pensando nessa gente da vida...

Reflexões de um educador que escreve para que não lhe falte o ar...

Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar"

O AMOR E O SERTÃO

"Riobaldo não amou uma mulher. Riobaldo não amou um homem. Riobaldo amou Diadorim - o ser, a pessoa, a essência, aquilo que ele via de si mesmo através daqueles olhos, o que sorvia daquelas palavras, o que o encantava naqueles gestos, tudo o que Diadorim lhe oferecia em termos de prazer e dor."


montepedral_fotodivulgac3a7c3a3o_2.jpgA extensa narrativa de “Grande Sertão: Veredas” nos é apresentada pela voz do narrador-personagem Riobaldo, ex-jagunço, envolto por reminiscências de seu passado de bandoleiro, à época em que se engajara junto a um bando de jagunços, por amizade a Diadorim. À medida que os sertanejos embrenham-se por entre o sertão, o ambiente personifica-se, extrapolando a mera descrição plástica e tomando as dimensões de uma personagem que se funde à existência humana, a ponto de homem e sertão pensarem e agirem em uníssono – tem-se o sertão “transfigurado no inconsciente coletivo”, nas palavras certeiras de Gilberto Defina.

A travessia do sertão encerra tópicos universais, tais como amor, ódio, sofrimento, morte, que se desdobram em vários eventos – as guerras dos bandos de jagunços, as viagens heróicas, o pacto do narrador-personagem com o diabo –, os quais sustentam e justificam a periculosidade da jornada; porém, se viver é perigoso, amar é risco de morte. Eis que Riobaldo se percebe atraído por Diadorim – um amor improvável (entre jagunços) num lugar improvável (um sertão pouco idílico) - e, a partir desse desejo que não se concretiza, desenrola-se a narrativa permeada pelas reflexões do jagunço. Na vã tentativa de dar forma ao que não a comporta, reprime o que sente, pois é um cabra-macho e aquilo tudo não lhe seria permitido, nem ao menos escondido dentro de si. Perseguido por seus sentimentos, Riobaldo passa a tentar racionalizar o que lhe consome por dentro – o desejo pulsa, arrebata, castigando-lhe mais do que a aridez e a miséria circundantes.

Daí decorre o trato primoroso da linguagem. Por conta da necessidade premente de tentar compreender e justificar o que sentia e lhe escapava a qualquer entendimento, a narração de Riobaldo desconstrói a estrutura gramatical tradicional, ressignificando e realocando as palavras. Guimarães Rosa acaba, assim, criando uma coesão peculiar, numa linguagem aparentemente simples, mas que carrega uma carga semântica que extrapola os limites denotativos, elevando ao máximo seu viés poético. Às duras penas, autor e narrador são obrigados a constatar que à unidade na desordem gramatical não corresponde uma unidade na desordem sentimental. A objetividade dos neologismos linguísticos corrobora a extensão infinita da subjetividade dos seres. É-lhes contundente a impossibilidade de exprimir com palavras e entender por completo um sentimento ao mesmo tempo usual e deveras desconhecido, arrebatador e desorientador, resultando em passagens das mais ricas e líricas de nossa literatura.

A morte de Diadorim é também a morte de Riobaldo em vida, mas não de seus sentimentos; ou seja, sua morte não resolve o conflito narrativo, posto que o intensifica. Lembrar, repensar e reviver é o que lhe resta, consumindo-se por um amor não realizado, pelo que não foi, mas poderia - e deveria - ter sido. Na ausência de contato carnal com seu objeto de desejo, interdito ao longo de toda a narrativa, sobraram-lhe as sensações oriundas dos cheiros, sabores, cores, das constantes trocas de olhares com Diadorim. Quando do desvendamento do mistério – Diadorim “tinha o corpo de uma mulher” -, não avulta o alívio do narrador-personagem, por constatar que se apaixonara pelo sexo oposto; muito pelo contrário: instala-se o desespero diante do fim, do derradeiro, da impossibilidade de se entregar e o remorso por não ter tido coragem para isso.

Riobaldo não amou uma mulher. Riobaldo não amou um homem. Riobaldo amou Diadorim - o ser, a pessoa, a essência, aquilo que ele via de si mesmo através daqueles olhos, o que sorvia daquelas palavras, o que o encantava naqueles gestos, tudo o que Diadorim lhe oferecia em termos de prazer e dor. Riobaldo amava o que ele próprio se tornara ao amar Diadorim. O sentimento que lhe arrebatou a alma simboliza, pois, o amor como deveria sê-lo: despido de rótulos, máculas e jargões, pois em si o amor é ininteligível, incomparável, atemporal. Paradoxalmente, embora nos complete, o amor é incompletude conceitual. E é assim que o amor se instala e se impõe, por si só, rebelde e indócil a cerceamentos e a amarras de quaisquer ordens, não devendo se curvar diante de preceitos e/ou preconceitos. O amor merece ser posto à prova na prática, não na gramática. Porque amor não se conceitua, não se doutrina, não se rotula, não se dogmatiza, tampouco se sacraliza; amor se sente e se exprime, se respira e transpira, se entrega e se vive - é sentimento mundano. O amor é começo, meio e fim.


Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar".
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