penetra surdamente no reino das palavras...

E lá que estão os poemas, é lá que está a vida que espera ser escrita!

.MariBlue.

MariBlue Gomes é uma peixa-marciana, meio Dori, meio Clarice. Acredita verdadeiramente na poesia da vida e na vida da poesia.

Acabo de sentir um gosto da infância

Posso afirmar que minha mãe ao nos trazer aquele lanchinho diário, deixou para os filhos um lindo ensinamento, do qual tomei consciência somente depois de adulta.


ecole01.jpg Fonte da imagem: Internet

Acabo de sentir um gosto da infância. Lembro bem que minha mãe trabalhava fora e trazia para os filhos pequenos ao final do dia uma ‘matula’ com um lanchinho. Esse lanchinho variava nos dias da semana e poderia ser um biscoito recheado, uma banana, pão com manteiga ou quindim (que era o meu preferido).

Ela sempre distribuía o lanche em pelo menos quatro partes iguais (que era o número das crianças menores) e quando tinha apenas um dos itens ela também repartia em quatro pedaços, assim cada um de nós comeria pelo menos um pedaço.

Algumas vezes ela trazia embrulhado num guardanapo um pão com manteiga e noutro uma banana. Muitas vezes o gosto da fruta impregnava o pão com manteiga. E eu comia. E achava aquele gosto muito bom.

Curiosamente, fiz um ‘embrulho’ parecido hoje pela manhã, ao organizar a bolsa térmica em que carrego o lanche para o trabalho: levei banana em um saquinho plástico e pão com manteiga embrulhado num guardanapo.

pao.jpg Fonte da imagem: Internet

Há poucos minutos quando aqueci o pão no microondas da copa do trabalho, me preparando para comê-lo acompanhado de chá (outro sabor característico da infância) ao retirar o guardanapo e dar a primeira mordida no pão quentinho senti aquele gosto tão peculiar: uma onda de recordações invadiu minha mente e aqueceu meu coração.

Éramos uma família numerosa e humilde. Meus pais trabalhavam e tudo o que recebiam traziam para nossa casa, para alimentar muitas e famintas bocas. Minha mãe, ao nos trazer aquele lanchinho diário, deixou para os filhos um lindo ensinamento, do qual tomei consciência somente depois de adulta.

O primeiro deles é o fato de que ela em sua generosidade e amorosidade maternais deixava de comer as sobremesas e os lanches que lhe eram servidos no trabalho para levar para nós, seus filhos, as guloseimas que jamais poderíamos provar se nossos pais tivessem de pagar numa compra de supermercado. Aprendemos daí o quanto uma mãe e um pai são capazes de se sacrificar para dar de comer e de beber aos seus rebentos.

O segundo ensinamento está na partilha: se tivesse lanche suficiente era um para cada filho pequeno, se tivesse mais era um para os filhos maiores também. E se tivesse apenas um era repartido de maneira que todos comessem ao menos um pedacinho para provar o sabor. O que me foi ensinado lá nos idos da infância carrego comigo até hoje: sempre que como alguma gostosura penso se tem mais alguém que gostaria de comer, então me sirvo de apenas uma parte, pois se mais alguém quiser não passará vontade.

Além disso, quando tenho a rara oportunidade de sentir o gosto de banana impregnado no pão com manteiga, aproveito para fechar os olhos e voltar àquela época.

sabor-de.png Fonte da imagem: Internet


.MariBlue.

MariBlue Gomes é uma peixa-marciana, meio Dori, meio Clarice. Acredita verdadeiramente na poesia da vida e na vida da poesia. .
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