Ryano Mack

Historiador, Professor, Músico, compositor, vocalista e guitarrista da banda Bendito Mal, amante de café, leitura e música. Procurando muitos inícios e poucos finais.

Afinal, Deus Morreu ou Não Nietzsche?

Deus está morto é um conceito utilizado na obra do Filósofo Nietzsche que da margem para uma serie de reflexões históricas e atuais, a morte de Deus é um pensamento que permite entender alguns processos pelo qual a humanidade passou e quais suas consequências em seus desdobramentos.


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No século XIX, a Ciência estava em sua melhor forma, a confiança na tecnologia e a crença em uma sociedade perfeita no futuro eram os discursos de uma nova era, marcada por invenções e descobertas cientificas. Junto a esse cenário surgiram novos pensamentos que pretendiam dar ao mundo novas concepções sobre a realidade.

Por milhares de anos, a ideia de Deus foi fundamental para o nosso pensamento sobre o mundo e para a nossa construção de valores morais. Mas voltamos para o ocidente, mais especificamente na Europa, bem antes do século XIX, ainda no período medieval (V - XV) em que o poder estava nas mãos da Igreja, as explicações para o mundo estavam relacionadas com a divindade e os dogmas do cristianismo, esse é um período caracterizado pela expressão Hierofania, que literalmente significa a manifestação do sagrado, isso quer dizer que naquela época as sociedades estavam desamparadas em relação a natureza hostil, e em sua concepção de mundo, tudo estava ligado ao sobrenatural. A ideia de Deus, paraíso, demônios, entre outras, eram centrais nessa cultura.

Se você pesquisar no Google sobre as obras do renascimento (XIV – XVI), vai ver um grande número de obras com temas religiosos, isto é, mesmo que os períodos posteriores não fossem Hierofanicos, e que já houvessem outras maneiras de compreender os fenômenos naturais, tendo a natureza como referência e cada vez mais sobre o domínio do homem, de alguma maneira a ideia de Deus estava presente, ainda de maneira sólida e intensa nos povos. Havia um acordo entre Filosofia, Ciência e Religião, que a manteve de pé.

Mas a religião foi questionada por pensamentos iluministas no século XVIII, surgiam as desconfianças mais afiadas em relação ao mundo dos deuses e da magia, e essa desavença se tornou um caldeirão prestes a explodir no século XIX.

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É nessa atmosfera em que entra o Nietzsche, um filosofo alemão, que trouxe uma série de pensamentos inovadores para o século XIX, embora aproveitados depois. Nietzsche foi um pensador questionador, e assim o foi, com os valores da cultura ocidental. Lá por meados de 1882, em um livro chamado A Gaia Ciência, ele fez a seguinte provocação em tom de afirmação, em um aforismo denominado O Insensato:

Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu aos golpes das nossas lâminas. (Nietzsche. 1887, p. 129)

Antes de mais nada, é preciso esclarecer que Nietzsche estava convencido da não existência de um deus, e não faria nenhum sentido declarar a morte daquilo em que não crê, afinal a ideia Deus, é definida pela eternidade e onipotência (Todo Poderoso), e nesse caso não é possível Deus morrer, ou se morrer, não se trata de um Deus.

Mas então, o que a expressão Deus está morto quer dizer?

Nietzsche não tentou ser o assassino de Deus, como muitos acreditam de maneira errônea, o que o filosofo fez, foi a leitura de seu tempo, ou seja, a influência da religião no mundo estava menor. A estrutura de pensamento fundamentada apenas pela ideia de um Deus estava sumindo, já não era mais um tema central como foi na idade média e em outras civilizações anteriores. A partir do século XIX, muito em função do predomínio cientifico, Deus perdeu espaço em diversas áreas, na música, literatura, politica, filosofia, entre outras (O estado não fazia mais leis com base em Deus por exemplo).

