percepções culturais e quimeras cotidianas

A abstração de um inquietante olhar contextual

Bruna Testi

Sou constituída pelas minhas perspectivas, minha alma é quase visível a olho nu. Sou meu ofício. Publicitária por formação, cinéfila por opção. Aprecio desde Bergman até Spielberg, mas daria meu reino por um café com Woody Allen

Auto sabotagem - uma vida em tons pastel

Somos vítimas de nós mesmos. Reféns e bandidos. Torturadores e prisioneiros. Uma dicotomia constante. Um vicioso ciclo que clama pela interdição.


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Auto boicote, ou auto sabotagem, o primeiro sinal de que o seu amor próprio está sendo sufocado pelo comodismo. Você olha pela janela da sua vida e aceita a vista limitada, até onde seus olhos alcançam. Nesse horizonte você percebe as suas pequenas conquistas, seus relacionamentos fracassados, as amizades enfraquecidas, o tempo que escoa pelos seus dedos e as oportunidades perdidas. Você avista uma vida morna, sem ousadias, porém sem sustos. Admira as suas asas, que nunca alçaram grandes vôos, mas permitiram a suave planagem nas suas pequenas e tão raras quedas. Enquanto você aprecia a paisagem, se aconchega no conforto da poltrona, se conforma com essa morosidade aceitável, que você insiste em chamar de vida.

Se você, caro leitor, de algum modo se identificou com as últimas linhas, tenho uma sugestão para você: Saia dessa poltrona, experimente levantar a cabeça, eleve o olhar, e veja - a vida vai muito além dessa visão restrita, harmonicamente pintada a óleo, em tons pastel. Há, ao norte um canto onde o sol não bate. Reparou? Viu a imensidão azul logo ali ao fundo? Há uma ilha naquele horizonte, a qual você jamais ousou explorar... E aquelas montanhas logo ao lado? O que há em seu topo? E o que há atrás dessa estrutura rochosa tão inabitável pelos seus planos?

Não é fácil encarar as zonas desconhecidas da vida. Aceitar os meios termos é certamente mais confortável, experimentar o facilmente digerível é sempre a melhor opção para nossa mente, para a nossa limitada percepção. Há em nosso inconsciente uma desenfreada busca por segurança, uma constante tentativa de auto preservação, cultivamos a nossa zona de conforto, onde os sacrifícios, os medos e as ansiedades freiam os nossos impulsos, nos paralisam. Surge então a nossa grande armadilha.

É aí que auto sabotagem delicadamente te devasta, é quando você alimenta as desculpas, engaveta os projetos, dá aquele passo para trás sempre que se depara com uma pequena pedra em seu caminho. Você se boicota quando busca mais justificativas e menos soluções, quando transforma o tempo e a idade em grandes obstáculos, ao invés de utilizá-los a seu favor. Nunca é tarde para arejar sua biografia, reformar seu mundo, reerguer sua estrutura.

O nosso maior inimigo habita em nosso interior, confunde nossa mente, camufla nossos desejos, perturba nossas emoções. Esse é o conformismo. É quando pensamos: "Não estou exatamente onde gostaria, mas estou bem aqui, confortável". Sem essa! Vamos, levante e olhe novamente pela janela, perceba as variadas oportunidades das quais você teima em desviar o olhar. Defina seus objetivos mais almejados. Sabe aquele plano que você julgava ser impossível? Agarre-o com força, trace sua rota, vá, siga seu caminho e mude seu destino.

Não digo que será fácil. Certamente você presenciará vários naufrágios ao atravessar o oceano, você arriscará uma escalada e a queda poderá ser grande, poderá ser grave, talvez te deixará sequelas irreparáveis como lembrança. Alguns amigos irão enfrentar essa aventura com você e outros ficarão pelo caminho. Porém, você não irá sucumbir. As noites serão frias e a escuridão será sua mais fiel companheira, mas em breve você perceberá seus sonhos se materializando diante dos seus olhos, enquanto a tangibilidade dos seus planos te acolherá e te revelará a amplitude do seu universo.

E será cuidando das suas feridas que você enxergará o seu amor próprio se revelando, cada cicatriz representando cada esforço em fazer a sua vida valer a pena. Você se surpreenderá valorizando a sua trajetória, e se pegará usufruindo-a da melhor forma. Sem comodismo, sem auto boicotes, sem planos sufocados. Você se recordará das suas asas inutilizadas e perceberá quão alto poderá alçar seu grande vôo. E você vai.

Lá de baixo, os acomodados, em confortáveis poltronas, te observarão, observarão os seus pés calejados, as suas mãos feridas, os seus ombros pesados. Enquanto te assistirão tocando as nuvens, não hesitarão ao te julgar: "um alucinado, apenas". Já você, pela sua perspectiva, perceberá o quanto é tudo tão pequenininho aqui embaixo e simplesmente seguirá em frente, com uma bagagem que não mais lhe incomodam os ombros. Você seguirá, sem olhar para trás, afinal, ainda haverá toda uma imensidão esperando para ser explorada por você.


Bruna Testi

Sou constituída pelas minhas perspectivas, minha alma é quase visível a olho nu. Sou meu ofício. Publicitária por formação, cinéfila por opção. Aprecio desde Bergman até Spielberg, mas daria meu reino por um café com Woody Allen.
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