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Pensando com (e a partir de) arte. Cinema, literatura, etc.

Guilherme Zufelato

Doutorando (bolsista CAPES) e Mestre em História Social (2015, bolsista CAPES) pelo Programa de Pós-Graduação em História, do Instituto de História, da Universidade Federal de Uberlândia (PPGH-INHIS/UFU). Integrante do Núcleo de Estudos em História Social da Arte e da Cultura (NEHAC/UFU). Graduando em História pela Universidade Paulista (UNIP), polo Uberlândia-MG. Especialista em História Regional do Brasil (2010) e Bacharel em Turismo (2008) pelo Centro Universitário "Barão de Mauá" de Ribeirão Preto-SP. Atualmente, dedica-se profissionalmente à área de História, preocupado com temas e questões que se desdobram e abrangem a campos de estudos como Teoria e Metodologia da História, Historiografia, História-Cinema, Biografia, Teorias de Recepção e de Crítica. Mantém como pano de fundo de suas atenções reflexões críticas sobre História e Historiografia do Cinema Brasileiro.

Revisitando "Tudo pelo Poder" (2011, G. Clooney)

Em vista de certos fins, tornam-se sórdidos os meios. Vale tudo em Política?


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Pensar com (e a partir de) linguagens artísticas como Teatro, Cinema, Literatura, Música é sempre um desafio. Cada linguagem possui sua especificidade. Pensar com significa compreender um enredo fictício como um modo de ver específico do mundo. Uma ficção, como disse o escritor argentino Jorge Luis Borges, não é uma falsidade nem reivindica-se como verdade. É apenas válida ou não para nós. Entre profetas da verdade e eufóricos do falso, pensar com uma peça teatral, um filme, um livro, uma letra de música é tecer um esforço a fim de refletir sobre o mundo num entrecruzamento crítico de verdades e falsidades. Uma ficção põe-se à margem do verificável e é isso, paradoxalmente, o que lhe confere algum crédito.

O exercício da historiografia (isto é, da escrita da história) pode nos ensinar a pensar a partir de manifestações artísticas distintas. Um texto de história busca estabelecer um diálogo instigante entre o que consideramos como passado e o presente do intérprete (seu lugar de escrita, seus questionamentos atuais). A representação atualizada do passado é, portanto, um processo em constante mudança. Isso não quer dizer que a intriga histórica seja só uma ficção. Não, não. Antes significa que a história escrita, sempre verificável, é viva e mutável mesmo em seu comprometimento com um efeito de verdade. Essa é uma característica que a diferencia de outras modalidades de ficções narrativas. Como exemplo do que estamos falando, vamos pensar com e a partir do filme Tudo pelo Poder (2011), de George Clooney*.

Com essa ficção cinematográfica, Clooney nos convida a pensar historicamente sobre o campo da política. Aparentemente, o tema central do filme são as disputas entre os candidatos do Partido Democrata e Republicano à presidência dos Estados Unidos da América, em tempos recentes. A câmera do diretor, à primeira vista, está direcionada às traições, chantagens e acordos espúrios, elementos que dão o tom a uma trama de reviravoltas. O verdadeiro protagonista é Stephen Meyers (Ryan Gosling), gerente de campanha do democrata Mike Morris (Clooney). A transformação pela qual passa a personagem Stephen é sem dúvidas um duro golpe no idealismo utópico de quem ainda hoje mantém a integridade de relações políticas como horizonte de expectativas. A relação de Stephen com a estagiária Molly Stearns (Evan Woody) desencadeia uma avalanche de fragmentos de vidas públicas e revelações íntimas que, entremeados, compõem um perigoso jogo político.

Além das aparências, já o título original do filme, em inglês, The Ides of March, faz alusão a um tema histórico: Idus Martii, 15 de março do ano 44 A.C. pelo calendário romano, dia do assassinato do ditador Júlio César por homens preocupados em defender a República romana. Isso é bastante sugestivo. Interpretado como alegoria narrativa, o filme nos oferece uma história, sugerindo outra de raízes bem mais antigas.

Uma grande questão trabalhada por Clooney parece a mesma que animou o imaginário de muitos pensadores ao longo de séculos, como Nicolau Maquiavel (1469-1527) e William Shakespeare (1564-1616). Com Maquiavel, podemos pensar a alegoria fílmica a partir da pergunta sobre os limites das ações políticas à conquista e manutenção do poder: os fins, ainda que considerados justos, justificam os meios (um assassinato)? Shakespeare, por sua vez, em torno de 1599, curiosamente enquanto lia Maquiavel, escreveu uma peça teatral chamada A Tragédia de Júlio César. Mas não é César a personagem principal, e sim Marco Bruto, mais conhecido pela famosa frase "Até tu, Bruto?". É possível afirmar que essa peça é uma aula de Ciência Política. Aqui, importa dizer que essas referências históricas estão implícitas ao roteiro do filme Tudo pelo Poder. Bastaria pensarmos a partir da observação atenta dos atos da personagem interpretada por Gosling, Stephen Meyers.

Alguém morre na ficção política imaginada por George Clooney. As ações de todas as personagens, a partir desse acontecimento, tomam uma direção evidentemente não determinada. Em vista de certos fins, tornam-se sórdidos os meios. Diante desse cenário é que cabe a pergunta: vale tudo em Política? Finalmente, o filme sugere que pensemos suas várias questões historicamente, a contar da alusão ao ditador Júlio César feita pelo título em inglês. Mas podemos também atualizar essas questões numa tentativa de pensar com o filme, a partir do nosso presente. No atual cenário político do Brasil, em que vivemos tempos sombrios de conservadorismos extremos e de luta a todo custo pelo poder, quais os meios estamos realmente dispostos a cunhar para alcançar determinados fins?

* Em 18 de dezembro de 2015, publiquei um texto bastante semelhante (sem apenas os dois parágrafos aqui iniciais) sobre a mesma obra, pela coluna do Núcleo de Estudos em História Social da Arte e da Cultura (NEHAC) no jornal Correio de Uberlândia. Disponível em:http://www.correiodeuberlandia.com.br/colunas/nehac-2/tudo-pelo-poder/ Último acesso: 01/07/2016.


Guilherme Zufelato

Doutorando (bolsista CAPES) e Mestre em História Social (2015, bolsista CAPES) pelo Programa de Pós-Graduação em História, do Instituto de História, da Universidade Federal de Uberlândia (PPGH-INHIS/UFU). Integrante do Núcleo de Estudos em História Social da Arte e da Cultura (NEHAC/UFU). Graduando em História pela Universidade Paulista (UNIP), polo Uberlândia-MG. Especialista em História Regional do Brasil (2010) e Bacharel em Turismo (2008) pelo Centro Universitário "Barão de Mauá" de Ribeirão Preto-SP. Atualmente, dedica-se profissionalmente à área de História, preocupado com temas e questões que se desdobram e abrangem a campos de estudos como Teoria e Metodologia da História, Historiografia, História-Cinema, Biografia, Teorias de Recepção e de Crítica. Mantém como pano de fundo de suas atenções reflexões críticas sobre História e Historiografia do Cinema Brasileiro..
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