pensarte

Pensando com (e a partir de) arte. Cinema, literatura, etc.

Guilherme Zufelato

Doutorando (bolsista CAPES) e Mestre em História Social (2015, bolsista CAPES) pelo Programa de Pós-Graduação em História, do Instituto de História, da Universidade Federal de Uberlândia (PPGH-INHIS/UFU). Integrante do Núcleo de Estudos em História Social da Arte e da Cultura (NEHAC/UFU). Graduando em História pela Universidade Paulista (UNIP), polo Uberlândia-MG. Especialista em História Regional do Brasil (2010) e Bacharel em Turismo (2008) pelo Centro Universitário "Barão de Mauá" de Ribeirão Preto-SP. Atualmente, dedica-se profissionalmente à área de História, preocupado com temas e questões que se desdobram e abrangem a campos de estudos como Teoria e Metodologia da História, Historiografia, História-Cinema, Biografia, Teorias de Recepção e de Crítica. Mantém como pano de fundo de suas atenções reflexões críticas sobre História e Historiografia do Cinema Brasileiro.

Em busca de Diógenes, o Cínico

Algo mudou. Muito. Já não há mais cínicos como antigamente. A definição moderna de cínico ou do cinismo nada tem a ver com aquilo que a filosofia cínica fundada por Antístenes e levada adiante por seus seguidores, como Diógenes, propunha como modo de viver a vida. A libertação de desejos como a ganância era uma das maiores virtudes e possibilidade de liberdade moral. Era!


Nesta imagem, "Diógenes" de John William Waterhouse (1849-1917). Pintura de 1882.

nb_pinacoteca_waterhouse_diogenes jpeg.jpg

Diógenes de Sinope (412-323 a.C.), conhecido como "Diógenes, o Cínico", exilado de sua cidade natal, foi viver em Atenas. Tornou-se discípulo de Antístenes (445-365 a.C.), fundador da filosofia cínica, pupilo de Sócrates (469-399 a.C.). Muitos eram os cínicos seguidores dessa filosofia do século I ao V, quando então de seu apogeu decaiu num ostracismo histórico, embora muitos defendam que um cristianismo mais primitivo tenha dos cínicos apreendido algumas ideias ascéticas e retóricas. Para os filósofos cínicos o conceito de vida simples, ou simplicidade voluntária, revelava a vida que valia a pena ser vivida, completamente desapegada de comodidades, de quaisquer riquezas e de pudores com respeito às convenções sociais. O propósito da vida era viver de acordo com a virtude (virtus, em latim), uma qualidade moral particular, para alcançar à felicidade (eudaimonia, do grego antigo: εὐδαιμονία).

O modelo ideal da vida canina servia de exemplo a suas práticas virtuosas. A vida social seria assim denunciada em suas frivolidades, em seus aspectos de corrupção moral. A pobreza extrema era sua maior virtude, defendia Diógenes. Ele teria vivido em um barril, com poucas coisas além de uma lamparina, como sua túnica, um cajado e um embornal de pão. Teria rejeitado mesmo sua família, e questões como higiene pessoal. Para nós, hoje, Diógenes não passaria de um mendigo a caminhar pelas ruas. Sua presença desbanca instituições e valores sociais hipócritas. Dizem que Diógenes andava por Atenas durante o dia com sua lamparina - retratada como se vê ao chão na pintura do inglês Waterhouse - em busca de homens verdadeiros, isto é, homens autossuficientes.

Autossuficiência (do grego αuταρχία, autarquia), eis o ideal de um cínico clássico como Diógenes. Conta-se que num encontro com Alexandre Magno (356-323 a.C.), Diógenes teria recusado sua oferta a um desejo realizado, afirmando apenas que não lhe tirasse o que não lhe poderia jamais dar de volta: o sol. Isso porque Alexandre, o Grande, fazia-lhe sombra, pela posição em que se encontrava à sua frente. A luz é tradicionalmente concebida como um conhecimento que ilumina, como na alegoria da caverna de Platão. Quando Diógenes dissera a Alexandre que não bloqueasse o sol que lhe iluminava a face, não afirmara senão que entre ele e o conhecimento (a luz) do mundo e das pessoas não haveria necessidade de intermediários. Essa era sua afirmação ideal de autossuficiência. Um homem verdadeiro, na sua acepção.

Em sua posição cínica, Diógenes buscou rejeitar qualquer preceito de convenção social imposta como valor moralmente indiscutível, visto por ele como motivo de corrupção absoluta. Perpetuou em sua vida o culto à indiferença (apatheia - que nada tem a ver com apatia) pelos valores mantidos por sua sociedade. Vivia, segundo dizem, como um cão. Não é por acaso que a forma adjetiva da palavra grega kynon (cão), kynikos significa, em seu sentido moderno, cínico e serve para designar algo tido como próprio do cinismo. Diógenes teria sido comparado em seu modo de vida a um cão, principalmente pela falta de pudores, e, por isso, teria dito: "Os outros cães mordem seus inimigos, eu mordo meus amigos para salvá-los." Essa indiferença não afastava Diógenes por completo do convívio social, porém seu posicionamento era o de não identificação ou pertencimento a qualquer lugar específico, cidade ou Estado. Seu único pertencimento era à humanidade.

