pensando nessa gente da vida...

Reflexões de um educador que escreve para que não lhe falte o ar...

Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar"

SE EU FOSSE VOCÊ, EU NÃO VOLTAVA PRA MIM...

Se eu fosse você, eu não teria me suportado por tanto tempo, eu não teria conseguido segurar tantas lágrimas, eu não teria me conformado com as demoras a que eu a condenava, eu não poderia ter sido tão decente como você sempre foi. Se eu fosse você, eu sofreria o que tivesse que sofrer e me largaria, sem olhar para trás, e não voltava mais pra mim...


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Se eu fosse você, eu não teria me suportado por tanto tempo, não teria me agarrado com tanta esperança à ilusão de que eu um dia fosse mudar, de que eu iria voltar os olhos para mim mesmo em seu favor. Eu não teria me iludido com a ideia de que o tanto que eu me doava traria o reconhecimento por tudo o que você era na minha vida.

Se eu fosse você, eu não teria conseguido segurar tantas lágrimas, não teria sufocado a vontade de gritar pela minha atenção, pelo meu olhar, pelo meu sorriso. Eu não teria tolerado a invisibilidade a que eu condenava tudo à minha volta, enquanto estava ao seu lado de corpo sem alma, ignorando suas necessidades, sua fome de amor, sua necessidade de se tornar mais gente comigo.

Se eu fosse você, eu não seria tão forte já de manhã, quando eu não recebesse um mero “bom dia”, um sorriso que seja, após as noites mal dormidas ao meu lado, enquanto eu me mantinha inerte e dolorosamente distante. Eu jamais teria forças para me servir o café, assistindo à minha ausência afetiva, sem lhe perguntar sobre sua vida, sem pensar em nada que incluísse sua existência.

Se eu fosse você, eu não teria me conformado com as demoras a que eu a condenava, à espera das mensagens, dos convites para sair, dos elogios quando você se arrumava para mim. À espera de um sopro de vida de minha parte que pudesse lhe lembrar que eu ainda a amava, que eu ainda queria você na minha vida. O silêncio teria me consumido.

Se eu fosse você, eu não poderia ter sido tão decente como você sempre foi, a ponto de me animar quando eu estava triste, de me mostrar os caminhos mais acertados que eu deveria seguir, de investir diariamente num relacionamento em que tudo ia, mas nada voltava. Eu não teria me sustentado com as lembranças do que já tinha sido e acabou, do que foi prometido e não se concretizou, do que foi dito e perdido na poeira pesada das mágoas e ressentimentos acumulados.

Se eu fosse você, eu não teria me dado a honra de ser o pai de seus filhos, de ser o exemplo que nortearia a vida daqueles que são os seus maiores tesouros. Eu não conseguiria ter enxergado em meus olhos o pai da família que eu queria construir, pois a escuridão do meu olhar me assustaria e me desencorajaria de qualquer fio de esperança nesse sentido.

Aliás, se eu fosse você, eu não construiria nada, nem casa, nem futuro algum, enquanto amargava a distância se alargando entre nós, enquanto minhas mãos inutilmente procuravam pelas outras ali ao lado, enquanto minha voz ecoava no vazio da solidão acompanhada.

Se eu fosse você, eu sofreria o que tivesse que sofrer e me largaria, iria embora, juntando toda a minha dignidade que restava, juntando todos os cacos afetivos, reunindo forças para me reerguer lá longe. Se eu fosse você, eu perceberia quanta coisa boa existe te esperando longe dos espaços da tristeza e me apoiaria na certeza de que eu mereceria ser feliz junto a alguém que me amasse de verdade. Sem titubear, sem retroceder, sem sucumbir, sem sequer olhar para trás. Eu iria ser feliz, sim, e bem longe de mim.

Se eu fosse você, eu não voltava pra mim...


Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar".
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