pensar cinema

Voltando os olhos para o que vai além do mero entretenimento.

Luana Mestre

Jornalista, libriana, 23 anos. É amante de cinema, literatura, música e artes plásticas.

A sensibilidade melodramática no novo filme de François Ozon

Em “Uma Nova Amiga”, o diretor retorna a tecer críticas à sociedade burguesa e provocar o telespectador. Dessa vez, ele não faz a oposição entre o “real” e o “imaginário”, já antevista em outros filmes do diretor. A simbiose entre o “dramático” e o “sensível”, por outro lado, é mostrada de forma contundente.


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François Ozon é um diretor que não segue uma linearidade em seus filmes. Ele já flertou com o surrealismo em “Ricky” (2009). Já brincou com o imaginário do espectador como em “Sob a Areia” (2000), Swimming Pool (2003), Dentro da Casa (2012). Já esbarrou no drama teatral burlesco em “8 mulheres” (2002). Já foi extremamente sutil e sensível em “Jovem e Bela” (2013), “O Refúgio” (2009) e “O Tempo que Resta” (2005). Em seu novo filme, que estreou no Brasil em 16 de julho pela Imovision, Ozon se aproxima desses últimos títulos.

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Um traço em comum em seus filmes, que pode ser notado apesar de todas as diferenças, é a crítica à sociedade burguesa, ao tradicional e à hipocrisia. Em “Jovem e Bela”, o diretor trata da prostituição na adolescência sem apontar a causa. O tema é mostrado de forma sensível, sem se macular por outras referências do cinema que tratam o assunto de modo estereotipado. Nele, o drama não contamina a beleza do filme. A hipocrisia e a crítica se dão no momento em que a mãe de Isabelle, Sylvie, descobre suas atividades secretas. A filha sabe que a mãe trai o parceiro com o marido da amiga... Mas, isso não a impede de julgar a filha e chama-la de “puta”.

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Em “Uma Nova Amiga” a estética é um elemento valorizado. O filme começa com Laura no ataúde de mármore branco, prestes a ser enterrada. Ela está com o vestido de noiva, impecável. À frente, descobrimos que quem a vestiu foi o próprio marido, David, porque ele fez esse pedido à funerária. Àquele momento, ele descobriu “como uma revelação” que deveria voltar a se vestir como mulher. No filme, Claire e Laura são amigas de infância e passam por descobertas de várias fases da vida juntas, com Laura seguindo a dianteira: ela é a primeira que se apaixona, que sofre com desilusões, que se casa. Claire a ampara e a acompanha, como uma fixação. Ela penteia seus cabelos, passeia com ela, parece sentir orgulho de sua companhia (isso é mostrado em flash-back do passado).

Essa adoração à Laura, tanto da parte de Claire como de David, se assemelha ao filme “Fale com Ela”, de Almodóvar. Traços desse filme também são vislumbrados na cena em que David está em coma: assim como o marido da amiga a vestiu na morte, ela a veste como mulher e passa a tratá-la como “Virgínia”. A mudança de tratamento a faz despertar, como um milagre. Tudo isso porque Claire passa a “falar com ela” e não com “ele”. A cena do atropelamento, ademais, também parece ser um traço muito forte de Almodóvar: como esquecer da cena de “Tudo sobre minha mãe” em que o filho da protagonista, que queria ser cineasta, é atropelado? Se lembrarmos de que o filme também trata da transexualidade, então, observamos que se trata mesmo de uma inspiração.

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O relacionamento de Claire e David é um dos pontos fortes do filme. A incompreensão de Claire, a estranheza por encontrar o marido da amiga falecida vestido de mulher dão lugar aos poucos à aceitação e ao amor, sentimento último que segue à amizade e a substituição de “Laura” por “Virgínia”. Não deixa de ser sublime. A transexualidade é mostrada de um jeito não muito costumeiro no cinema, sem estereótipos. Aqui é um ponto que se distancia claramente de Almodóvar, diretor que está mais preocupado com o melodrama. Mas, qual seria o motivo do preconceito inicial de Claire? A personagem parece sempre atrelada à religiosidade, o que se vê na cena em que Laura é velada. A promessa de ambas para a amizade era: “até que a morte nos separe”. É por conta da religião que se alicerçaria o preconceito, que é quebrado aos poucos. A cena em que Claire se recusa a fazer sexo com Virgínia ao notar seu órgão sexual masculino remete ao pensamento: será que a adoração de Claire por Laura era mais do que amizade? Mas, isso é só especulação. “O amor transcende o preconceito”, esse seria o lema do filme. Embora casada, Claire se interessa pela “nova amiga”, com a qual “quebra” seus preceitos e paradigmas morais. Com a “nova amiga” e Lucie (filha de Laura), Claire forma uma “nova família”. Como em seus outros filmes, François Ozon rompe com o “tradicional” e mostra ao espectador uma lição de superação e amor.


Luana Mestre

Jornalista, libriana, 23 anos. É amante de cinema, literatura, música e artes plásticas. .
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