pensar cinema

Voltando os olhos para o que vai além do mero entretenimento.

Luana Mestre

Jornalista, libriana, 23 anos. É amante de cinema, literatura, música e artes plásticas.

A ruptura do amor e da amizade em “Dois Amigos”, filme de Louis Garrel

A comédia dramática, primeiro longa-metragem de Louis Garrel, é bem articulada: delicada, sensível e com pitadas de cinismo. Foge do clichê e mostra o desvencilhamento dos laços afetivos de forma natural, sem melodramas desnecessários.


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Centrada em um triângulo amoroso, a história se desenrola por meio de um telefonema, no qual Clément (Vincent Macaigne) fala de seu interesse pela garçonete Mona (Golshifteh Farahani), que foge dele. Abel (Louis Garrel), do outro lado da linha, não entende tamanho fervor: ele é egocêntrico e está sempre acompanhado de várias mulheres. Clément pede para ele conhecê-la para, talvez assim, entender sua admiração. O amigo, então, vai ao local de trabalho da moça. A cena é hilária: ele a observa, ela não entende o motivo e pergunta o que ele quer. “Eu não sei o que ele viu, você é tão comum” - é o que Abel conclui e diz para Mona naquele momento. Porém, com o desenrolar da história, o jovem também se apaixona por ela.

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Conhecendo o trabalho de Christophe Honoré (“Bem Amadas”, “Canções de Amor”, “A Bela Junie”) voltado à sensibilidade, percebe-se o seu “dedo” no roteiro. Garrel havia dito que solicitou a ajuda de Honoré, com quem trabalhou em vários filmes, para construir a história e fugir do clichê. No longa, é possível perceber referências às produções da Nouvelle Vague, como “Jules e Jim - Uma mulher para dois”. Um exemplo, é a cena em que os amigos correm atrás de Mona, que precisa pegar o trem de volta (ela cumpre pena em presídio, mas é liberada para trabalhar e sair durante o dia). A produção também faz referência à Maio de 68, na França, na cena em que os amigos participam como figurantes de um filme (“Os Sonhadores” e “Amantes Constantes”, em que Garrel atua, a situação política é assunto chave).

site_28_rand_2011313146_dreamers_the_627.gif "Os Sonhadores", de Bernardo Bertolucci

Apesar do título, o foco do filme é Mona. Tanto é assim que, no cartaz, ela é o centro e os dois estão ao lado dela, com certa distância. É ela que aparece semi-nua, o que pode soar até como uma crítica pelo fato da atriz ter sido banida do Irã (seu país) por isso. A cena em que ela dança a música “Pola”, de Jabberwocky, é um dos momentos mais memoráveis do filme: os olhares de Mona e Abel se encontram e o interesse amoroso brota ali. É possível ver a tensão sexual que é levada adiante depois. Mesmo sendo retratada como “foco”, Mona é “idealizada”, o que chega a lembrar Catherine de Jules e Jim, mas sem os “excessos”. Não conhecemos muito de Mona: sabemos que cometeu um crime, porém não é revelado porque não é de interesse dos personagens. Esse pode ser considerado um "ganho" do filme, porque um crime traz marcas indeléveis e a pessoa é julgada pela opinião pública.

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A ruptura da amizade se dá a partir do momento em que Clément percebe que há algo errado, que há uma química entre Abel e Mona. Ele começa a dizer que ambos não são mais amigos e que vai começar a tratá-lo como “conhecido”; a definição se dá também com apoio de Mona, que após ser “rejeitada” por Abel sugere à Clément se afastar. Quando percebe o interesse óbvio do amigo, Vincent pergunta e o outro nega e segue negando até o fim do filme quando parece “devastado” por ver Mona ir embora. O público não sabe se a amizade pode ser refeita e sobem os créditos.

Em seu primeiro longa, Garrel conseguiu dar ritmo à produção, com sequências bem definidas e entrelaçadas, muito embora a ousadia de quebrar padrões não possa ser vislumbrada. Não há excessos e melodramas, a ruptura se desenrola de forma quase natural e chega até a lembrar o filme “O Ciúme”, de Philippe Garrel, pela leveza sutil em que é conduzido.


Luana Mestre

Jornalista, libriana, 23 anos. É amante de cinema, literatura, música e artes plásticas. .
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