percepções culturais e quimeras cotidianas

A abstração de um inquietante olhar contextual

Bruna Testi

Mestranda em Filosofia, bacharel em comunicação, pesquisadora de teatro e cinéfila incorrigível. Aprecio desde Bergman até Spielberg, mas daria meu reino por um café com Woody Allen

Mar e Lua: A bela e delicada tragédia de Chico Buarque

Uma intensa, bela e trágica relação homoafetiva, entre duas mulheres, que ganhou uma indescritível leveza nas mãos do compositor.


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Mar e lua, menos de dois minutos poetizados e musicalizados nos versos e na voz de Chico Buarque. Uma intensa, bela e trágica relação homoafetiva entre duas mulheres ganhou uma indescritível leveza nas mãos do compositor. Chico não economizou nas metáforas, nem disfarçou sua inevitável inspiração, uma entrega à intrigante e contrastante cumplicidade na qual resulta a mais bela das paisagens noturnas - Mar e Lua. O amor reprimido, aparentemente impossível, é relatado com delicadeza, como as nuances das ondas do mar, e com a inspiração dedicada pelo brilho da lua.

A impossibilidade do amor entre as duas personagens é sutilmente comparada e associada à mesma inviabilidade de um inspirador romance entre a imensidão azul e o luar. O compositor traçou um paralelo do início ao fim, tomando como sustento tais elementos. Moldada na impossibilidade aliada ao amor, ao desejo e à entrega, a poesia musicalizada de Chico Buarque é desenvolvida em três fases: a felicidade impossível, o amor condenado e a rendição.

"Amaram o amor urgente/ As bocas salgadas pela maresia /As costas lanhadas pela tempestade / Naquela cidade / Distante do mar / Amaram o amor serenado/ Das noturnas praias/ Levantavam as saias / E se enluaravam de felicidade / Naquela cidade/ Que não tem luar"

Os primeiros versos, ricos em metáforas e prosopopéias, representam a dificuldade na concretização do sentimento compartilhado, embora existente e real. Com genialidade, é estabelecido paralelamente um diálogo com o mar e com a lua, que, mesmo não estando presentes naquele ambiente, embalam e inspiram o relacionamento. Na continuidade, os grandes obstáculos da relação são revelados: o preconceito e a condenação da população local.

"Amavam o amor proibido/ Pois hoje é sabido/ Todo mundo conta/ Que uma andava tonta/ Grávida de lua/ E outra andava nua/ Ávida de mar/ E foram ficando marcadas/ Ouvindo risadas, sentindo arrepios/ Olhando pro rio tão cheio de lua/ E que continua/ Correndo pro mar"

O mar e a lua permanecem representando um desejo reprimido, um sonho inalcançável. A reviravolta da música é o rio, mais uma bela metáfora, simbolizando a possibilidade, um caminho que permite o encontro final entre o mar e a lua. Para elas, a saída, o escape, a entrega e a rendição.

"E foram correnteza abaixo/ Rolando no leito/ Engolindo água/ Boiando com as algas/ Arrastando folhas/ Carregando flores/ E a se desmanchar/ E foram virando peixes/ Virando conchas/ Virando seixos/ Virando areia/ Prateada areia/ Com lua cheia/ E à beira-mar"

Por fim, Chico Buarque nos mostra o desfecho trágico final. Ambas se lançam rio abaixo, deixando que as correntezas levem seus corpos e seus sonhos, juntos, permitindo que esses sejam novamente materializados, em uma possível nova dimensão.

A destituição, a transformação e a restituição. Uma história trágica, tratada com tanta poesia que se torna terna, delicada e bela. As personagens centrais passam a compor a paisagem que sempre inspirou o romance, mas que permanecia tão distante para ambas, a Lua junto do Mar. É quando essa distância é, finalmente, superada, pois agora lá estava a "prateada areia, com lua cheia e à beira-mar."

Mar e Lua, letra de 1980, foi inspirada em uma crônica de jornal, sobre duas mulheres que se amavam, em uma cidade do interior, porém eram vítimas do preconceito, da estigmatização da sociedade, e então encontram a rota de fuga: o suicídio, atirando-se nas águas de um rio. Chico Buarque teve a sensibilidade aliada à sua nata genialidade poética ao retratar a história com tanta doçura e beleza. O ouvinte, ao fim, percebe-se intrigado: Afinal, o suicídio das personagens é o reflexo do desespero diante desse amor considerado tão clandestino, ou seria uma redenção, sem desesperos, apenas uma saída, uma tragédia na qual o sofrimento assume a coadjuvância, enquanto a serenidade da entrega rouba a cena.

A letra e a melodia da canção parecem ser guiadas pela mesma sutileza. A sexualidade e os desejos aparecem impulsionados pelo amor proibido, ao mesmo tempo são tratados com a inerência que lhes é cabível, representada por elementos da própria natureza, simbolizando uma relação natural, iluminada pela deslumbrante luz da lua, acompanhada pela imensidão do mar, a imensidão do sentimento e do desejo, sufocados e injustamente condenados. É quando a natureza encontra seus inimigos: a humanidade, o preconceito e a estigmatização social. Diante dos quais, reage de forma frágil e delicada, sem confrontos, sem reclames. Apenas se vê sucumbindo, entregue e serena.


Bruna Testi

Mestranda em Filosofia, bacharel em comunicação, pesquisadora de teatro e cinéfila incorrigível. Aprecio desde Bergman até Spielberg, mas daria meu reino por um café com Woody Allen.
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