A morte de Deus, não diz respeito a acreditar ou não em um, mas sim a um modo de pensar que mudou, no texto do filosofo não há ocorrência de negação da divindade, mas sim ao desaparecimento, como um processo continuo. Para Nietzsche o esquecimento, o afastamento, a indiferença para com Deus é a ruptura que a modernidade causou, que implicaria em sua morte, e não um ateísmo militante.

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Mas a morte de Deus é um conceito que vai além do fato de que no passado, o cerne da sociedade eram as crenças e as práticas rituais. Desde Platão, pensamos em dois mundos, esse em que a gente é obrigado a viver, e um mundo das ideias, onde reside o paraíso. O Cristianismo seria uma espécie de platonismo para o povo, e a morte de Deus também diz respeito às dicotomias do cristianismo (céu e terra, bem e mal, deus e diabo, certo ou errado, etc.) ou seja, estava morrendo uma maneira de pensar. Deus era um fundamento, de forma eterna e imutável, que estava em desacordo com um mundo fluido e cada vez mais dinâmico.

As consequências da morte de Deus

No aforismo que anuncia a morte de Deus, Nietzsche chega a dizer que o enunciador da morte de Deus, O Louco, chegou cedo demais, e não é por acaso, (o autor mais tarde se declararia como um homem póstumo, a frente de seu tempo) a humanidade não estaria madura o suficiente para receber esse fenômeno que implica a morte de deus “a grandeza desse ato não será demasiado grande para nós? ” perguntou Nietzsche.

O movimento de emancipação do homem com a razão e a ciência, acabou por deixar um vazio existencial muito grande, e sem o abrigo que a transcendência fornecia, o homem moderno se viu tendo que buscar alguma redenção. Não é por acaso que no século XIX surgiram inúmeros movimentos ideológicos, apresentando uma série de valores para guiar o homem, sem a subordinação a Deus. A sociedade sem classes idealizada por Marx, por exemplo, é como o paraíso cristão, só que na terra. As utopias e outros valores criados, nada mais são para Nietzsche, do que sucessores de um Deus morto.

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O grande problema aqui, denuncia Nietzsche, é que uma vez anunciada a morte de Deus, ela deve ser levada até suas últimas consequências, mas a ansiedade existencial em um mundo sem sentido ou valores absolutos é que causariam a busca por fundamentalismo que transformariam coisas terrenas em sagradas. O que na nossa sociedade atual, adquire como um dos principais exemplos, o consumismo, onde o culto a Deus e a oração, são substituídos pelo culto ao produto. O divino é substituído pela mercadoria.

Mas afinal, Deus Morreu ou não?

O Deus enquanto Deus de fato, Não! pois esse não seria possível morrer, entretanto a ideia e a estrutura religiosa que o cerca, no minimo, enfraqueceu. O conceito de Nietzsche, pode ser usado como leitura histórica, observando o homem pós revolução industrial, e suas novas relações como o relativismo exaltado de seu tempo. Também, colabora com algumas concepções de Deus, e como elas se desdobraram na modernidade.

De fato, a modernidade contribuiu para afastar a ideia de Deus que esteve presente na história por muitos anos, e nos deixou como herança, algumas formas de pensamentos religiosos do qual não temos consciência. A ameaça da falta de sentido pessoal legado pela modernidade, também tornou propicio o aparecimento de outras formas de pensamento transcendentes como valores que orientam nossa conduta e se assemelham ao religioso. De qualquer forma, a Morte de Deus não seria um bom negócio, ainda que estejamos diante de fenômenos religiosos, Deus não tem muita escolha, por vezes é privatizado e obrigado a fazer da fé um comercio, pois, algumas igrejas se tornaram um vasto e lucrativo mercado.

REFERÊNCIAS:

NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. Editora: Companhia de Bolso, 2012.


Ryano Mack

Historiador, Professor, Músico, compositor, vocalista e guitarrista da banda Bendito Mal, amante de café, leitura e música. Procurando muitos inícios e poucos finais..
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