pensando nessa gente da vida...

Reflexões de um educador que escreve para que não lhe falte o ar...

Prof. Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar"

O QUE NOS SOBRA ALÉM DE UM ROSTO?

"E se a vida - ah, essa pregadora de peças incurável, fonte inesgotável de imprevistos - resolver nos colocar como protagonistas de alguma situação que implique a deformação de nosso rosto, por exemplo, ou nossa ruína financeira?"


cirurgiaplastica1.jpgDizer que vivemos uma vida de aparências já se tornou um chavão, um pleonasmo até, e o perigo dos chavões é que, junto com eles, desgastam-se também as verdades que carregam. Banalizam-se, assim, fatos frente aos quais deveríamos nos indignar diariamente, tais como a violência urbana, a corrupção nos altos escalões governamentais, a exclusão das minorias, a insensatez estética, entre outros.

Ler sobre pessoas que tiveram seus rostos desfigurados em acidentes vários num primeiro momento nos remete àquelas tantas outras que, mesmo sem ter sofrido acidente algum, por conta própria se descaracterizam, desfigurando-se fisicamente ao se submeterem, de maneira desmedida e imprudente, a procedimentos estéticos, cirurgias plásticas, aplicação de preenchimentos, silicones, próteses, bem como àquelas que são as vítimas mais perigosas de si mesmas e que se tornaram presas de distúrbios alimentares. Nesses casos, já se embrenharam na inútil fuga de si e desconstruíram sua própria identidade, não se encontrando mais em nenhum lugar; portanto, suas transformações superlativas são consequências de um eu fragilizado e escapista, inutilmente correndo contra o tempo. Quando nos focamos, porém, nas histórias de vidas quase interrompidas por fatalidades que destroem, abrupta e violentamente, suas feições, retirando delas aquilo que lhes ajuda a dizer quem são todas as manhãs em frente ao espelho, somos levados a voltar àquele famigerado chavão sobre as aparências.

Ao nos preocuparmos demais com a superficialidade aparente do que nos diz respeito – porque pensamos, na verdade, que devemos prestar contas a qualquer um, desse modo supervalorizando o que podem achar, dizer, espalhar -, as aparências física e material passam a ser os nossos bem mais preciosos. Daí decorrem a obsessão pelo corpo sarado e enxuto e a busca pela perfeição em todos os setores materiais da vida. A lógica, nesse contexto, é transparecer – a despeito de vivenciar – beleza, êxito financeiro, vigor físico, cônjuges fiéis, dedicados e eternamente apaixonados, filhos perfeitos, jardins e quintais nababescos, viagens dos sonhos, dentes brancos como a neve, principalmente nas redes sociais, sendo os murais do Facebook emblemáticos dessa vitrine virtual carregada de sorrisos forçados, uma vitrine muitas vezes frágil e fraudulenta.

E, para alcançarmos esses modelos de corpo, cabelo, pele e crediário (essa busca requer muito investimento), entregamo-nos a horas estafantes divididas entre as academias, as clínicas e o trabalho, o que nos torna excelentes profissionais, especialistas em dietas de proteínas, mas vazios de conteúdo concernente a tudo o que existe além dos exercícios, das consultas e dos escritórios. Mas, e se a vida - ah, essa pregadora de peças incurável, fonte inesgotável de imprevistos - resolver nos colocar como protagonistas de alguma situação que implique a deformação de nosso rosto, por exemplo, ou nossa ruína financeira? Nesses casos, teremos que mostrar à vida aquilo que se escondia sob nossa materialidade visível, pois ela nos estará cobrando exatamente isso nesses momentos – essa cobrança é inevitável, de uma ou de outra forma. A que nos apegarmos quando desses reveses que avassalam tudo o que parecíamos ter, deter, reter e controlar?

Inevitavelmente, aquilo que nos resgata e salva, quando desses reveses da vida, é imaterial, imperscrutável e imensurável, algo que as fotos não captam, que os murais virtuais não revelam, que não rende na poupança, algo que ninguém consegue ver: nossa fé, nossa bagagem sentimental, nossa memória afetiva, o entrelaçar sincero das mãos às do(a) companheiro(a), o aprendizado adquirido desde o parquinho, na escola e além de seus muros, nos bancos do catecismo, nas conversas com nossos familiares e amigos, nas leituras da obras e do mundo – ou seja, nas trocas e interações que nos permitimos em nosso viver. Teremos, então, de recorrer à nossa força interior, avolumada pela qualidade das relações que cultivamos, pela quantidade de alegrias que compartilhamos, pelos resultados de nossas ações para com os outros, pelo tipo de energia acumulada em nossos pensamentos.

Não podemos, pois, viver à revelia dos nossos sentidos e dos sentimentos daqueles que nos circundam. Nosso caminhar requer prestar atenção no que está além e fora de nós, ajudar e ser ajudado, entregar e entregar-se – viver é conjunto, é coletivo é troca. Estruturarmos nosso eu sobre elementos fúteis e comezinhos poderá até nos trazer prazeres frugais, conforto material e álbuns pomposos no Facebook, mas nada disso irá nos sustentar psicologicamente nos momentos de tempestades e tsunamis emocionais, quando tivermos que ser mais fortes do que nossas tragédias pessoais.


Prof. Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar".
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