pensando nessa gente da vida...

Reflexões de um educador que escreve para que não lhe falte o ar...

Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar"

COITOS INTERROMPIDOS

"Tínhamos que escolher uma faculdade quando o que mais queríamos era beber até cair. Tínhamos que encontrar a pessoa certa quando o que mais queríamos era experimentar a tudo e a todos. Tínhamos que interromper o coito quando nossos hormônios fervilhavam o nosso vigor sexual."


Juventude1.jpgVamos ser sinceros: a vida também é caos, ingratidão, decepção, enfim, como dizem, “o baguio é loco”. Crescer é sobretudo dolorido, pois os anos acumulam os nossos remorsos, arrependimentos, nossas culpas, tudo o que deveríamos ter feito, sido, dito, realizado. A passagem do tempo dói menos pelo envelhecimento da pele e dos órgãos do que pelo envelhecimento dos sonhos e ilusões, pelas lembranças do que não aconteceu por falta de coragem, de maturidade, de desprendimento, de ousadia. É impossível olharmos para trás com saudosismo tranquilo e resignado. A sabedoria parece sempre chegar atrasada, quando não nos aparenta ser mais útil, e seguimos questionando o porquê de não termos sabido, à época de nossa adolescência e/ou juventude, o que sabemos agora, justo agora que não ousamos, não nos permitimos mais, acomodados na rotina cega a que nos acostumamos.

Tínhamos que escolher uma faculdade quando o que mais queríamos era beber até cair. Tínhamos que encontrar a pessoa certa quando o que mais queríamos era experimentar a tudo e a todos. Tínhamos que obedecer a horários quando o que mais desejávamos era ver o nascer do sol deitados na grama com nossa turma. Tínhamos que entender a teoria da relatividade quando o tempo e o espaço estavam ao dispor de nossas vontades. Tínhamos que respeitar a hierarquia quando queríamos tratar a todos como irmãos. Tínhamos que ir à missa quando queríamos questionar as escrituras sagradas. Tínhamos que aprender o valor do dinheiro quando nos contentávamos com as mesadas de nossos pais. Tínhamos que interromper o coito quando nossos hormônios fervilhavam o nosso vigor sexual.

Tomar as decisões certas e válidas para toda uma vida, aos dezoito, vinte anos, é muito cruel; uma tarefa hercúlea e para poucos. Sim, porque existem aquelas pessoas que dão a impressão de terem nascido prontas, determinadas, como que adultos precoces, que não se rendem aos saborosos venenos pelo caminho. E, porque Lispector já avisara que se perder também é caminho, em algum momento muitos deles também haverão de se desorientar, de se desiquilibrar, muitas vezes sem se darem conta, lá à frente na vida, quando já não deveriam mais, quando poderá ser tarde demais, pois todo o conhecimento adquirido até então parecerá não lhes ter mais serventia alguma. Por isso mesmo, resgatar-se quando já se saiu da adolescência e da juventude é ainda mais difícil, visto que nos faltarão as censuras necessárias, a repreensão dos pais e a insegurança, restando apenas o rigor da lei - que, dependendo de quem se tratar, nem rigorosa será.

Nesse percurso, agarrando-nos ao otimismo, seguimos refletindo sobre nossas escolhas, nossas posições frente à vida, sobre o quanto estamos satisfeitos e realizados com o que fizemos e (des)construímos até o momento presente, sem conseguir fugir ao que nos pesa dolorosamente, principalmente às renúncias a que nos submetemos, seja por um amor que aprisiona, por convenção social, incapacidade, medo ou covardia. Não importa, o passado virá nos assombrar com suas cobranças enquanto vivermos, porque o tempo nos coloca face a face com tudo o que fomos e somos e inevitavelmente nos obriga a conviver com os resultados de nossas escolhas - e eles gritam alto, sem dó nem piedade.

No entanto, nada nunca estará perdido de forma indelével, pois nós, seres humanos, temos necessidade de buscar a felicidade, a qualquer momento e a qualquer tempo – e a qualquer preço, para aqueles cuja ética é algo inexistente. O amadurecimento traz consigo forças para nos embrenharmos diariamente nessa luta, à qual nos recusamos sucumbir. Nosso instinto de sobrevivência nos guia e nossos conhecimentos descortinam os caminhos pelos quais vamos tateando, hesitantes, para seguirmos sempre em frente, a despeito das perdas materiais, físicas e espirituais que essa jornada implicou e sempre implicará.

Vamos também nos tornando mais gente enquanto envelhecemos, digerindo tudo aquilo de bom que retivemos em favor da construção positiva de nossa trilha e da digestão saudável de nossas frustrações. Obviamente, acumulamos, além de dissabores, prazeres que revivem a cada lembrança e que nos forçam a renascer nesse compasso diariamente, tirando daqui de dentro de nós o melhor do que ficou guardado, a fim de que se neutralizem os ranços amargos que insistem em nos acompanhar. Essa ponderação e valorização do que nos fez e faz bem no seio de nossa miscelânea interior é imprescindível para nos reequilibrarmos, encontrando um porto-seguro emocional que nos sustente em meio a tantas dores e desilusões. Consolamo-nos até mesmo frente ao irônico descompasso de podermos comprar uma mobilete, uma motoca, um carro esportivo, uma passagem para o Hawaii e aquelas roupas de marca justamente quando a juventude já se foi, justamente quando tudo isso nem possui mais tanta importância para nós.

Percebemos, assim, que o tempo cura, acalma, elucida, mas numa ordem desordenada que revela o paradoxo da vida: sem os entraves que nos imputam durante nosso crescimento, não teríamos chegado nem perto de onde hoje estamos, não teríamos vivido um amor fiel e acolhedor, não teríamos diploma algum nem alguém em quem nos espelhar, porque a juventude nos passa a falsa impressão de que tudo podemos e de que a qualquer perigo somos incólumes - todo jovem se acha imortal. É preciso perder para ganhar; é preciso sofrer para gozar; é preciso chorar para sorrir; é preciso abrir mão para obter; é preciso não ter para ser. O absoluto a que visamos com o pulsar da juventude nas veias é inalcançável e dele retemos somente aquilo que nos é necessário, sem que queiramos ou percebamos.

Aquela antiga revolta com os mais velhos então aos poucos se transmuta em gratidão por terem nos ajudado a nos perdermos tendo para onde voltar; a nos apaixonarmos tendo em quem nos espelhar; a nos frustrarmos tendo opções para recomeçar; a nos equilibrarmos tendo em que nos apoiar. Por isso mesmo, sem um lar para retornar, uma cama para dormir, exemplos para seguir, alguém para amar, uma escola para aprender, não conseguiremos encontrar nada que combata o amargo ambientado em nosso eu e pareceremos estar fadados ao descompasso e ao desencontro, a uma ressaca incurável, afinal, é preciso ter saldo positivo para lidar com as cobranças da vida, sem que suas rupturas e permanências nos ceguem e nos paralisem. Pois a vida é um porre, mas é bela – não necessariamente nessa ordem...


Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar".
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