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Pensando com (e a partir de) arte. Cinema, literatura, etc.

Guilherme Zufelato

Doutorando (bolsista CAPES) e Mestre em História Social (2015, bolsista CAPES) pelo Programa de Pós-Graduação em História, do Instituto de História, da Universidade Federal de Uberlândia (PPGH-INHIS/UFU). Integrante do Núcleo de Estudos em História Social da Arte e da Cultura (NEHAC/UFU). Graduando em História pela Universidade Paulista (UNIP), polo Uberlândia-MG. Especialista em História Regional do Brasil (2010) e Bacharel em Turismo (2008) pelo Centro Universitário "Barão de Mauá" de Ribeirão Preto-SP. Atualmente, dedica-se profissionalmente à área de História, preocupado com temas e questões que se desdobram e abrangem a campos de estudos como Teoria e Metodologia da História, Historiografia, História-Cinema, Biografia, Teorias de Recepção e de Crítica. Mantém como pano de fundo de suas atenções reflexões críticas sobre História e Historiografia do Cinema Brasileiro.

Trovão e O exército inútil (1983, Robert Altman)

Com esta breve resenha, busco apresentar e refletir sobre a obra do historiador Flávio Vilas-Bôas Trovão a respeito do filme "O Exército Inútil" (1983) de Robert Altman.


Seis homens da tradicional divisão Airborne de ataques aéreos do Exército Americano aguardavam, aquartelados na Virginia, Estados Unidos, entre os anos 1965 e 1969, para serem enviados ao Vietnã. O presidente do país nesse período era Lyndon B. Johnson, e entre aqueles homens, conhecidos como airbornes, estavam os soldados especialistas em paraquedismo Billy, Richie, Roger e Carlyle, além dos sargentos Rooney e Cokes. A caserna onde viviam Billy, Richie e Roger tornara-se palco de dois assassinatos em decorrência de tensões e conflitos motivados a partir da chegada de Carlyle neste espaço, o qual fazia parte da Companhia "P", operando várias funções de trabalho, e por isso habitava outro barracão que não aquele dentro do quartel. Os três outros soldados eram denominados No Dutys (isto é, sem obrigações).

Roger e Carlyle eram ambos soldados negros. À diferença de Roger, Carlyle vivia em conflito com as regras do Exército. Richie, por sua vez, desejava seduzir Billy, quem em defesa da tradição dos valores morais americanos não correspondia às investidas do colega. Já Carlyle não via problemas em relacionar-se sexualmente com Richie. Convicto, pensava que Roger e Billy já o faziam. As tensões em torno dessas questões raciais e sexuais só aumentaram com o tempo, e por causa dos desentendimentos provocados por Richie entre Carlyle e Billy, os assassinatos foram cometidos. Assassinatos de Richie e do sargento Rooney cometidos por Carlyle.

Essa é a história resumida de Streamers, texto dramatúrgico escrito por David Rabe de fins dos anos 1960 ao verão de 1975, a partir de suas experiências como soldado pelo Exército Americano no Vietnã em 1966. Na realidade, ao retornar da guerra para sua casa nos Estados Unidos, Rabe dedicou-se nos dois anos subsequentes à confecção de três textos para teatro sobre a Guerra no Vietnã e, por intermédio desse esforço diário de escrita, compôs o esboço do que viria a ser o primeiro dos dois atos da peça Streamers, pela qual seu trabalho como dramaturgo foi reconhecido pela crítica de teatro norte-americana logo nos primeiros meses do ano de 1976.

O cineasta Robert Altman, nessa mesma época, aproximou-se de David Rabe e os dois iniciaram um projeto comum para adaptação ao cinema da história narrada em Streamers. Essa empreitada só se efetivaria no ano de 1983, com parte dos investimentos financeiros à produção fílmica de Streamers desembolsada pelo próprio Altman. Meio milhão de dólares! Em território brasileiro, o filme, sob o título O Exército Inútil, foi exibido em 1984.

