percepções culturais e quimeras cotidianas

A abstração de um inquietante olhar contextual

Bruna Testi

Sou constituída pelas minhas perspectivas, minha alma é quase visível a olho nu. Sou meu ofício. Publicitária por formação, cinéfila por opção. Aprecio desde Bergman até Spielberg, mas daria meu reino por um café com Woody Allen

Distante em Algum Lugar - Uma imersão musical ao som da banda Versalle

De Rondônia para o Brasil, a banda Versalle presenteou o cenário do rock nacional com o álbum "Distante em Algum Lugar". A musicalidade rica, envolvente e destoante, aliada ao rock alternativo, coeso e de forte personalidade fazem de "Distante em Algum Lugar" uma experiência única, uma rica e imperdível imersão musical.


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Foi por obra do acaso que conheci a banda Versalle. Em uma noite comum de domingo, assistindo ao reality musical "Superstar" da Rede Globo, fui repentinamente surpreendida e tomada por uma sonoridade marcante, envolvente e singular de quatro jovens que ali se apresentavam pela primeira vez. Foram dois minutos em que me vi rendida e totalmente absorvida. Amor à primeira vista... Aliás, ao primeiro acorde. Após aquela apresentação, eu só queria mais, muito mais, queria ouvir, explorar e conhecer aquela banda de musicalidade tão madura e de tão forte personalidade, com um irresistível grave no vocal, de impressionar até os mais exigentes ouvidos. Não esperei terminar programa, corri para o computador e embarquei em uma desenfreada pesquisa sobre aquele som, oriundo de Porto Velho, capital rondoniense. Até então, uma banda independente,  formada em 2009, que produz um rock rico, alternativo, com nuances melódicas, musicalidade destoante, um som retrô e ao mesmo tempo contemporâneo, uma qualidade rara de se ouvir. Uma deslumbrante surpresa musical. Composta por quatro jovens integrantes - Criston Lucas (voz e guitarra), Rômulo Pacífico (guitarra), Miguel Pacheco (baixo) e Igor Jordir (bateria) - a banda Versalle presenteou o cenário nacional em dezembro de 2015, com o seu primeiro disco, "Distante em Algum Lugar", lançado pela Som Livre e distribuído para todo o Brasil. O álbum representou um marco na carreira musical da banda, que foi atração no Festival Lollapalooza, e conquista um espaço cada vez maior e merecido na atual cena do rock.

A obra é composta por doze faixas, sendo cada música uma envolvente e única experiência musical à parte. Mas é com "Marte" que o disco se apresenta ao público. A escolha mais certeira para a abertura, a música já dá o nome ao álbum no seu primeiro verso, "Distante em algum lugar". Psicodélica, a primeira faixa já comunica, convida e transporta. Com uma letra metafórica, acompanhada de sutis críticas, "Marte" prepara os ouvintes para um irrecusável embarque, rumo a uma envolvente viagem musical a ser aprofundada no decorrer da obra.

Eleita como a primeira música de trabalho da banda, a contagiante "Mente Cheia" é um dos destaques do disco. Sucesso nacional, a canção tem sido difundida nas diversas rádios pelo país, e teve seu vídeo clipe oficial lançado na primeira semana de março de 2016. "Mente Cheia" é um convite à inquietude, com um refrão marcante e envolvente, a canção representa um clamor pela necessidade de libertação. Presenteada com um clipe produzido à altura, pela Granada Filmes, de fotografia vintage, a atmosfera visual sóbria cria um belo contraste com a emersão das guitarras e o ritmo contagiante do refrão, o resultado é um rico e artístico trabalho visual, aliado à riqueza musical da terceira faixa do disco.

Há em "Distante em Algum Lugar" um protagonismo das músicas que remetem à inquietude, que clamam pela liberdade, com mensagens pautadas na superação, em partidas e despedidas, ressaltando a ousadia do ato de "seguir em frente". E é baseado nesse contexto, que o rock psicodélico e alternativo de "Avante" constitui um dos momentos mais altos do disco. A faixa seduz e envolve nos primeiros acordes, e, à medida que a sonoridade cresce, o convite torna-se irrecusável. Com frases como "do que eu puder vou desviar, se não me levar adiante", "Avante" chama à reflexão, dispensa o comodismo e guia ao desassossego. Logo na sequência, "Sem Hesitar" remete como uma extensão desse convite já apresentado na faixa anterior. Com a melodia mais densa, o rock rouba a cena, o ritmo emerge mais pesado, enquanto as marcações da bateria são mais notáveis. Pautada na valorização dos erros, como forma de superação e aprendizado, "Sem Hesitar" prende e conquista até os mais distraídos ouvidos. Essa mesma linha conceitual é retomada na décima primeira faixa, "O Que Fazer". A canção de ritmo denso, resultado da harmonia entre as cordas e a forte e constante marcação da bateria, a letra é um contrastante acalento. "O Que Fazer" carrega o tom de um conselho, como um incentivo na superação aos inevitáveis obstáculos, representado no marcante refrão: "Se não dá pra ser feliz, vamos fazer o possível".

