percepções culturais e quimeras cotidianas

A abstração de um inquietante olhar contextual

Bruna Testi

Mestranda em Filosofia, bacharel em comunicação, pesquisadora de teatro e cinéfila incorrigível. Aprecio desde Bergman até Spielberg, mas daria meu reino por um café com Woody Allen

À Minha Estranha Lucidez

Você apareceu de forma serena. Vestiu-se com a coadjuvância que lhe é inerente, sem fazer alarde algum, sem acionar alarmes. Como um vulto que me invade os sonhos, um desconhecido que tenta me resgatar de um naufrágio. Mas... Quem foi que pediu resgate mesmo?


images (5).jpg

Você chegou de fininho, sem pedir licença, sem um aval ou um prévio aviso. Mas fez-se notável, devastando meu surreal território, destruindo minha insensatez, apagando minhas mais doces ilusões. Você apareceu de forma serena. Vestiu-se com a coadjuvância que lhe é inerente, sem fazer alarde algum, sem acionar alarmes. Não me deu a chance de recorrer às minhas tão necessárias válvulas de escape, aliás, você nunca me deu chance alguma sequer. Sempre que você vem me fazer essas tão raras visitas, você chega assim, descalça para que eu não escute seus passos, um vulto que me invade os sonhos, um desconhecido que tenta me resgatar de um naufrágio. Mas... Quem foi que pediu resgate mesmo?

Recebo-te cordial. Como quem recebe um estranho. Não sou íntima o bastante para te acolher em meus braços, mas te ofereço uma cadeira e te sirvo um bom vinho. Reconheço que és fundamental. Mas recebo-te com a vassoura atrás da porta, de olho no relógio, perguntando-me quando me virará novamente as costas e passará pela porta, com a sua suave mansidão.

Você se senta e me diz as mais duras palavras no mais macio tom de voz. Me deixa inerte, me rouba a fala. Permaneço no vão do silêncio enquanto sua voz ecoa, enquanto você esfrega na minha cara uma tal de Rea... Como é mesmo o nome? Ah sim, uma tal de Realidade! Me questiono por que diabos você gosta tanto dessa palavra. Não acho graça alguma. Seca, longa, caucafônica aos meus despreparados ouvidos. Mas você insiste nesse assunto enquanto viro os olhos. Ah... Você tem a péssima mania de querer me trazer ao chão, me diz que o concreto é mais seguro, e que as nuvens não têm consistência suficiente para suportar os meus passos. Você engata um papo chato sobre Física, Química e o escambal. É então que você me devasta... Tenta me convencer de que eu não possuo asas, que não posso voar, nem sequer flutuar... Diz o quanto é perigoso sair da órbita terrestre. Que não serei próspera ou produtiva enquanto insistir em perseguir o brilho da lua. Dentre essas duras e hostis revelações, você me conta que aquele café que eu tomaria com Woody Allen, enquanto conversaríamos sobre A Rosa Púrpura do Cairo, e ele me esclareceria o paradoxo conflito de Cecília entre Tom e Gil, jamais acontecerá, diz que isso é pura ilusão, "coisa da minha cabeça", expressão que você usa bastante também. Outra mania sua: Confrontar essas palavras, Ilusão e Realidade. Confesso que gosto mais da primeira, Ilusão, tão mais doce, suave e redonda... Olho pra você e penso que és Gil Shepperd querendo me convencer de que Tom Baxter não existe... Você estala os dedos, pedindo minha atenção, reclamando da minha constante distração, e outro sermão interminável se inicia. Ficamos ali por algumas horas. Eu, calada, percebo seu esforço em me manter focada em você, fingindo encarar tudo isso com a tal seriedade que você tanto me exige.

De repente, um barulho ensurdecedor vem da janela... Ah, eis a Insensatez! Essa sempre chega assim, de modo teatral e impactante, conquista a cena, me seduz e te rouba a minha atenção. Protagonista, um contraste com a sua quase figuração... Desvio o olhar de você, que ensaia uma última e vã tentativa. Mas você cede, não tenta o confronto. Apenas se levanta e se vai, com seus passos mansos e imperceptíveis.

Então, em um envolto abraço com a Insensatez, me lanço pela janela. Nem me lembro mais da tal gravidade, na qual você insistia há minutos atrás. Pego o impulso, alço o vôo, pairo sobre os telhados e percebo as minhas mãos tocando as nuvens... Daqui do alto te vejo caminhando, cautelosamente, sob o concreto. Ah, Lucidez, se você se rendesse à harmônica rima com a minha Insensatez, que bela poesia seria... Quem sabe assim você perceberia a beleza, as cores e os aromas das quimeras do mundo. Você enxergaria que o brilho da Lua pode ser nosso guia, nosso refúgio. Compreenderia que a tal Realidade, que você tanto insiste em defender, pode ser muitas vezes densa, pesada, pode nos devastar os ombros, nos desarticular a estrutura. E então você valorizaria a existência e a importância das minhas asas. Perceberia que o maior perigo reside em permanecer demasiadamente preso à órbita terrestre. Talvez chegaria à tão evidente conclusão: Busco a Insensatez para não te perder de vez, Lucidez. Busco a mais doce auto preservação, a mais bela válvula de escape, faço da ilusão um delicado refúgio. Para, enfim, retornar serena e pronta para te receber, com as forças que meus ombros precisam quando você me chegar assim, tão densa... Quisera eu a oportunidade de te explicar quão colorida e envolvente pode ser a intangibilidade do mundo... Mas você não me compreenderia. Ah, eis o meu lamento, Lucidez, certamente, você jamais compreenderia.

Sigo então entregue à intensidade da minha Insensatez. Sigo por aí. Flutuando por cima das árvores, sendo guiada pelo brilho da lua e carregada pela leveza dos ares. Em um vôo envolvente, porém temporário. Carrego comigo poucas convicções, mas eu sei que você volta. Sim. Disso eu tenho uma rara e firme certeza. Logo logo você retorna, como um sereno vulto, me fazendo descer ao chão, me lembrando dessa hostil concretude e devastando, novamente, as minhas mais doces quimeras.


Bruna Testi

Mestranda em Filosofia, bacharel em comunicação, pesquisadora de teatro e cinéfila incorrigível. Aprecio desde Bergman até Spielberg, mas daria meu reino por um café com Woody Allen.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @obvious //Bruna Testi