percepções culturais e quimeras cotidianas

A abstração de um inquietante olhar contextual

Bruna Testi

Sou constituída pelas minhas perspectivas, minha alma é quase visível a olho nu. Sou meu ofício. Publicitária por formação, cinéfila por opção. Aprecio desde Bergman até Spielberg, mas daria meu reino por um café com Woody Allen

Meu Pé de Laranja Lima e A Rosa Púrpura do Cairo: um diálogo sobre espinhos.

As obras de José Mauro de Vasconcelos e Woody Allen nos impactam com um choque de realidade: a guerra entre o real e o imaginário pode ter um desfecho imprevisível.


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"O encanto do imaginário em oposição ao desencanto do viver", foi essa a definição de Woody Allen à sua encantadora obra prima "A Rosa Púrpura do Cairo", de 1985. Porém, dezessete anos antes, em 1968, José Mauro de Vasconcelos, com essa mesma premissa, presenteou ao público infanto-juvenil com sua sensível e crua autobiografia: Meu Pé de Laranja Lima. O livro de Vasconcelos contagiou várias gerações, em 19 países. E é entre essas duas obras que presenciamos um belo diálogo. Duas expressões artísticas que se distanciam no gênero, no público e na localização geográfica. Mas se convergem no desenvolvimento da trama, e na vertente principal: o imaginário como um refúgio da realidade.

José Mauro de Vasconcelos nos proporciona uma imersão no drama de Zezé, uma criança de família pobre, com inteligência acima da média. O menino se destaca por ser demasiadamente criativo e hiperativo, diferente dos seus familiares bem humildes e pouco instruídos. Claramente os pais não sabem como lidar com tal peculiaridade, e acabam por fazer uso da constante agressão, seja física, seja verbal, a fim de controlar a desenfreada energia do filho.

Woody Allen, por sua vez, direciona-se a um público mais maduro, nos apresentando a protagonista Cecília, uma garçonete que batalha para sustentar a casa e seu marido desempregado. O casamento da mocinha é assombrado pela hostilidade, desrespeito e agressividade. Assim como Vasconcelos, a obra de Allen, ambientada nos anos 30, utiliza como cenário a pobreza, resultante da Grande Depressão, e destaca a violência doméstica sofrida pela protagonista.

Zezé é uma criança solitária que mantém uma relação hostil com a família, seus únicos laços mais estreitos são com a irmã Glória, e o caçula Luís. Zezinho utiliza do imaginário como principal forma de diversão e como possibilidade para um mundo paralelo, um mundo mais fácil e mais leve. E criatividade para tal não lhe falta. Construindo desde circos até zoológicos dentro de seu próprio quintal, na fantasia da criança, uma galinha se torna uma pantera negra, enquanto um Pé de Laranja Lima é Minguinho, sua sua válvula de escape, seu melhor amigo e confidente.

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Já Cecília também representa a solidão. Quase sempre desacompanhada, a mocinha se refugia no cinema, utilizando-o como rota de fuga de sua árdua realidade. A fantasia da obra de Allen não se pauta tão somente na sétima arte, mas no momento em que um dos personagens do filme assistido pela protagonista, Tom Baxter, escapa da tela do cinema e se apaixona por Cecília.

Tom Baxter fez por Cecília o que o pé de laranja lima fez por Zezé. Porém tanto Tom quanto Minguinho apresentam um ponto fraco em comum: eles não existem. O pequeno pé de laranja lima é tão somente uma árvore, Minguinho é fruto da criação imaginária de Zezé. Ao passo que Tom é um personagem, sem identidade no mundo real, sem uma vida fora de um roteiro.