É precisamente dessas e outras histórias, à luz de O Exército Inútil (1983) de Robert Altman, que o historiador Flávio Vilas-Bôas Trovão buscou narrar em sua tese de doutoramento defendida em meados de 2010 pelo Departamento de História da Universidade de São Paulo, sob orientação do professor Dr. Arnaldo Daraya Contier. Tese que ganhou o mercado editorial pela Anadarco Editora, no ano de 2012.

capa livro.jpgCapa do livro "O exército inútil de Robert Altman: cinema e política" (Anadarco Ed.) de Flávio Trovão (2012)

Trovão resolveu inventar O Exército Inútil de Robert Altman como seu objeto de estudos por razões específicas, assim justificadas: "a relevância do tema para a cinematografia da época (filmes sobre a Guerra do Vietnã produzidos nos anos 1980) e a relevância do diretor para a cinematografia americana" (pág. 28). Diante disso, a hipótese a partir da qual Trovão historiou foi:

"[...] a análise fílmica de O Exército Inútil permite uma leitura crítica de sua época, quando políticas conservadoras atingiram, sobretudo, as conquistas sociais que as comunidades negras e homossexuais haviam desenvolvido na década anterior. Dessa forma, procuramos identificar, no filme, pontos de diálogo, tensão e conflito com as políticas implementadas no início do governo de Ronald Reagan [1981-1983], por meio da análise tanto da representação das personagens e as situações por elas vividas, como também, dos processos de produção fílmica (filmagem, divulgação e opções estéticas), articulando-os com a crítica especializada (revistas e jornais dedicados à crítica cinematográfica) e a bibliografia sobre o período, para estabelecer a relação entre cinema e política nos Estados Unidos no início dos anos 1980" (pág. 28).

Flávio esquadrinhou assim aos olhos do leitor, na trama, seus objetivos. A análise do filme de Altman evidencia questões políticas e sociais que tornam possível a observação desses mesmos aspectos na sociedade norte-americana no início dos anos 1980, embora a narrativa fílmica esteja ela própria ambientada num "passado histórico" atinente à Guerra no Vietnã, no período entre os anos 1965-1969 da presidência de Lyndon B. Johnson. A película, nesse sentido, é tomada pelo autor como um "jogo de representações" (Michel Foucault) da própria sociedade que o produz. Mas tais objetivos implicam, também, considerar o contexto histórico das condições de produção da indústria fílmica hollywoodiana.

Por estabelecer como "ponto nodal" de toda a pesquisa a obra O Exército Inútil, Trovão operou com o que chamou de "três eixos de análise", em torno dos quais seus quatro capítulos de tese foram pensados. Os eixos interpretativos seriam então: (I) o das questões homossexuais, (II) dos conflitos étnicos e, por fim, (III) das modificações pelas quais passava Hollywood em termos econômicos e políticos. Esses três eixos de questões foram, a partir do filme, percebidos na própria sociedade norte-americana do início dos anos 1980. Toma-se o filme como "jogo de representações".

No capítulo 1, "O Exército Inútil de Robert Altman", Flávio Trovão preocupou-se com as questões em torno das motivações e condições de produção de Streamers por David Rabe. Em seguida, buscou analisar a recepção crítica do filme, na época de sua exibição em 1983. Detenhamo-nos por um momento sobre alguns temas apontados pelos críticos de cinema a respeito de O Exército Inútil.

Destacaram-se recorrentes, sem uma ordem prévia e/ou hierárquica, (I) os aspectos atinentes ao processo de trabalho da adaptação cinematográfica do texto dramatúrgico Streamers de Rabe por parte de Altman; (II) o prêmio de "Melhor Ator", excepcionalmente concedido ao conjunto do elenco de atores que representaram no filme, pelo Festival de Veneza em 1983; e (III) as especulações sobre as opções estéticas de Altman na confecção de seu universo fílmico, isto é, suas concepções estético-políticas.

Foi provavelmente a partir desses pontos de vista que Trovão retirou consequências analíticas também à estruturação dos subitens componentes do capítulo 1. Ganharam assim espaço em sua narrativa, as tensões e conflitos vivenciados pelas personagens no interior da caserna onde viviam, tomada como representação da sociedade americana do início dos anos 1980; a questão do "caráter antibélico que O Exército Inútil apresenta", já que as situações representadas no filme trazem à tona o aspecto da violência psíquica (por causa dos conflitos raciais e sexuais entre as personagens), que é com certeza tão ruim quanto as vivências num campo de batalhas propriamente dito; a relevância dos festivais de cinema para a cinematografia de Altman, sobretudo a partir dos anos 1980, das mudanças de ordem econômica e política operadas pelo governo Reagan e, como que num reflexo, igualmente por Hollywood; os aspectos empregados na configuração do cartaz de O Exército Inútil como sendo um "filme de arte"; e, ainda, outros meios e formatos de divulgação, ou veiculação, da referida obra fílmica (págs. 50-73).

