percepções culturais e quimeras cotidianas

A abstração de um inquietante olhar contextual

Bruna Testi

Mestranda em Filosofia, bacharel em comunicação, pesquisadora de teatro e cinéfila incorrigível. Aprecio desde Bergman até Spielberg, mas daria meu reino por um café com Woody Allen

Precisamos falar sobre resiliência

Precisamos sobreviver ao caos sem perder a sanidade. Precisamos reacender cada faísca interior para liberar nossos mais belos fogos de artifício. Precisamos crescer, transcender, fortalecer nossa estrutura, alcançar os nossos sonhos. Precisamos nos livrar das paredes para, enfim, vislumbrar o nosso horizonte.


images (1).jpg

Não raro olhamos ao redor e percebemos um cenário demasiadamente confuso, caótico e hostil. É quando nos enxergamos cercados de problemas, conflitos, medos e angústias que nos encurralam e nos paralisam. Não há respostas aparentes ou fáceis soluções para todo esse emaranhado que perturba, enquanto as dúvidas só crescem e nos cegam. São dias difíceis, longos e frequentes. Mas como sobreviver a esse inevitável caos sem perder a sanidade? Vamos acatá-lo, procrastinando a cada novo toque do despertador? Ou nos agarramos ao menor lampejo que eventualmente nos surgir, utilizando de cada obstáculo como um meio para o nosso próprio desenvolvimento? E onde afinal reside toda essa força? Cabe a cada um de nós explorá-la em nosso interior, pois é exatamente aí que ela está. Sim, meus caros, precisamos falar sobre resiliência.

O termo "Resiliência" foi utilizado pela primeira vez pelo físico Thomas Young em 1807. Do latim "Resiliere", significa em sua etimologia "voltar atrás". Para a Física corresponde à capacidade que um objeto, material ou corpo tem de sofrer deformações após a exposição a fortes pressões ou impactos, e depois retornar à forma original, conservando suas propriedades, mantendo, desse modo, a sua integridade. A expressão foi adotada pelas ciências humanas, frequentemente aplicada no ramo da Psicologia para representar a capacidade que nós, seres humanos, possuímos de sobreviver ao caos, de transpor os obstáculos e de superar as adversidades. Todos estamos frequentemente expostos às frustrações, às decepções, às inevitáveis desilusões. Não raro precisamos lidar com os fracassos e as derrotas em suas várias dimensões. E, muitas vezes, sucumbimos frente às adversidades da vida. Porém, quando começamos a trabalhar a nossa resiliência psicológica, passamos a alimentar nossa capacidade de recuperação mental e emocional, e, então, cada obstáculo torna-se um degrau para nosso crescimento e aprimoramento pessoal.

Há uma equivocada crença de que a resiliência é uma característica inata, um traço de caráter. Não. Não é. Todos nós estamos aptos a desenvolvê-la por meio de um processo dinâmico de aprendizagem. Alguns possuirão mais facilidade com esse processo. Para outros talvez seja um caminho mais árduo, para o qual pode ser necessária a ajuda de um profissional para guiá-los nesse trajeto. Mas já é sabido: dentro de cada um de nós reside uma faísca, e só nos cabe percebê-la e nos agarrarmos a ela. Acredite, você tem potencial para liberar os mais belos fogos de artifício, capazes de te impulsionar na transposição de cada dificuldade que te cerca.

Daughter-of-zion.jpg

O primeiro passo para definirmos o quanto podemos e precisamos desenvolver a nossa resiliência interior é avaliar a forma como nos posicionamos diante das situações adversas. Aproveito a ocasião e convido você, caro leitor, cara leitora, para iniciar essa auto avaliação agora, aqui comigo, respondendo rapidamente algumas perguntas. Vamos lá?

Quando você se vê cercado de problemas de difíceis resoluções, como você interpreta esse cenário? Você procura abster-se da situação, repetindo para si mesmo que tais dificuldades estão fora do seu raio de ação, concluindo assim que você não tem a menor responsabilidade sobre elas? Ora, se algo está fora do seu controle, não há absolutamente nada a ser feito, não é mesmo? Afinal, você nada mais é do que vítima de tais circunstâncias.

Ou você assume uma postura mais ativa? Vê a si mesmo como parte integrante do problema, assumindo que certas dificuldades são frutos da sua forma de agir e se posicionar no mundo, reconhecendo, desse modo, a sua responsabilidade na construção desse cenário?

