pensando nessa gente da vida...

Reflexões de um educador que escreve para que não lhe falte o ar...

Prof. Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar"

RÁPIDOS E RASOS

"A competitividade mercadológica perscruta as relações humanas, invadindo-as, tornando-nos desconfiados do outro, então visto como um não-amigo, nosso potencial concorrente, prestes a roubar nosso emprego, nossa promoção na empresa, nosso amor, nossos sonhos. E, nessa lógica (lógica?) que se instala, não nos abrimos, não criamos intimidade com ninguém, pois tudo poderá ser usado contra nós."


atraso.jpgVivemos uma vida rápida, num mundo acelerado, em que nada parece ficar retido por mais que alguns instantes, onde ninguém está disposto a criar vínculos. Os objetos e bens não são mais duráveis, desgastando-se ao ritmo frenético das horas que voam. As notícias substituem-se em segundos, as músicas desgastam-se em poucas semanas, os amores sucumbem num piscar de olhos.

Antigamente – como diz o senso comum -, as coisas eram feitas para durar: as mobílias e louças das casas de nossos avós tinham sido presentes de casamento; usávamos as roupas e os materiais escolares de nossos irmãos; as vitrolas e as televisões não caíam em desuso, apenas mudavam da sala para o quarto, ou para o rancho; as coleções de discos de vinil não eram regraváveis; nossos brinquedos duravam pelo menos 12 meses, pois tínhamos de aguardar o próximo Natal para ganharmos novos presentes. Havia a paquera, o noivado, o casamento, exatamente nessa ordem e cada um a seu tempo. E pensar que nossos pais esperaram nove meses para saber se iriam ter um filho ou uma filha...

Hoje a memória está fraca, pois mal se exercita – quem sabe de cor o número do celular de alguém? Os antigos sabiam. O senso de direção, sem a ajuda do GPS, era trabalhado. As vozes musicais, sem a tecnologia e a mixagem de estúdio, eram obrigadas a ser mais afinadas. Os vizinhos se conheciam; sentavam-se à tarde nas varandas sem grades enquanto a criançada brincava. Tinha-se tempo pra isso, uma vez que o tempo durava mais. Trabalhava-se menos, pois comprava-se menos, gastava-se menos, ostentava-se menos.

A dinâmica da vida está tão célere quanto a sistemática do mercado, que depende do consumo desenfreado, da circulação do dinheiro virtual que tramita através das sedutoras maquininhas de crédito. No lugar das cédulas guardadas em cofrinhos ou embaixo dos colchões, abundam os cartões chipados de plástico que carregamos aos montes em nossas carteiras. E assim seguimos desenfreadamente, atropelando os planejamentos orçamentários, ignorando nossas reais necessidades, comprando tudo de que não precisamos e, tapeando nossos sentimentos, entregamo-nos às atrações efêmeras. Imprimimos páginas, fotos, trabalhos, papel e mais papel, porém nada mais parece ficar impresso em nossas almas - quase nada e quase ninguém nos marcam para sempre aqui dentro de nós, porque, para isso, não podemos contar com a ajuda da HP.

Infelizmente, essa aceleração descuidada acaba adentrando todos os setores de nossas vidas, instalando-se nocivamente em nossa essência. A competitividade mercadológica perscruta as relações humanas, invadindo-as, tornando-nos desconfiados do outro, então visto como um não-amigo, nosso potencial concorrente, prestes a roubar nosso emprego, nossa promoção na empresa, nosso amor, nossos sonhos. E, nessa lógica (lógica?) que se instala, não nos abrimos, não criamos intimidade com outrem, pois tudo poderá ser usado contra nós.

Urge, pois, a necessidade de desacelerarmos, frearmos aos poucos, cuidadosamente, voltando a sentir as batidas do nosso coração, o compasso de nossa respiração, as cores e sabores à nossa volta. Temos que decidir se queremos conhecer, beijar, transar, trair; temos que nos permitir cair em ilusões, em armadilhas, exercitando o despertar e o ocaso moroso de nossas paixões. O sangue, sim, é que tem que correr em nossas veias, pulsando, promovendo o descobrir-se diário, o reencontro consigo mesmo, na troca de olhares ali no esbarrar do metrô, no compartilhamento descuidado de segredos, fraquezas, sonhos e ilusões. É preciso mirar, contemplar, repensar, iniciar, dormir, sonhar, viver enfim, sem essa pressa que nos robotiza, sem esse medo que nos paralisa, sem essa frieza que nos desumaniza.


Prof. Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar".
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