Parece inegável que as críticas cinematográficas desempenharam um papel bastante importante na pesquisa de Flávio Trovão, pois tudo indica foram os críticos que, por assim dizer, possibilitaram-lhe a base de estruturação da sua tese. Essa afirmação parece pertinente também com relação aos capítulos 2 e 3, respectivamente, "Roger e Carlyle: os retratos da comunidade negra em O Exército Inútil e nos Estados Unidos no início dos anos 1980" e "A questão homossexual em O Exército Inútil e nos Estados Unidos no início dos anos 1980". Certamente, suas estruturações partiram, pelo menos em parte, dos temas trazidos à tona pelas análises do que os críticos disseram, principalmente, a respeito dos conflitos étnicos entre as personagens Roger e Carlyle, e sobre a temática da homossexualidade presente nas relações das personagens Richie e Carlyle - além de Billy. Mesmo se tal interpretação for válida, tais questões não se dão, de forma alguma, em prejuízo das análises de Trovão acerca da recepção crítica aí mencionada.

Há nos capítulos 2 e 3 uma maior atenção dispensada pelo historiador à questão da construção de um contexto histórico relativo aos Estados Unidos no início da década de 1980, simultaneamente à análise da obra fílmica de Altman, desta vez, a partir de sua recepção. Trovão operou sua contextualização das questões que o filme motiva de modo que sempre retorna à obra fílmica ao final, a fim de interpretar as opções político-estéticas de Altman no momento da confecção de O Exército Inútil. Parece nos revelar assim um método de compreensão do 'texto' (filme) pelo 'contexto' (Estados Unidos no início dos anos 1980) e, de volta, pelo 'texto'. O mesmo aparentemente ocorre com a narrativa historiográfica atinente ao capítulo 3, embora haja nele, especificamente, como que uma inversão na ordem do discurso historiográfico. Isto pode ser dito porque o historiador parece alterar o sentido de sua investigação no intuito de compreender, não mais o 'texto' pelo 'contexto', mas ao contrário, a situação vivida pelos homossexuais nos Estados Unidos no início dos anos 1980, a partir da análise da própria estrutura fílmica de O Exército Inútil.

Há ainda uma diferença importante no capítulo 2, porque no processo de contextualização, torna-se capital à interpretação de Trovão a obra Estado de Exceção de Giorgio Agamben, a qual permite um refinamento de sua crítica sobre os efeitos das políticas do primeiro governo Reagan (1981-1984) à comunidade negra, excluída e representada no interior do próprio sistema carcerário. Agora, parte-se da sociedade para o filme, o que enfim assemelha, em parte, ambos os capítulos 2 e 3 da obra do historiador. Não podemos esquecer que os assassinatos de Richie e do sargento Rooney cometidos ao final do filme por Carlyle no "palco" da caserna, levam-no à prisão.

Já no capítulo 4, "Robert Altman e Hollywood no início dos anos 1980", último da obra de Flávio Trovão, são colocadas em xeque pelo historiador as relações estabelecidas entre Altman e a chamada "política de autores" (primeiro ponto), os entrelaçamentos de Hollywood com as políticas conservadoras cometidas pela governança do presidente Reagan (segundo ponto), além das inversões nas narrativas do cinema hollywoodiano na década de 1980, a respeito da Guerra no Vietnã (terceiro ponto). Nesse ponto de sua urdidura, Trovão buscou debruçar-se sobre "o próprio universo cinematográfico americano da época" (pág. 147). Detenhamo-nos, nesta resenha, sobre o primeiro dos pontos apenas.

Com efeito, havia em meio à recepção crítica a construção de uma imagem de Altman enquanto produtor de filmes autorais, embora em seu caso numa posição dita outsider relativamente à indústria cinematográfica hollywoodiana. Na realidade, conta-nos Trovão, não é de hoje que a crítica buscou estabelecer uma contraposição entre os chamados "cinema autoral" e "cinema comercial". Os críticos franceses, por exemplo, partiam de um conceito de autoria para o qual, em se tratando de um filme enquanto obra de arte, o diretor deveria ser responsável por todo seu processo de confecção - desde escrever o roteiro até financiar e dirigir toda a obra. Nesse sentido, "o diretor é o autor e seu filme é considerado como uma obra que reflete seu caráter artístico" (pág. 150). Como foi dito em outro momento, os aspectos empregados na configuração do cartaz de O Exército Inútil foram pensados a partir de sua concepção como sendo um "filme de arte".

