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Daniel Belvino

E agora, vamos discutir?

La Renga: minha sorte ao conhecer uma excelente banda de rock argentina antes da praticidade da internet

Muitos sabem como era difícil conhecer e adquirir música antes da internet. Agora eu aproveito uma das minhas histórias dessa época para apresentar uma banda de rock argentina. Foi realmente um golpe de muita sorte na minha vida e fico feliz de poder falar deles hoje e espalhar música boa pela rede.


la renga esquina capa inside.jpg Parte de dentro e o disco La Esquina Del Infinito

No ano 2000 eu já tinha uma conta de email no Zipmail, mas a internet estava começando, principalmente no Brasil, e eu nem tinha um computador em casa, então ainda não tinha as facilidades para descobrir novas músicas como hoje. Foi quando agarrei a oportunidade quando a pergunta veio: “O que quer que eu traga pra você?”.

Esse era meu pai, indo para Buenos Aires em uma das raras viagens a trabalho que teve. Eu sabia que não era uma oferta para um presente caro e juntei essa minha vontade de conhecer músicas diferentes, inclusive porque não ouvia bandas argentinas no rádio. A minha resposta foi: “Você pode entrar em uma loja de discos e pedir um CD de uma boa banda de rock argentina?”, um pedido, quase uma súplica, pois sabia que era um trabalho a mais e não sabia o quanto ele estaria ocupado. Ele disse que sim e eu só fiz um pequeno lembrete: “De rock, hein?”.

Foi uma jogada muito arriscada. Eu não fazia ideia de como era o cenário rockenrolzístico do país, em que tipo de loja meu pai iria parar ou para quem iria fazer o pedido. Poderia acabar com um Secos & Molhados, Titãs das antigas, Raimundos, Sepultura (bons) ou Legião Urbana, Biquini Cavadão, Blitz, Titãs atual (ruins, na minha opinião). Acho que não adiantava explicar pro meu pai que tipo de rock que só ia complicar as coisas e além do mais, a ansiedade ficou quadruplicada pela aposta. Eu podia perder um presente importado e ficar com um peso de papel odiado.

Eis que chega essa banda chamada La Renga, em forma de um CD chamado La Esquina Del Infinito em uma embalagem de papelão especial de duas dobras, com um encarte interno e um visual muito bacana. Uma ótima primeira impressão, com certeza marcante.

la renga esquina capa front2.jpg Capa do CD La Esquina Del Infinito

Meu pai me avisa que o vendedor falou que essa banda estava bombando na Argentina, que era muito boa. Era a pura verdade, pois agora sei que esse é o álbum que seguiu sua explosão de sucesso, inclusive internacional.

Vou correndo para meu quarto, coloco o disco e… pauleira! A primeira música me decepciona um pouco. La Vida, Las Mismas Calles começa como um ensaio: parece um pouco cacofônico, com uma bateria leve de jazz, sopros, um baixo e entra a marcação pesada da bateria seca. Aí sim a pauleira com o riff da guitarra metal, os bumbos sem parar entre as batidas da caixa e a voz grave que parece estar arranhando aquela garganta até tirar sangue, mandando o espanhol em velocidade.

Eu não fiquei completamente decepcionado, mas pensei que tinha ficado com um CD de mais uma banda de heavy metal que ia ficar só gritando e tocando rápido por 11 faixas. Não tinha perdido todo o meu dinheiro naquela roleta, mas era como se tivesse ganhado só 10 reais na raspadinha. Na época eu realmente não curtia muito esse som heavy.

Eis que começa a segunda música e não apenas perdi a cara da desilusão, como me levantei e comecei a dançar. Olha só o nome da música: Motoralmaisangre (motor, alma e sangue, tudo junto mesmo). Os pratos da bateria explodem pra chamar a gaita e a guitarra a acompanhar uma tocada das mais rock n` roll. Daí em diante foi só amor.

Esse disco ainda é um dos meus preferidos, até por causa desse histórico, mas ele traz uma banda com um som que eu caracterizo como completo, cheio. Não falta nada, não sobra nada. O estilo do La Renga me lembra uma mistura de Led Zeppelin com AC/DC, mas claro, como virtude de um bom grupo, com um estilo próprio, realmente único. A pauleira está presente sempre, mas temos também certas “baladas”, como Cielo Del Desengaño que evolui para um rock lento e com um solo memorável, e En El Baldío, com uma história até triste de um anjo caído e um clipe bem anos 90. Veja:

Outra coisa que faz o som deles ser tão bom e me lembra o Led é o constante uso de elementos de jazz e blues. Sim, eles têm algumas músicas com a palavra blues no nome, mas não fica por aí. Os metais são parte constante do conjunto que faz essa sonoridade tão completa e ainda têm um papel de destaque frequente em solos e riffs, que se encaixam tão bem, que parecem ter nascido junto com esse tipo de música.

Eles são classificados por aí como uma banda de hard rock e heavy metal. Se fosse para escolher um, eu ficaria com o primeiro, deixando o segundo como uma influência clara. Acho que o que mais caracteriza o La Renga é essa mistura melódica e cheia de som do Led com a marcação seca e o peso do AC. A suavidade de Robert Plant com a gravidade de Brian Johnson. Mas essencialmente eles são mesmo uma boa e velha banda de rock n` roll, com aquela bateria ritmada que faz a cabeça balançar, ótimas bases acompanhando, grandes solos de empolgar e uma voz que realmente se destaca.

Pra quem gosta de rock o La Renga é definitivamente uma banda que vale pelo menos uma boa ouvida. E como disse no começo, fico feliz de comunicar isso e dizer que podemos escutar suas músicas no Youtube e comprar seus álbuns no iTunes.

O site deles é um pouco confuso, mas tem muitas informações, letras, vídeos e links para as redes sociais: larenga.com.

la renga esquina capa back.jpg Parte de trás do CD La Esquina Del Infinito


Daniel Belvino

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