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Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar"

O MULATO E A CULTURA BRASILEIRA

A consciência nacional em Mário de Andrade, a partir de seu estudo sobre a obra de Aleijadinho.


mulato.jpgEm seu ensaio intitulado “O Aleijadinho”, Mário de Andrade evoca surtos de instiuição da cultura nacional à época de Antônio Francisco Lisboa (1730-1830), o “mulatinho”, como era chamado pelo modernista. Afinal, o que seria genuinamente nacional? E o que seria característico da cultura brasileira?

Segundo Herder, uma nação é sua geografia, sua raça, sua cultura e sua língua. Tais elementos, ainda hoje, constituem conscientemente o Brasil? Se atentarmos para as ideias de Mário de Andrade ou, mais especificamente, ao que ele produziu e ao que intencionava produzir, veremos quão distante o país então se encontrava - e, salvaguardadas as devidas proporções, ainda se encontra - de se constituir como entidade nacional (esta sempre tentando ser alcançada pelo modernista).

Lendo o ensaio em pauta, deparamo-nos com o mulato, no Brasil Colônia, principiando como um artista novo que deforma a lição ultramarina, o que evidencia um surto de racialidade brasileira ocorrido naquela época, ou seja, não se tratava da mera importação do academicismo, da decadência ocidental, como diria Spengler, mas sim da originalidade provinda da incapacidade da cópia. O Aleijadinho, nesse contexto, aparece como o mais nacional e original dentre outros mulatos brilhantes e contemporâneos de sua época. Toda essa consciência nacional - que, paradoxalmente, dá-se inconscientemente – está plasmada em suas obras; basta lembrarmos que o artista trabalhava com a pedra sabão, material nacional.

Por que, embora na obra de Aleijadinho transpareça algo de nacional, de brasileiro, isso ocorre de forma inconsciente? Ora, os brasileiros daquela época, como aponta Mário de Andrade, viviam em uma terra sem tradições, devido à ignorância por eles dispensada à pátria - “na consciência daquela gente inda não tinha se geografado o mapa do imenso Brasil”. A própria situação colonial, por si só, como afirma Albert Memmi, cria toda essa alienação em relação à Colônia e ao que dela faz parte, afinal, tudo nela se subjuga à cultura da Metrópole: as festas e as datas comemorativas influenciam-se pelas metropolitanas (como as procissões melodramáticas descritas por Mário de Andrade, bem como toda religiosidade supersticiosa ali encerrada); a escola forma no colonizado uma memória que não é a do seu povo (lembremos a tentativa modernista de trazer à educação formal temas da cultura nacional); ou seja, há a emergência dos méritos do colonialista lado a lado com os desméritos do colonizado. Consequentemente, o colonizado adota os valores colonialistas, em detrimento dos seus - é o “mal de Nabuco”, o ódio de si mesmo, a vergonha da terra.

O Aleijadinho, porém, fazia parte da “mulataria”, dos “livres, dotados de uma liberdade muito vazia, que não tinha nenhuma espécie de educação, nem meios para se ocupar permanentemente”. Encontrava-se, pois, aéreo, à medida que não era nem branco, nem negro, nem escravo, nem proletário. Provém exatamente daí sua genialidade, sua originalidade, segundo Mário de Andrade, inconsciente que era de outras existências além-mar.

Infelizmente, tal surto não vingou – “famoso e fingidamente esquecido, parece ter sido a posição social que Antônio Francisco Lisboa sofreu na terra dele”. Não somente por sua emergência tardia, coincidente com a decadência do ouro em Minas Gerais (o que então perseverava era apenas o “brilho exterior, evidência de uma época até certo ponto bovarista - em alusão à Madame Bovary -, devido à vivência de uma situação que de fato não existia), como também pelo fato de que nenhum “estranho” (estrangeiro) nos autorizara a ter confiança no Aleijadinho. Se os estrangeiros o esquecem, nós também o fazemos. Se não elogiam a sua capacidade de genializar o imitado, rotulamos sua obra de primitiva. Há exegese européia sobre Wagner, Dante, mas não sobre o Aleijadinho, o que o isenta de autoridade ante nossos olhos – é a inconsciência nacional, o mal-estar inerente àquela época. mulato1.jpg

