percepções culturais e quimeras cotidianas

A abstração de um inquietante olhar contextual

Bruna Testi

Sou constituída pelas minhas perspectivas, minha alma é quase visível a olho nu. Sou meu ofício. Publicitária por formação, cinéfila por opção. Aprecio desde Bergman até Spielberg, mas daria meu reino por um café com Woody Allen

Uma inebriante entrega ao Estado de Poesia

O novo álbum de Chico César, "Estado de Poesia", carrega um belo contraste entre a leveza do amor poético e a densidade das necessárias críticas políticas e sociais. Um irrecusável convite à entrega, à inquietação e à reflexão.


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Após oito anos de hiato desde o álbum "Francisco, Forró y Frevo", lançado em 2008, Chico César retornou em 2015 ao cenário musical, presenteando aos bons ouvidos, com o seu momento de libertação exteriorizada no álbum "Estado de Poesia". 

Conservando suas misturas de ritmos, a mais recente obra musical de Chico faz uma constante homenagem à música em seus mais variados estilos. Transita entre as claras referências ao samba de Adoniran Barbosa, ao lado popular do baião, como o de Gilberto Gil dos anos 70, até à miscigenação entre o rock e o folk no estilo Bob Dylan, o álbum resultante do projeto "Natura Musical", de selo do próprio cantor e compositor, "Estado de Poesia" consiste em uma experiência musical imperdível aos amantes da boa música.

Para reforçar o caráter anárquico da obra, Chico César mantém a presença notável de sua guitarra em quase todas as músicas, o que nos remete ao espírito de liberdade, tão clamado pelos músicos dos anos 70. Com exceção de "Miaêro", na qual é o violão quem rouba a cena.

O disco é a prova concreta de que o amor pode ser poetizado e cantado sem cair na obviedade, e ainda nos chegar acompanhado de ricas e densas críticas. Um convite permanente à entrega, à inquietação e à reflexão. Podemos dividir o "Estado de Poesia" em duas fases. Em um primeiro momento, Chico nos apresenta a poesia e a leveza do amor romântico. E, a partir da sétima faixa, engata um olhar crítico, e o amor emerge mais social e político, expressando um sonho coletivo, as contradições e inseguranças que afetam e devastam amplamente a sociedade.

O álbum já começa nos comunicando a que veio, "Caninana" é um verdadeiro "cheiro no cangote". Um xote macio, ao mesmo tempo pesado, urbano e contagiante. A canção carrega características do bom e saudoso baião de Luiz Gonzaga, além de nos trazer aos ouvidos claras nuances da nostálgica bossa nova de João Donato. Ao longo da música, a guitarra empodera com a força do rock dos anos 70 e 80. A escolha mais certeira para abrir o disco, "Caninana" nos chega aparentemente simples na estrutura, mas com um forte e irresistível poder de comunicação. E a sequência já vem acompanhada dos mais profundos e apaixonados suspiros. "Caracajus", canção lúdica, romântica, de sonoridade limpa e onírica, é carregada de uma aconchegante melodia. A música alude abertamente à musa inspiradora de Chico César, sua esposa Bárbara, sendo o nome uma mistura de Caracas (capital da Venezuela, onde residia Chico, na época) e Aracaju (cidade na qual Bárbara se encontrava). A grande inspiração para o título do álbum, a terceira faixa, "Estado de Poesia", é a única música não inédita do disco, já cantada por Maria Bethânia no show "Carta de Amor" em 2012. A canção traduz o estado mais inebriante e envolvente da paixão, sem cair no abismo do piegas, uma contagiante poesia, uma bela expressão artística musicalizada.

Na sequência, o amor romântico continua atuando como protagonista. Após o envolvente reggae, "Palavra Mágica", vem a riqueza da metafórica poesia de "Museu", na qual o poeta se entrega a sua musa, em uma súplica para que seja explorado, como um museu, em um "abraço experimental". Já o irresistível bolero em "Da Taça", é um dos grandes ápices do disco. A união entre o órgão e a guitarra, novamente, nos remete à década de 70, nos transportando à ingenuidade do rock das antigas baladas românticas. Além de toda a riqueza poética e entorpecente em cada verso cantado por Chico César.

Mas é com a morna de "Miaêro" que se inicia ao "lado B" do álbum, desencadeando uma sequência de críticas sociais, religiosas e políticas. Com exceção de "Atravessa-me", que retoma a linha do amor romântico, as próximas canções, possuem forte caráter crítico aliado ao convite à inquietação e à reflexão. Como o cativante reggae "Negão", que contou com a participação de Lazzo Matumbi, um reclame contra o racismo, assim como o apelo pelo respeito às várias religiões cantado em "Guru", e o presente musical de "No Sumaré", com a qual Chico César nos contagia com um samba no bom estilo Adoniran Barbosa, que explora o preconceito social e sexual. A canção canta a sina de "dois mendigos, dois amigos, um deles travesti" que residiam em uma praça, no bairro de Sumaré, em São Paulo, vítimas de discriminação e perseguição da burguesia que ali frequentava. Na sequência, vem o frenético frevo "Alberto", homenagem ao aviador mineiro Santos Dumont. Chico utiliza da poesia para retratar a metáfora do desejo de voar aliado à necessidade de libertação do nosso pai da aviação.

Assim como "Caninana" foi a escolha perfeita para a abertura do álbum, não haveria melhor opção para encerrar a obra, com maestria, do que "Reis do Agronegócio". A última faixa do disco, é constituída por onze minutos musicalizados exclusivamente com a voz acompanhada da guitarra, no estilo folk de Bob Dylan. Os versos, escritos por Carlos Rennó e musicalizados por Chico César, são densos, demasiadamente críticos e dirigidos aos "donos do agrobusiness". Sem anestésicos, a música de fechamento do álbum conquista os atentos ouvidos, utilizando o discurso direto, com frases carregadas de denúncias como "nunca houve um desenvolvimento tão destrutivista" e "vocês que ganham, com um negócio desse, muitos milhões, enquanto perdem suas almas".

O "Estado de Poesia" é um álbum atual, contemporâneo e sensível. Um belo contraste entre a leveza da poesia e a tensão das tão necessárias críticas políticas e sociais. Enquanto cada faixa é uma expressão artística e cultural à parte, o álbum representa uma verdadeira obra prima. Uma experiência musical imperdível aos bons e receptivos ouvidos. Um convite irrecusável à inebriante entrega e permanência nesse envolvente estado de poesia. Prepare-se para uma doce, poética e forte imersão musical. E, como disse o próprio poeta Chico César, em entrevista concedida ao portal "Livre Opinião", que tenhamos sempre essa contagiante sensibilidade para viver com "menos Estado e mais poesia".

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Bruna Testi

Sou constituída pelas minhas perspectivas, minha alma é quase visível a olho nu. Sou meu ofício. Publicitária por formação, cinéfila por opção. Aprecio desde Bergman até Spielberg, mas daria meu reino por um café com Woody Allen.
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