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Reflexões de um educador que escreve para que não lhe falte o ar...

Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar"

AMOR-PAIXÃO

"O amor-paixão é um sentimento arrebatador, no qual o sujeito perde a sensatez, deslocando-se para um plano de altíssima individualidade, uma vez que ele não ama o outro e sim o fato de estar amando, algo que lhe transcende - amor pelo próprio amor."


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O amor-paixão é um sentimento arrebatador, no qual o sujeito perde a sensatez, deslocando-se para um plano de altíssima individualidade, uma vez que ele não ama o outro e sim o fato de estar amando, algo que lhe transcende - amor pelo próprio amor. O sentimento acaba se tornando maior do que a sua própria vontade e já não se tem mais consciência sobre os próprios atos; daí ser incoerente tentar aplicar conceitos de certo e errado neste caso.

Este é o tema que perpassa o romance entre Tristão e Isolda, mito cuja provável origem remonta a lendas celtas do noroeste europeu, engendrando uma forma praticamente definitiva em obras de autores normandos, no século XII. Com o passar do tempo, a história foi incorporada ao Ciclo Arturiano, tendo sido Tristão transformado em um cavaleiro da Távola Redonda da corte do Rei Artur. Desde então, o mito de Tristão e Isolda vem tomando relevância, influenciando a literatura, a música erudita, o teatro e o cinema.

Ao longo do romance, os amantes Tristão e Isolda bebem um filtro mágico que lhes expropria a vontade própria e, a partir de então, eles já não mais dimensionam a noção de pecado, agindo independentemente de suas vontades, pois já estão tomados pelo amor-paixão. Cegos e arrebatados avassaladoramente por um sentimento que lhes transborda o raciocínio crítico, agem intempestivamente, a despeito de quaisquer normas e convenções que possam barrar-lhes a possibilidade de estarem juntos.

O herói do romance é Tristão, um cavaleiro que viola as leis regentes (trai o monarca) e, portanto, é avesso ao ideário cristão - caso contrário, o herói teria que ser o próprio rei. Na tradição cristã, o princípio básico da criação coloca toda criatura análoga a Deus e possuidora de vontade própria, o que implica ao indivíduo a capacidade de se colocar entre o bem e o mal.

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No que concerne à forma de amor, o cristianismo aceita somente a socializada, qual seja, o matrimônio, à luz da concepção de que o casamento civiliza o impulso do corpo e aplaca o impulso da carne, o qual pode desorientar a matéria. Nesse contexto, tudo o que transgride as normas do casamento é considerado pecado, ou seja, o amor-paixão era considerado um desvio da norma pela sociedade, por se tratar de um amor transgressivo e perturbador. Para os cristãos, portanto, a verdadeira felicidade era encontrada no casamento, isto é, a felicidade terrena seria possível.

Em contrapartida, no que tange à tradição pagã, a felicidade terrena não era possível de se alcançar, uma vez que a própria vida terrena é imperfeita. Atrelando-se ao ideário de correntes maniqueístas, a visão pagã concebe o homem como parte da luz, que representa o paraíso reinado pelo Pai da Grandeza, aprisionada pela matéria, que se encontra retida pelo rei das trevas. Dessa forma, o homem almeja sua reintegração à luz, libertando-se da matéria.

Encontram-se, ainda, na tradição pagã, influências das idéias de Platão, no que se refere ao fato de o homem ser a parte imperfeita do mundo perfeito, o que torna sua vida numa busca pela perfeição. Segundo o filósofo grego, o homem sempre traz consigo, no mundo das idéias, a imagem do perfeito, do absoluto, o que faz com que ele se ache incompleto naquilo que é na terra. Sendo assim, o eixo essencial da teoria platônica acaba por ser o desejo que impulsiona o homem para a unidade final.

Como se vê, os amantes Tristão e Isolda comportam-se de forma avessa à realidade cristã, pois, a partir do momento em que são tomados pelo amor-paixão, esquecem-se por completo das convenções matrimoniais, deixando-se levar tão somente pelo desejo. O sentimento é mais forte do que o temor de viver o pecado da carne, uma vez que já se isentaram de discernir, com racionalidade, entre o certo e o errado. Importante, aqui, destacar que o desejo torna-se mais intenso com a ausência do objeto desejado e com a presença de obstáculos que se interpõem entre o indivíduo e o objeto. Da mesma forma, alimenta-se do sofrimento, ou seja, cada vez que os amantes se separam, o sofrimento de ambos aumenta, juntamente com a dimensão de seu desejo.

