percepções culturais e quimeras cotidianas

A abstração de um inquietante olhar contextual

Bruna Testi

Sou constituída pelas minhas perspectivas, minha alma é quase visível a olho nu. Sou meu ofício. Publicitária por formação, cinéfila por opção. Aprecio desde Bergman até Spielberg, mas daria meu reino por um café com Woody Allen

O amor, a loucura e a obsessão na corda bamba de Truffaut

"Não sei por que faço um filme assim, tão triste. Mas a ideia fixa tem algo de vertiginoso, e creio ter sido tomado por essa vertigem". - François Truffaut sobre sua obra "A História de Adele H".


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Há uma tênue linha que separa o amor real da desenfreada obsessão. O rompimento dessa linha já fora tantas vezes clamado pelos amargurados poetas românticos, cantado em alto e bom tom por inspirados músicos ao redor do mundo, assim como fora tema central de variadas obras cinematográficas. Porém, quando François Truffaut decide aponderar-se de um tema, ainda que aparentemente clichê, o resultado é um autêntico espetáculo artístico, de se deliciar com os olhos, em todas as suas formas. Assim foi com a sua imperdível obra de 1975, A História de Adele H (La Histoire d'Àdele).

O longa foi desenvolvido e sustentado a partir de fragmentos do diário escrito por Adele Hugo, filha do escritor francês Victor Hugo, dedicados ao Tenente Albert Pinson, por quem a jovem alimentava um desgastante e doentio amor não correspondido.

A personagem foi interpretada pela estonteante Isabelle Adjani, que, na época das gravações do longa, possuía apenas 19 anos, enquanto dava vida à protagonista de 33, 14 anos mais velha. A interpretação de Adjani dispensa elogios, simplesmente impecável, de tirar o fôlego. Não há como fugir do inevitável mergulho à imensidão de seus olhos, que transitam entre a paixão, a esperança, a obsessão e a loucura. O olhar de Adele ganha vida própria na direção de Truffaut aliada à incrível interpretação de Adjani: um olhar vago, vazio, que, em alguns momentos, revela-se  profundo, confuso e enigmático. Olhos que exalam sentimentos, que arrancam lágrimas e suspiros do espectador.

A fotografia beira a genialidade artística. A parceria entre Truffaut e Néstor Almendros transformou o longa em uma experiência visualmente impecável. Há cenas que se assemelham às artes plásticas. A harmonia das tonalidades, dos cenários, dos figurinos, aproxima-se das pinturas, ao mesmo tempo, adquire vida própria e se intensifica ao longo do desenrolar da trama, o que permite ao espectador uma imersão na atmosfera sombria e envolvente fornecida pelo longa.

A fragilidade psicológica de Adele é revelada logo nas cenas iniciais. O longa inicia-se com a chegada da mocinha ao Canadá, após sair da França, e atravessar o oceano Atlântico atrás de Albert Pinson. Inicialmente, aos olhos do espectador, Adele é apenas uma apaixonada tentando reencontrar o amor perdido. Porém, nos primeiros minutos iniciais a personalidade frágil e obsessiva de Adele começa a ser revelada. A protagonista é cercada de conflitos internos, aparentemente insuperáveis. Como a perda da irmã, que morreu afogada, a relação enigmática com os pais e um amor próprio desgastado, quase inexistente. Adele aparenta estar imersa em um universo pessoal, em uma fantasia criada e constantemente alimentada e sustentada por ela, uma nítida tentativa de fuga da realidade com a qual a mocinha, claramente, não consegue lidar. A personagem cria uma nova identidade para si, apresenta-se como Adele Lewly, negando o famoso sobrenome do pai, assim como constrói personalidades distintas para Pinson: para alguns "um primo distante", para outros "o cunhado da irmã". Os devaneios da protagonista ganham intensidade a cada gesto de indiferença do almejado Tenente, e, na mesma proporção, Adele mergulha em um incontrolável desespero, uma queda livre em um profundo e invisível vão.

A obra retrata, de forma crua, a forma como um amor não correspondido pode ser dilacerante. O espectador muitas vezes se pega questionando se o que motiva Adele a sua perseguição e a alimentar suas neuroses e inseguranças seria realmente o amor que a mocinha diz sentir, ou se seria essa obsessão uma rendição à inevitável ausência de sanidade à qual a protagonista se viu totalmente entregue. Diante da não correspondência de sua paixão, Adele não busca a reconstrução de seu mundo real, e sim entra em uma descontrolada perda de identidade, permite o pouco que lhe resta de contato com o real se dissipar gradativamente, até seu rompimento total com a sanidade. Tal qual uma náufraga que se recusa a ser resgatada.

Truffaut nos mostra o retrato mais cruel e devastador de um amor desenfreado. O amor nessa obra não é um refúgio, um conforto, nem tampouco uma libertação. Ao contrário, ele emerge destrutivo, sádico e corrosivo. Uma paixão antagonista, que consome sua vítima até o último suspiro.

A História de Adele H está longe de ser um filme facilmente digerível, com uma atmosfera densa e sombria, Truffaut leva o espectador ao limite, sem anestésicos, mas sem deixar de oferecer uma obra intensamente apaixonante, elegante e visualmente incrível. Considerada uma das maiores expressões artísticas do diretor, lhe garantiu o Prêmio do Cinema Francês e de Melhor Filme Estrangeiro pela Associação Nacional de Críticos dos EUA, além de uma merecida indicação de Isabelle Adjani ao Oscar de melhor atriz. Renda-se aos olhos marejados, aos nós na garganta, e ao soco no estômago proporcionados por essa obra de arte. A História de Adele H é uma experiência nada menos do que imperdivel pelos amantes de um belo espetáculo cinematográfico.


Bruna Testi

Sou constituída pelas minhas perspectivas, minha alma é quase visível a olho nu. Sou meu ofício. Publicitária por formação, cinéfila por opção. Aprecio desde Bergman até Spielberg, mas daria meu reino por um café com Woody Allen.
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