penetra surdamente no reino das palavras...

E lá que estão os poemas, é lá que está a vida que espera ser escrita!

.MariBlue.

MariBlue Gomes é uma peixa-marciana, meio Dori, meio Clarice. Acredita verdadeiramente na poesia da vida e na vida da poesia.

Travessia na faixa de pedestres, gemelares e amores não realizados

Ah! Como ele era lindo! Alto e elegante, naquela roupa alva, tão alva quanto seus dentes branquíssimos, e os seus cabelos castanhos, num corte médio, para o lado com uma franja que lhe cobria parte das têmporas... Ah! Como era bom ter de acordar todas as manhãs para contemplá-lo.


Ela ia com a irmã para o trabalho todos os dias. Elas iam de carro, então a irmã ficava no hotel em que trabalhava no centro da cidade e ela seguia para o trabalho ali nas imediações.

Ele atravessava a faixa de pedestres quase todos os dias no mesmo horário. E aquela visão estonteante era a melhor parte do dia dela. O seu coração de mocinha apaixonada começava a acelerar sempre que ela e a irmã se aproximavam do hotel. E faltava sair pela boca quando ela o avistava caminhando em direção à faixa de pedestres.

faixa de pedestre.jpg Fonte da imagem: Internet

Ah! Como ele era lindo! Alto e elegante, naquela roupa alva, tão alva quanto seus dentes branquíssimos, e os seus cabelos castanhos, num corte médio, para o lado com uma franja que lhe cobria parte das têmporas... Ah! Como era bom ter de acordar todas as manhãs para contemplá-lo.

Um dia sua irmã surgiu com uma novidade: o monumento era duplo, aquela beleza toda não era única, mas plural. Ele era dois. Melhor dizendo, ele tinha um irmão gêmeo. Pasma e duplamente apaixonada ela não cabia em si de tanta felicidade! Ela não sabia se via e sonhava com um deles ou com os dois.

Até que um dia numa manhã cinzenta e chuvosa, eis que a oportunidade está criada: ele vai atravessar a faixa e está chovendo. Ela sabe que não pode perder aquela chance: baixa o vidro do carro, sorri o seu melhor sorriso e pergunta ao deus grego se ele quer uma carona. O deus grego sorri o seu mais tímido - e alvo - sorriso mas recusa a carona, confessando que mora ali perto. E prosseguindo em seu caminho.

sorriso_tímido.jpg Fonte da imagem: Internet

Vieram algumas outras manhãs depois de encontros, sorrisos, olhares e adeuses e nenhuma conversa. Os dias seguiam na mais inocente e pura contemplação do belo.

Até que um belo dia...melhor dizendo, uma bela noite, quando ela esperava a irmã para retornarem do trabalho, na altura da mesma faixa de pedestres de todas as manhãs, quem é que se aproxima do veículo? Sim, ele mesmo, o deus grego, altivo e sorridente. Ele diz 'oi', ela desconcertada e feliz, responde 'oi' e os dois trocam algumas palavras. Por fim, ele lhe entrega um cartão onde ela vê o nome do seu príncipe encantado desenhado em letra delicada e sinuosa: 'Sr. encantado deus grego de oliveira, cirurgião-dentista'.

Mal sabia ele que àquela altura já havia se tornado o tema principal dos mais doces devaneios e dos mais audaciosos sonhos dela, tendo sido eleito o pai dos filhos gêmeos que ela sempre desejara ter.

gemeos.jpg Fonte da imagem: Internet

A euforia durou até o dia em que ela, seduzida pela possibilidade de se casar com um gemelar (como se isso aumentasse vertiginosamente as chances de que ela concebesse gemelares), agendou uma consulta e lá se foi para a decisiva entrevista com o futuro pai de seu filhos gêmeos.

A espera na minúscula sala do consultório foi um misto de tensão e nervosismo, especialmente por encontrar ali um conhecido do trabalho que lhe parecia saber dos planos mirabolantes que a sua mente apaixonada estava tecendo. Até que a secretária declamou seu nome a plenos pulmões.

espera.jpg Fonte da imagem: Internet

O coração parecia um tambor. Entrou no consultório tremendo feito vara verde. Ela nem sabia como começar aquela conversa. Provavelmente ele deu início ao diálogo.

A única coisa que ela se lembra do que conversaram naquela manhã, foi quando ele lhe deu a pior notícia que ela poderia receber na vida: ele e o irmão não eram gêmeos. Eram apenas muito parecidos.

Naquele cruel momento todo o amor que ela nutrira por tantos meses desapareceu para sempre.


.MariBlue.

MariBlue Gomes é uma peixa-marciana, meio Dori, meio Clarice. Acredita verdadeiramente na poesia da vida e na vida da poesia. .
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