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É quando a realidade traz um presente para nossos frágeis personagens. Chega, na cidade de Zezé, Manoel Valadares, um senhor português, apelidado de Portuga, que vem a ser um amigo real para a criança. Enquanto Minguinho é o autoerego de Zezé, Portuga é a materialização das expectativas do menino. O novo amigo surge para apresentar para o garoto as maravilhas do sonho aliadas ao apego à realidade, como uma forma de equilíbrio, de manutenção da sanidade. Enquanto na obra de Allen, Cecília é surpreendida pelo ator, intérprete de Tom Baxter, Gil Sheperd, que surge buscando retornar seu personagem para as telas. Gil se torna a felicidade possível, aos olhos de Cecília, enquanto a protagonista passa a ver Tom Baxter como uma ilusão, um fantasma.

Tanto José Mauro de Vasconcelos quanto Woody Allen não aliviaram com um típico e fácil final feliz. O escritor brasileiro optou por retratar de forma crua e real suas trágicas perdas, tanto do pé de laranja lima, que fora cortado, quanto do seu amigo Portuga, vítima fatal de um acidente. É quando surge um elemento até então evitado para o público infantil: a percepção da morte pelos olhos de uma criança. O garoto encerra enfrentando um lento processo de desconstrução do mundo imaginário. Vasconcelos exterioriza esse processo quando Zezé vai ao quintal, seu paraíso fantástico, com o irmão mais novo, e silenciosamente vê seu encanto se dissipar: "Nunca existiu pantera negra, era apenas uma galinha preta e velha que eu comi na canja", e " A selva do Amazonas era apenas meia dúzia de laranjeiras, espinhudas e hostis." A visão seca e pessimista do escritor nas páginas finais se estende aos questionamentos religiosos: "Você é malvado Menino Jesus! (...) Por que você não gosta de mim como dos outros meninos? Eu fiquei bonzinho. Não briguei mais, estudei as lições, deixei de falar palavrão. Por que você faz isso comigo?" Woody Allen, por sua vez, devolve a solidão à Cecília, quando Tom Baxter retorna à tela do cinema e Gil Sherperd volta para Hollywood, abandonando a protagonista, que refugia- se novamente no cinema. Sendo menos explícito do que José Mauro de Vasconcelos, Allen opta pela valorização da arte cinematográfica, deixando apenas a expressão facial da protagonista ganhar vida própria, vislumbrada pelo musical que acabara estreiar na cidade, durante o fade final.

Vasconcelos e Allen estabeleceram uma ruptura com o previsível, o que aproxima suas obras, ao passo que as afastam da felicidade vendida pelo senso comum, valorizada tanto pelas típicas obras infantis quanto por grande parte dos romances hollywoodianos. Ambos exploraram as perdas, ao final de suas obras, consolidando a tragédia e o drama, deixando o público sem chão. Zezé e Cecília tinham como sustentação a fantasia (representada por Minguinho e Tom) e um personagem real que permitia uma felicidade alcançável (Portuga e Gil), é quando todos os possíveis alicerces dos protagonistas são retirados, deixando os mocinhos completamente no vão. Não há felicidade consolidada na fantasia, como a efemeridade que é, assim como não há na realidade, que será inevitavelmente cruel. É quando nós, leitores e espectadores, nos dividimos entre a indignação, o conformismo ou a redenção a um final amargo, sem artifícios anestésicos, um final com o excesso de realismo com o qual não estamos habituados. No qual Vasconcelos e Allen contrariam uma regra que vem sido estendida, como um conforto, desde os contos fadas: o felizes para sempre. E exclamam em alto e bom tom: É exatamente isso, amigos, a realidade pura, crua, nua. Aceitem-na, se querem sobreviver ao mundo lá fora. É quando nos levantamos, aplaudimos de pé, e nos curvamos a esses dois grandes presentes essenciais para a literatura e para a nossa sétima arte.


Bruna Testi

Sou constituída pelas minhas perspectivas, minha alma é quase visível a olho nu. Sou meu ofício. Publicitária por formação, cinéfila por opção. Aprecio desde Bergman até Spielberg, mas daria meu reino por um café com Woody Allen.
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