Aos românticos de plantão, o álbum também rouba suspiros, com uma vertente mais introspectiva. Mas, até mesmo quando o amor assume o protagonismo, a partida e os recomeços ainda seguem como fiéis acompanhantes. Com exceção da sensível "Vinte Graus", na qual o sentimento parece concreto, sobre um leve cotidiano a dois, acompanhado do aconchego de um cobertor, consolidando assim um cenário romântico ideal. As demais canções, porém, estabelecem uma ruptura com a plena realização amorosa, enquanto a impossibilidade, a separação e a frustração se sobressaem. A poesia musicalizada em "A Saudade é Algo que Não Quero" canta a despedida, do ponto de vista de quem permite e assiste à partida do outro. Com o refrão "Se é pra ser feliz, vai..." letra é nobre, altruísta e empática, apesar da inevitável separação. Já em "Prezado Coração", a mensagem é mais dura, amarga, sem anestésicos, acompanhada de uma melodia mais pesada, ao mesmo tempo acolhedora e convidativa. O instrumental nessa faixa divide o protagonismo com a densidade dos versos. A canção seduz e comunica logo na primeira frase: "Não sei por que, tudo está vazio...". Apesar de pautada principalmente no recomeço, a letra carrega um lado mais pessimista, confuso e sombrio do sentimento, o que conduz os ouvidos a uma intrigante  rendição. "Prezado Coração" é de se contemplar, entregue, com a escuta atenta e os olhos marejados.

Mas, quando o assunto é "impossibilidade amorosa", não há como não se render ao encantamento de "Verde Mansidão". A suavidade das batidas na introdução já conquista a atenção dos ouvintes. A canção é construída e sustentada com metáforas e personificações, o uso das figuras de linguagem, aliado ao ritmo suave, alternativo, no estilo indie-rock contemporâneo, fazem de Verde Mansidão um dos ápices do álbum, um sensível e musical poema. Com versos como: "Vai, você só me faz lembrar do que não aconteceu", seguida pelo refrão, "e ela me disse: o amor vencerá", a dicotomia entre a não concretude do amor e a esperança diante da impossibilidade do sentimento resultam em uma bela e envolvente inspiração.

"Distante em Algum Lugar" é um álbum que transita, transporta e acolhe, no qual o convite à reflexão é constante. E, na sétima faixa da obra, "Modelo Adequado", o rock emerge denso, marcante, ao mesmo tempo contemporâneo, aliado a uma das letras mais ricas e fascinantes do disco, com duras e claras críticas, além do magistral uso de metáforas. A canção, que merece um artigo e uma análise à parte, é um hino sobre o artificialismo nas condutas humanas, uma denúncia contra as imposições sociais que moldam e estabelecem padrões de  comportamentos. A letra é direta como em: "Conduta estereotipada é a garantia da aceitação", e metafórica no marcante refrão "Eu sou de plástico, e você? Eu sou o que eu devo ser...", enquanto o  'plástico' simboliza o artificialismo, tanto clamado em cada verso.

O álbum atinge o auge do seu psicodelismo musical na faixa "Eu Não Consigo Mudar". A letra clama por uma escuta atenta. Simbólica e rica em significados, a mensagem se sustenta na perda do auto controle, no bloqueio diante da mudança, com ricos versos que permitem ao ouvinte variadas interpretações. Mas é o ritmo psicodélico quem assume o protagonismo nessa música. São quase cinco minutos de fortes ondulações, distorções sonoras nas cordas, marcação constante da bateria, enquanto nos segundos finais emerge o solo das guitarras. "Eu Não Consigo Mudar" é uma brilhante e inevitável viagem, uma profunda e perturbadora imersão musical, uma das experiências mais singulares do disco.

O álbum encerra-se com maestria, com a onírica riqueza de "Dúvidas". Pessoalmente, considero a mais deslumbrante obra de arte do álbum. A mensagem é rica, sustentada na busca por refúgio em utopias, no apelo à ilusão enquanto válvula de escape de uma "vida vulgar", a letra prende, conquista, tornando inevitável a identificação. Porém, a canção de mais de seis minutos de duração, só é cantada até pouco depois de completos os dois primeiros minutos iniciais. Logo, são quase quatro minutos nos quais é o instrumental quem assume a cena. A bateria é uma constante protagonista nessa faixa, dividindo o "gran finale" com os solos das guitarras, acompanhada das ondulações do baixo, resultando no ponto mais alto do álbum, fechando-o com chave de ouro.

"Distante em Algum Lugar" consiste em uma envolvente experiência musical imperdível aos amantes da nossa boa música, aos apreciadores do rock nacional, e aos curiosos e receptivos ouvidos. Conheci a banda Versalle por acaso, mas não é por acaso que ela permanece constante na minha trilha sonora diária. A forte e impressionante personalidade, a consistência do estilo, a riqueza e coesão musical características da Versalle foram materializados em "Distante em Algum Lugar", consolidando uma imperdível obra prima musicalizada. Cada faixa constitui uma particular e única vivência sonora, produz efeitos colaterais, e oníricas imersões musicais. Se eu pudesse ofertar um único conselho sobre essa necessária experiência sensorial seria um sonoro: Permita-se à entrega à Distante em Algum Lugar. Renda-se aos seus efeitos, e aprecie, sem moderação.

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Ficha Técnica:

Distante em Algum Lugar (2015) 

Duração: 53 minutos

Gravadora: Slap/ Som Livre

Produção Musical: André Valle e Aurélio Kauffmann

Direção Executiva: Mário Marques e Marcelo Reis

Disponível nas lojas de todo o Brasil, e nas plataformas: Spotify/ Google Play/ Deezer / Napster/ iTunes


Bruna Testi

Sou constituída pelas minhas perspectivas, minha alma é quase visível a olho nu. Sou meu ofício. Publicitária por formação, cinéfila por opção. Aprecio desde Bergman até Spielberg, mas daria meu reino por um café com Woody Allen.
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