No entanto, o que se deseja, ao ser arrebatado pelo amor-paixão, é o absoluto, o qual não pode ser realizado, uma vez que não existe objeto que comporte o absoluto. Assim sendo, o amor dos amantes não se realiza, pois não há possibilidade de algum objeto realizá-lo. Trata-se de um amor absoluto, ao passo que inexiste matéria absoluta. Com isso, os impulsos amorosos são impulsos a um sofrimento que é resultado da defasagem entre as dimensões do impulso amoroso (dimensões metafísicas) e o objeto amoroso (natureza existencial), do que decorre, naturalmente, o sofrimento dos amantes.

Acresce, ainda, a visão pagã de que o outro sempre parecerá mais perfeito, como que possuindo o que nos falta. Sob essa ótica, percebe-se que Tristão ama em Isolda o que ele próprio não tem, e vice-versa. O direcionamento amoroso, sob a égide do paganismo, sempre se dá do menos perfeito para o mais perfeito, que significa mais luz. Os amantes procuram, pois, um no outro, a luz a mais, o absoluto, o que torna este amor impossível de se concretizar.

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Por essa razão é que o amor-paixão é intrinsecamente ligado à morte, a qual inevitavelmente assoma quando o absoluto triunfa, pois somente a morte oferta o absoluto, enquanto que a existência é transitória e transitoriedade é óbice ao absoluto. Sendo assim, Tristão e Isolda encontram-se definitivamente, no plano material, ao final do romance, visto que, com a morte, cessam os obstáculos, alcança-se o definitivo.

O amor-paixão é o mesmo que arrebata a filha do rei Brutus, ao conhecer o cavaleiro Galaaz, personagem da lenda medieval “A demanda do Santo Graal”, perdendo a sensatez ao ponto de dirigir-se até a cama dele para confessar o seu amor. Aqui, o obstáculo, entretanto, é o próprio Galaaz, que guarda sua perfeição (é casto e virgem) para uma busca maior, o Graal. Assim, a donzela apaixona-se por alguém superior, também voltado para uma causa superior.

Galaaz é o herói perfeito, o único capaz da purificação extrema e contemplado com a visão próxima do Graal. É incumbido de trazê-lo para retirar o reino de Logres da desgraça em que se encontra. O herói torna-se, pois, o objeto de desejo de uma carência do reino, sendo que o povo procura no cavaleiro, que é o cavaleiro mais perfeito, tudo o que lhe carece - o desejo, nesse caso, confunde-se com o próprio objeto. Como não poderia deixar de ser, a realização absoluta terrena é inviável.

Ao longo do desfecho, urge um paradoxo. A demanda tenta retomar a Idade do Ouro em que o reino se encontrava quando possuía o Graal. A esperança de uma nova era simboliza-se pelo vaso, porém, o Graal não voltará, o que é um sinal de desesperança. Dialeticamente, o objeto dessa desesperança é a graça em estado pleno, o absoluto, que é inviável. Há a teoria da graça, mas o que reverte é a desgraça; há a teoria da bondade e do amor de Deus, mas este não concede o Graal ao final da jornada.

As duas lendas medievais analisadas são exemplarmente temáticas, uma vez que nos remetem, com exatidão, a uma visão do amor-paixão, um sentimento que transcende ao próprio eu, tolhendo dos sujeitos a capacidade analítica frente ao certo e errado preconizado pelas convenções sociais e morais, perdendo-se na busca, no outro, pelo que não se tem. Este, por sinal, é o amor que viria a ser característico da escola romântica, um sentimento triste que não se realiza e cujas permanências ainda se perpetuam no tempo e espaço contemporâneos.

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* Este artigo foi escrito com base nas aulas de Literatura Portuguesa, ministradas pelo Professor Hakira Osakabe, em 1989, aos alunos da graduação em Letras na Unicamp/SP.


Marcel Camargo

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