Diógenes dizia-se "cidadão do mundo" (kosmopolitês). Daí parece ter surgido a figura do cosmopolita como invenção dos cínicos, e do cosmopolitismo como pensamento filosófico que rejeita a ideia de fronteiras geográficas identitárias. Cosmópolis seria a cidade universal. (O cineasta David Cronenberg lançou no ano de 2012 o filme "Cosmopolis", baseado em obra literária homônima de Don DeLillo. Tanto o filme quanto o livro narram a história do empresário Eric Packer, quem, de dentro de sua limosine, acompanhado por sua "chefe de teoria" Vija Kinski, a caminho do barbeiro em Manhattan, cidade de Nova York, mal se dá conta da revolta anticapitalista violentamente reprimida pelas forças policiais do Estado que acontece à sua volta nas ruas de seu bairro. Packer é indiferente a tudo aquilo e só lhe importa saber dos resultados da Bolsa de Valores naquele dia. Packer é um cínico, no pior do sentido moderno da palavra - como veremos adiante.)

Inventividade, uso de ironia, paradoxos, jogos de palavras - como em Sócrates - são algumas das características mais marcantes de um cínico cosmopolita como Diógenes. Os cínicos antigos viviam conforme a natureza, para eles, a própria razão. E buscavam de nada depender. Abstinham-se, inclusive, da desnecessária preocupação com a morte, que sempre vem, queira ou não, é inevitável, mais dia ou menos dia. A felicidade residia na eliminação desse tipo de preocupação, fosse com a morte dos outros, fosse com a sua própria morte. A morte é só um exemplo. Os cínicos gregos e romanos clássicos viam nessa indiferença sobre vários aspectos da vida individual e coletiva sua maior virtude. Esse aspecto da vida cínica foi também um importante influxo ao estoicismo, escola de filosofia helenística fundada em Atenas por Zenão de Cício (333-263 a.C.) no início do século III a.C. Alguém que possui uma "calma estoica" é alguém indiferente às afecções de qualquer ordem. Alguém a quem nada afeta - pois tudo afetaria.

A leitura que hoje fazemos do cínico e de seu cinismo é bastante diferente. Hoje, cínico é um Eric Packer (e há muitos por aí), ganancioso e egoísta, indiferente no sentido preciso da indisposição psicológica própria à apatia quanto a tudo e a todos. Houve, a partir do século XIX, uma interpretação da filosofia cínica que enfatizou aspectos negativos para significar uma descrença na sinceridade de propósitos de desejos e de ações das pessoas. Somou-se a isso também a imagem daquele que despreza as convenções como antissocial. Alguns autores defendem que as sementes de um anarquismo filosófico podem ser encontradas nas ideias de Diógenes, antes que em Sócrates. Algumas posições de Diógenes diante, por exemplo, do tema da escravidão teriam a ver, numa outra evocação, com as provocações filosóficas defendidas pelo jovem polêmico Étienne de La Boétie (1530-1563) em sua obra sobre a servidão voluntária, considerado outro precedente do anarquismo no final do medievo.

Dito isso, parece haver algo importante a pensarmos hoje. Se antes os cínicos viam no seu modo de vida a única maneira de manter-se moralmente libertos das corrupções da sociedade a fim de poder desvelá-las a fundo em suas hipocrisias, hoje, ao contrário, são muitas vezes vistos como sinônimos de corruptores. Se os cínicos "de ontem" denunciavam a ganância pelo poder como causa de sofrimentos à humanidade, hoje os cínicos são vistos como canalhas gananciosos dispostos a tudo pelo poder. Geralmente, políticos profissionais; às vezes, um vizinho ou uma vizinha síndicos da existência alheia. Algo mudou. Muito. Já não há mais cínicos como antigamente. A definição moderna de cínico ou do cinismo nada tem a ver com aquilo que a filosofia cínica fundada por Antístenes e levada adiante por seus seguidores, como Diógenes, propunha como modo de viver a vida. A libertação de desejos como a ganância era uma das maiores virtudes e possibilidade de liberdade moral. Era!

Para encerrar, transcrevo esta provocativa frase atribuída a Diógenes de Sinope, o Cínico: "Na casa de um rico não há lugar para se cuspir, a não ser em sua cara." Assim, caro leitor, querida leitora, nós que ainda tentamos fazer bom uso da faculdade de pensar, munidos de velas acesas ainda que sob a luz do dia (e é a escrita uma possibilidade de acender uma dessas velas), continuamos em busca de um Diógenes nosso contemporâneo, um cínico franco ao modo antigo, e não um que exista no "modo avião". Encontrá-lo não será tarefa pouco árdua.


Guilherme Zufelato

Doutorando (bolsista CAPES) e Mestre em História Social (2015, bolsista CAPES) pelo Programa de Pós-Graduação em História, do Instituto de História, da Universidade Federal de Uberlândia (PPGH-INHIS/UFU). Integrante do Núcleo de Estudos em História Social da Arte e da Cultura (NEHAC/UFU). Graduando em História pela Universidade Paulista (UNIP), polo Uberlândia-MG. Especialista em História Regional do Brasil (2010) e Bacharel em Turismo (2008) pelo Centro Universitário "Barão de Mauá" de Ribeirão Preto-SP. Atualmente, dedica-se profissionalmente à área de História, preocupado com temas e questões que se desdobram e abrangem a campos de estudos como Teoria e Metodologia da História, Historiografia, História-Cinema, Biografia, Teorias de Recepção e de Crítica. Mantém como pano de fundo de suas atenções reflexões críticas sobre História e Historiografia do Cinema Brasileiro..
Saiba como escrever na obvious.
version 7/s/recortes// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Guilherme Zufelato
Site Meter