelência? O que motiva as pessoas a escrever?

Ela não sabe bem como explicar. Mas com ela acontece assim: toda vez que algo a comove, surpreende, ou lhe chama a atenção, uma centelha se acende em seu peito e aquece o seu coração. Ela pode sentir o calor. E na sua mente milhares de palavras iniciam uma dança frenética que vai aos poucos perdendo o ímpeto e ganhando suavidade. Então a dança se torna um singelo balé em que ela começa a apanhar palavras daqui e dali; por vezes ela colhe duas muito parecidas e custa a optar por uma delas. Outras vezes ela cata uma palavra muito forte ou pesada e após muito relutar, ou utiliza ou descarta. Algumas palavras são desastradas. Outras engraçadas. E há as dramáticas e tristonhas, as revoltadas e as medonhas.

Com ela, sempre que a dança começa é necessário prestar atenção.

Ssshhhhhhhh!

shhhh.jpg Fonte da imagem: http://brasildelonge.com/2013/01/ Toda a atenção possível a fim de ouvir o que as palavras querem dizer. Elas dizem o que querem o tempo todo. Mas nem sempre dizem o que desejamos que digam, por isso, as escolhemos.

Outro detalhe importante: o texto precisa ser escrito na hora em que ele nasce. Pelo menos o seu esboço. Com ela é assim. Da última vez que um texto borbulhou em sua mente e ela não registrou, perdeu para sempre as belas ideias que teve.

Por essa razão ela acredita que um texto não deve ser represado, muito menos adiado. No exato momento em que ele surgir, deve ser liberado, deve ter o registro imediato, senão irá pairar ad aeturnum no reino das palavras. Ela sabe que teria um belo resultado, pois a matéria-prima para a elaboração textual era de boa qualidade. E lamenta a perda de mais um. Ela não quer chorar o texto não elaborado. Ela que ver as palavras soltas, libertas e libertinas, tecendo o fio do texto.

Mas ela deixou o texto morrer! Ela o deixou partir, desaparecer... Ela deixou as palavras perderem a força, perderem a graça, perderem o encantamento. Um prejuízo imaterial, considerando a quantidade infinita de possibilidades que as próximas palavras escritas poderiam ter.

natural.jpg Fonte da imagem: https://literaturaemcontagotas.wordpress.com/tag/texto-literario/

Por uma singela razão, dileto leitor, é que esse texto foi produzido: para velar a morte de um texto anterior que por tristes e desconhecidos motivos não foi escrito...


.MariBlue.

MariBlue Gomes é uma peixa-marciana, meio Dori, meio Clarice. Acredita verdadeiramente na poesia da vida e na vida da poesia. .
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