Trovão examina minuciosamente alguns exemplos que tornam bastante claro que Altman, a despeito de seus esforços, não era bom administrador financeiro no momento da produção de suas obras. Ou seja: o cineasta Robert Altman não se enquadrava totalmente naquela concepção de "política de autores". Por outro lado, o historiador interpreta como um equívoco, por parte dos críticos, considerarem Altman nessa fase como um "exilado" da indústria de Hollywood e assim mais afeito ao cinema "autoral" europeu. Altman, nesse sentido, não era em verdade um outsider, "mas sim, fora direcionado para outros projetos de menor aporte financeiro" (pág. 155). Poderia entretanto ser considerado um autor no sentido segundo o qual escreve Michel Foucault, pois "a cinematografia de Altman acabou por se constituir como sinônimo de um modelo de cinema pautado na crítica aos valores americanos e em procedimentos de produção que extrapolavam os modelos hollywoodianos padronizados" (pág. 157). Altman deveria ser então compreendido, no interior desse âmbito de questões, a partir da tensão existente entre os princípios das concepções de diretor (o "cinema autoral" europeu) e os aspectos do "cinema comercial" da indústria cinematográfica de Hollywood. Em suma: "no início dos anos 1980, a 'crise' diagnosticada pela crítica a qual Robert Altman enfrentava insere-se nas mudanças das políticas que se estruturavam na indústria fílmica e no país, naquele momento" (pág. 160). Na época, as prioridades de investimentos da governança do presidente Ronald Reagan voltavam-se, em primeiro lugar, para o incremento da indústria bélica do país e, em seguida, às confecções de obras fílmicas hollywoodianas.

Há certamente na obra de Trovão outros pontos importantes dos quais seria possível desdobrar algumas reflexões. Porém optei aqui por apresentar e pensar sobre alguns deles apenas. Parece de todo modo fundamental apontar ainda algumas questões finais.

No processo de análise fílmica de O Exército Inútil de Altman, Trovão não obteve acesso direto ao roteiro de filmagem (escrito por David Rabe) e, por este motivo, utilizou o texto dramatúrgico de Streamers. Isso teria a ver com as dificuldades em relação às possibilidades de acesso às fontes para investigação, no momento do processo de produção de sua operação historiográfica. Isto parece sugerir, entre outras coisas, que as bases de dados disponíveis hoje em dia nos mais diversos meios eletrônicos, para um historiador, ainda não são suficientes. Por outro lado, há um dado elementar a emergir dessas questões. Ter utilizado o texto dramatúrgico escrito por Rabe, no processo de análise do filme de Altman, torna evidente o diálogo estabelecido pelo cineasta entre cinema e teatro.

Finalmente, se pensarmos o tempo do intérprete, isto é, o tempo presente da "escrita da história" de Trovão em sua relação com o passado representado em O Exército Inútil (Guerra no Vietnã) e à luz do momento da produção fílmica (ano de 1983), traremos à tona aspectos a respeito do reconhecimento da trajetória cinematográfica de Altman, dos movimentos sociais em torno de questões raciais e sexuais, bem como, de aspectos políticos contemporâneos (em especial, a eleição de Barack Obama para presidente dos Estados Unidos em 2008).

Sob tal perspectiva, Trovão nos instiga a refletir a partir da leitura de seu trabalho, sobre questões do tempo presente, e assim, motivados por certo efeito estético, saímos de sua obra imaginando a ressignificação possível, nos dias de hoje, das questões trabalhadas em Streamers por Rabe e Altman entre as décadas de 1960, 1970 e 1980. Isso dá sentido a pelo menos uma hipótese: os soldados Billy, Roger, Richie, Carlyle, e os sargentos Rooney e Coke são de algum modo nossos contemporâneos.

[Esta resenha é uma versão modificada e reduzida da que foi publicada na Revista de História e Estudos Culturais - Fênix, Vol. 11, Ano XI, nº 1, de janeiro-junho de 2014 (ISSN 1807-6971)]


Guilherme Zufelato

Doutorando (bolsista CAPES) e Mestre em História Social (2015, bolsista CAPES) pelo Programa de Pós-Graduação em História, do Instituto de História, da Universidade Federal de Uberlândia (PPGH-INHIS/UFU). Integrante do Núcleo de Estudos em História Social da Arte e da Cultura (NEHAC/UFU). Graduando em História pela Universidade Paulista (UNIP), polo Uberlândia-MG. Especialista em História Regional do Brasil (2010) e Bacharel em Turismo (2008) pelo Centro Universitário "Barão de Mauá" de Ribeirão Preto-SP. Atualmente, dedica-se profissionalmente à área de História, preocupado com temas e questões que se desdobram e abrangem a campos de estudos como Teoria e Metodologia da História, Historiografia, História-Cinema, Biografia, Teorias de Recepção e de Crítica. Mantém como pano de fundo de suas atenções reflexões críticas sobre História e Historiografia do Cinema Brasileiro..
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