Talvez já esteja claro que quem respondeu afirmativamente ao segundo bloco de perguntas tende a ser mais resiliente diante das adversidades. A partir do momento em que assumimos a paternidade de um problema, recuperamos a capacidade de modificar um desagradável cenário ao nosso favor. Possuímos assim uma predisposição para superar cada obstáculo, adotando uma postura mais ativa diante dos conflitos. Mas, se você se reconheceu no primeiro bloco de perguntas, não se preocupe. Junto com você se encontra a maioria. Abster-se da situação, optar por uma postura negativa, assumir o tão almejado papel de vítima é onde reside a nossa zona de conforto. Cruzar os braços e reclamar do emaranhado de problemas que te assombra é simples e fácil, em um primeiro momento. Porém, devastador a longo prazo. Quando nos cegamos diante dos conflitos, nada fica resolvido, nos iludimos a cada vez que desviamos o olhar. O problema continua ali, te impedindo o crescimento, te paralisando, te blindando de novas conquistas. Aqui estamos diante da tão temida procrastinação. Ousaria dizer que seja ela a grande antagonista no desenvolvimento da nossa resiliência. Logo, o primeiro passo para aprendermos a lidar e superar um árduo cenário, é encará-lo, reconhecendo sua existência, e, acima de tudo refletindo sobre a nossa responsabilidade na consolidação de tal situação. Trata-se de exercitar a percepção individual e modificar nossa atitude mental frente às adversidades. Pode parecer desconfortável a princípio, mas é a primeira e mais fundamental mudança de atitude para seu desenvolvimento pessoal. Há uma sábia e inspiradora lição de Jean-Paul Sartre que diz: "Não importa o que fizeram com você, mas sim o que você faz com aquilo que fizeram com você".

A próxima etapa essencial para desenvolver a nossa resiliência é a formulação de um projeto de vida, é a busca por um sentido para a nossa existência. Não me refiro a objetivos pontuais e rotineiros, mas sim a uma grande meta, algo maior, que justifique e impulsione a nossa jornada. A partir do momento em que definimos um projeto pessoal, passamos a ter um apoio, um sustento para seguirmos adiante, uma motivação para superar as adversidades. Se você tem algo a ser alcançado, um objetivo que você vislumbra atingir, cada problema que surgir no seu caminho se tornará um obstáculo a ser superado, e até mesmo utilizado a seu favor, em prol do seu próprio fortalecimento. Lembra-se daquela conversa sobre a procrastinação, que tivemos há algumas linhas acima? Pois bem, ao perseguirmos uma grande conquista, buscamos fazer o que está ao nosso alcance para alcançá-la o mais breve possível, não é mesmo? Procrastinar e evitar assumir os problemas deixa de ser uma opção, enquanto encará-los e solucioná-los da forma mais efetiva, de modo a nos auxiliar em nosso projeto, torna-se prioridade. Cá estamos novamente falando sobre encarar as adversidades de forma positiva.

Para consolidação da nossa capacidade resiliente, é também fundamental a compreensão e o domínio das nossas emoções. O auto conhecimento é essencial para que possamos reconhecer as motivações, os desejos e as ambições que nos guiam. Além de nos auxiliar na capacidade de aprimorarmos a busca por aquilo que nos faz bem e nos impulsiona, e a evitação do que nos faz mal e nos paralisa. É a denominada inteligência emocional, quando percebemos nosso estado mais subjetivo, para que então possamos modificá-lo a nosso favor. Todos possuímos nossa luz interior, nossos recursos internos, capazes de nos orientar na superação das barreiras e no alcance do sucesso.

Thumbnail image for tumblr_lb1o7q4vvr1qcl0hlo1_500_large.jpg

Desenvolver a nossa resiliência interior é essencial para o desenvolvimento de nossa trajetória, para a nossa evolução pessoal. É a ferramenta fundamental na construção do mais resistente alicerce para o alcance dos nossos mais almejados sonhos. Inicie dentro de si mesmo esse tão necessário processo de aprendizagem. Busque ajuda, solicite apoio da família e dos amigos. Suporte afetivo é essencial para todo e qualquer progresso. Dia após dia você perceberá esse emaranhado, que tanto te assombra, se dissolvendo pouco a pouco. Cada obstáculo e cada dificuldade se transformarão em uma oportunidade de mudança e de crescimento. E aquela faísca que reside aí dentro, ainda tão rara a princípio, se tornará permanente, constante, permitindo grandes explosões interiores, que te impulsionarão de uma forma impressionante. Será neste momento que cada grande e visível muralha a ser transposta se reduzirá de tamanho aos seus olhos, transformando-se em degraus que te levarão ao seu tão almejado sucesso. E, não, não foi a muralha que bruscamente diminuiu, foi algo aí dentro de você que te fez crescer, foi a sua resiliência que te agigantou, te fazendo maior e mais forte diante de todo e qualquer obstáculo que eventualmente, e essencialmente, surgir em seu caminho. Faça, por fim, das palavras de Mário Quintana o novo lema da sua jornada: "Não tenho paredes, só tenho horizontes."


Bruna Testi

Mestranda em Filosofia, bacharel em comunicação, pesquisadora de teatro e cinéfila incorrigível. Aprecio desde Bergman até Spielberg, mas daria meu reino por um café com Woody Allen.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @obvious, @obvioushp //Bruna Testi