pensando nessa gente da vida...

Reflexões de um educador que escreve para que não lhe falte o ar...

Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar"

INIMIGOS ÍNTIMOS

"As pessoas com quem compartilhamos nossos segredos, anseios, alegrias e dores são mais propensas a usar tudo aquilo contra nós, pois têm munição de sobra em suas mãos. Por essa razão, nossas maiores decepções ocorrem justamente com aqueles que mais amamos, uma vez que deles jamais esperávamos nada além de apoio e gratidão."


pilula-da-desconfianca.jpgO senso comum nos aconselha a manter os amigos próximos e os inimigos por perto, porém, muitas vezes esses inimigos estão bem mais perto do que sonhamos. Se tomarmos como inimigo qualquer indivíduo que, consciente ou inconscientemente, suga nossas energias, achata o nosso moral, critica-nos negativamente em tudo e inveja nossa vida, ao ponto de nos prejudicar, então certamente eles estão bem do nosso lado, muitos deles dividindo nossas vidas, à espreita para puxar o nosso tapete sem escrúpulos. É preciso muita cautela e olhos bem abertos.

Logicamente, as pessoas com quem compartilhamos nossos segredos, anseios, alegrias e dores são mais propensas a usar tudo aquilo contra nós, pois têm munição de sobra em suas mãos. Por essa razão, nossas maiores decepções ocorrem justamente com aqueles que mais amamos, uma vez que deles jamais esperávamos nada além de apoio e gratidão. Infelizmente, quando nos expomos verdadeiramente para o outro, estaremos sujeitos a ter nossas fraquezas jogadas de encontro a nossas vidas, de maneira muitas vezes cruel. Todos corremos esse risco quando nos lançamos ao compartilhamento de vida com alguém, inevitavelmente.

O mesmo ocorre com relação aos nossos relacionamentos amorosos, em que estamos constantemente sujeitos a ter que encarar a quem nos entregamos nos devolvendo o melhor e o pior de nós por meio de distorções ofensivas e que nos violentam em nossa dignidade. Em meio às brigas e discussões, argumentos acusatórios vêm à tona, e costumamos diminuir o parceiro naquilo que nos foi tão sinceramente entregue. Quando com raiva, temos o poder de juntar tudo o que conquistamos em um amontoado de rancor e de mágoas com que atacamos dolorosamente quem mais amamos. Poucos saem ilesos desses embates massacrantes.

inimigos-300x300.jpgNão existe outra forma de nos relacionarmos, a não ser através da sinceridade naquilo que somos, queremos, pensamos, pois só teremos de volta verdades - se é que realmente as teremos - quando conseguirmos viver a sinceridade de nossa essência ao lado de quem quer que seja. Não há amizade, relação profissional, nem união amorosa que seja capaz de não sucumbir ao que não se sustenta, ao fingimento, a simulacros e máscaras. Correremos o risco de nos machucar e de amargar a ingratidão alheia nessa caminhada, mas teremos sempre que nos mostrar ao outro naquilo que somos mais transparentes.

Não custa estarmos sempre com os sentidos a postos, atentos aos sinais de inconsistência e incoerência nos atos e nas palavras das pessoas com quem convivemos, para que possamos discernir quem são nossos verdadeiros amigos, quem nos ama de verdade, quem gosta de nós mesmo quando estamos de mal com a vida. Uma hora ou outra, aqueles que não nos querem bem acabam escorregando em algum dizer, por um olhar, pelo silêncio inesperado que seja, portanto, é preciso que filtremos continuamente as expectativas que criamos sobre nossos parceiros de vida, de trabalho e de cama.

Embora nunca estejam em nossos planos, as decepções com pessoas que nos são muito caras serão recorrentes, tanto por conta das falsas idealizações que criamos a respeito delas, quanto em razão do simples fato de que cada pessoa oferece exatamente aquilo que possui, nada mais do que isso. Às vezes, nem nós mesmos tínhamos percebido que o outro nunca poderia nos dar aquilo que queríamos, ou até tínhamos e, mesmo assim, agarramo-nos à vã esperança de que ele mudasse. Quantas e quantas vezes não somos nós próprios os causadores dessas contrariedades que nos atingem?

Sim, é verdade que abrir o nosso coração significa deixá-lo vulnerável à dor e à desilusão, mas não é só isso. Abrirmos o nosso viver também nos levará ao encontro de muitas alegrias e compensações, para que sempre estejamos aprendendo e nos aprimorando, sem descanso, sem hesitação. Doar-se ainda é uma das melhores formas de se encontrar e de encontrar alguém por quem valerá a pena não ter desistido de buscar a felicidade verdadeira com que sonhamos, desde a mais tenra idade. É a vida, como sempre foi e será, dolorosa e difícil, mas não menos mágica e apaixonante.


Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar".
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