pensando nessa gente da vida...

Reflexões de um educador que escreve para que não lhe falte o ar...

Prof. Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar"

O MAL EM “O EXORCISTA”

"A história de Regan acaba por tornar-se figurativa dos terrores da vida, do medo do desconhecido, do que não se delineia - e, por isso mesmo, neutraliza o seu combate -, do que nos consome sem que percebamos de início, acossados entre os fantasmas que muitas vezes nós próprios criamos, nessa solidão sentimental que nos imputamos."


padre-merrin.jpgLançado em 1973, o filme “O exorcista” parece permanecer incólume à passagem do tempo e às inúmeras paródias, cópias, imitações e reprises na TV que se seguiram. Embora a maquiagem e os efeitos especiais não impactem tanto, como antes, pela inovação e originalidade, a edição de som primorosa causa arrepios até hoje, bem como cenas que chocam mesmo os mais liberais, como o uso impudico de um crucifixo pela adolescente Regan (Linda Blair).

A história da possessão demoníaca de uma adolescente por uma entidade, velha conhecida do padre exorcista Merrin (Max Von Sydow), baseou-se fidedignamente em livro de William Peter Blatty, que também assumiu o roteiro do filme, e foi habilmente articulada pelas mãos do diretor William Friedkin, que imprimiu um clima de suspense crescente, arrancando atuações primorosas de seus protagonistas, numa trama assustadora e entremeada pela trilha sonora providencial de Jack Nitzsche Mike Oldfield.

Medo e culpa permeiam o enredo fílmico - personificados principalmente por Chris (Ellen Burstyn), mãe de Regan, e pelo padre Karras (Jason Miller), envolto na crise com a própria fé -, sentimentos universais e comuns a todo e qualquer mortal e que, por essa razão, sustentam uma veracidade frente a qual não hesitamos, nem mesmo nas cenas inverossímeis, como no giro cervical de 360° da garotinha possuída. As personagens são humanas, falíveis e vulneráveis, o que nos leva à identificação imediata com cada uma delas – é como se aquilo tudo fosse passível de acontecer na vida real e, pior, com qualquer um de nós. Ainda que não mais se vejam cenas de histeria, como aquelas provocadas na plateia quando de seu lançamento, é quase impossível assistir a “O exorcista” sem temor ou apreensão, pois os acontecimentos que se desenrolam partem de uma premissa básica que nos acompanha vida afora, qual seja: o mal faz-se presente na vida do ser humano, de forma imprevisível e avassaladora, quando menos se espera.

Regan e sua mãe, isentas de religião, estavam vulneráveis, fragilizadas pelo recente desmantelamento do casamento, o que aparentemente as tornou presas fáceis para que o mal se instalasse. O padre Karras questionava a fé, martirizando-se após a morte da mãe em sanatório, e foi levado a enfrentar suas escuridões, confrontando o mal em sua essência mais aterradora. O Padre Merrin, que já se encontrava afastado de suas atividades como exorcista, foi convocado pelo próprio demônio ao combate das forças ocultas. O filme, nesse sentido, confronta-nos com nossas próprias inseguranças e medos, como que nos conscientizando de nossa fragilidade e da impossibilidade de se escapar ao enfrentamento de si mesmo.

O mal é abstrato, invisível e dele só visualizamos as consequências, quando, muitas vezes, já é tarde demais. A história de Regan acaba, pois, por tornar-se figurativa dos terrores da vida, do medo do desconhecido, do que não se delineia - e, por isso mesmo, neutraliza o seu combate -, do que nos consome sem que percebamos de início, acossados entre os fantasmas que muitas vezes nós próprios criamos, nessa solidão sentimental que nos imputamos. Resta-nos construir uma verdade sólida que nos guie em nossas vidas, embasada pela fé, pela sinceridade de nós para nós próprios e para os outros, pela firmeza de caráter e pela interação positiva com tudo o que nos circunda - é preciso reunir coragem, ao longo da vida, para lutarmos contra o mal que nos ronda, lá fora e aqui dentro de nós, diária e ininterruptamente. Afinal, ninguém está a salvo do mal, porque, a princípio, ninguém está a salvo de si mesmo.


Prof. Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar".
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Prof. Marcel Camargo