Tal mal-estar, segundo Mário de Andrade, opõe-se ao de 1922, por este recair mais especificamente sobre uma encruzilhada perante a qual se encontrava o movimento modernista: ou tomava-se a iniciativa de resgatar a cultura nacional (tentativa esta do insigne modernista), ou seguiam-se os rumos da industrialização, da importação da “decadência ocidental” (o que inclusive já se tornava patente à época do Aleijadinho e de suas “originais obras nacionais”, que denunciavam a importação artificial vinda do exterior). Enquanto as obras mineiras expressavam uma consciência nacional plasmada materialmente, emergia, em 1922, a conscientização no nível das ideias. Mário de Andrade segue, portanto, o primeiro trilho da encruzilhada e tenta fundar a cultura nacional - ao contrário de seu herói Macunaíma, que, num primeiro momento, constitui a nação brasileira, mas, em seguida, acaba se dando bem demais com a cidade de São Paulo, a metrópole ocidental e decadente.

Retomando Herder e os elementos constitutivos de uma nação - geografia, raça, cultura e língua -, veremos que estes se integram aos índices de construção nacional relevantes para o modernista. Comecemos pelo mulato, que, como já vimos, é potencial futuro gerador de uma raça nacional. Desenraizado e não suscetível às influências que o sistema de dominação colonial impõe, o mulato (como o sugeriu Mário de Andrade) torna-se capaz de se abster da cultura importada da metrópole e de imprimir um “toque malandro”, brasileiro, nacional, às obras que originalmente cria, resgatando, assim, a cultura do país.

Por sua vez, a geografia nacional só se firmaria com o surgimento da consciência nacional (a qual ainda não se formara à época da imposição do mulato). Nesse sentido, o que aqui então ocorreu foi a primazia da ignorância em relação à terra e suas tradições (o mal-estar daquela época). Mário de Andrade, já imbuído da consciência nacional de 1922, sustenta, por sua vez, a pertinência dos elementos folclóricos enquanto instituição de uma cultura brasileira e, a partir deles, constrói uma ficção que faz uso de elementos brasileiros, em “Macunaíma, visto já existir uma cultura nacional. Tal fato nos remete novamente a Herder, quando afirma que a cultura transparece nas tradições folclóricas – é Macunaíma, é cultura e tradição brasileiras. Outro elemento de constituição nacional muito trabalhado pelo modernista foi a língua brasileira, a qual, segundo ele, continuava - e ainda continua até hoje, notadamente em seu nível formal - tão escrava da gramática lusa quanto a portuguesa. Acresce, nesse sentido, sua preocupação com o patrimônio histórico nacional e o Departamento de Cultura.

Percebe-se, pois, que Mário de Andrade, revendo fases históricas, resgatando tradições e elementos folclóricos, trabalhando a língua e já munido de consciência nacional, acaba por tentar resgatar a cultura brasileira - a partir do levantamento de elementos em analogia aos elementos constitutivos de Herder -, percorrendo um caminho contrário ao da industrialização da metrópole paulista. Caminho este também escolhido por Aleijadinho, mas que infelizmente não se concluiu. O modernista, por sua vez, seguiria o trilho da consciência nacional, em concorrência direta com outro caminho tortuoso e decadente: o da importação da civilização petrificadora que se alimenta da cultura brasileira.

Hoje, embora o Brasil ainda percorra o embuste importador da cultura estrangeira, vem dando grandes passos na direção oposta, distanciando-se da pecha característica de um país-colônia dominado e subjugado pelos valores de fora, num franco processo de valorização das criações culturais nacionais. Daí a contemporaneidade de Mário de Andrade, que, lá nos idos de 1920, já trabalhava as questões relativas ao clima, à geografia, à forma, à raça, à tradição, ao folclore, à cultura e à língua nacionais, como uma maneira de dizer que o Brasil existe por si só, em toda beleza e riqueza que lhe são peculiares.


Marcel Camargo

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