percepções culturais e quimeras cotidianas

A abstração de um inquietante olhar contextual

Bruna Testi

Mestranda em Filosofia, bacharel em comunicação, pesquisadora de teatro e cinéfila incorrigível. Aprecio desde Bergman até Spielberg, mas daria meu reino por um café com Woody Allen

Renato: 20 anos de saudade e um legado eternizado

Eterno poeta de alma transparente. Renato Russo era a voz que clamava o que residia em tantas mentes, o grave de seu vocal gritava o que se calava em tantos milhões de corações. O compositor, que recusava o rótulo de porta-voz de sua geração, ironicamente ou não, veio a se tornar o porta-voz de várias gerações.


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Renato Manfredini Júnior, o nosso eterno Renato Russo, nascido no Rio de Janeiro, em 27 de março de 1960, deixou uma cratera na música brasileira e no coração de uma legião de fãs há 20 anos, no dia 11 de outubro de 1996. Uma perda irreparável, uma saudade que permanece constante, seja no interior daqueles que viveram a ascensão da Legião Urbana, seja nos que sequer eram nascidos, mas carregam em si o imenso peso dessa falta, e, quanto a mim, me incluo nesse segundo grupo.

Na época de sua partida, eu ainda era criança o bastante, de modo a sequer compreender o tamanho que seria tal perda para o nosso cenário musical. Mas não demorou muito para que começasse a me acompanhar uma imensa saudade de Renato Russo e de sua Legião. Sentia falta de ver meu pai chegando com os novos discos e de conhecer as inéditas composições, que não mais tocavam nas fitas, não mais chegavam ao som do carro, à saudosa vitrola, ou ao tão moderno aparelho de CD. Alimentava um lamento pelo fato de que jamais teria a oportunidade de ir a um show da Legião Urbana, ao menos não mais com Renato no vocal. Veio, enfim, a consciência de que aquele artista, tão presente em nosso cotidiano, já se constituía somente por meio de seu eterno legado... E tal constatação me doía por dentro. Foi então que comecei a compreender o que seria essa tão clamada "saudade do que não vivi".

É inegável a valiosa contribuição que Renato Russo e sua eterna Legião Urbana forneceram à nossa música, a forma como suas impressionantes e atemporais composições marcaram a cena da música brasileira é única e incomparável. É nada menos do que inviável considerar a história do rock nacional sem destacar a notável presença da Legião Urbana no desenvolver desse cenário. Formada em Brasília, em 1982, por Renato Russo, Dado Villa Lobos, Marcelo Bonfá e Renato Rocha, que assumiu o baixo nos três primeiros discos, a banda produziu um total de oito álbuns com inéditas em estúdio, três coletâneas, e cinco discos ao vivo. Em sua carreira solo, Renato Russo nos presenteou com quatro álbuns. Isso sem mencionar o seu primeiro trabalho musical, em 1980, com a banda Aborto Elétrico, que resultou em um disco gravado ao vivo na Funarte, em Brasília.

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Eterno poeta de alma transparente. Como letrista, Renato Russo impressionava, conquistava e despertava inevitáveis identificações. A genialidade de suas poesias, crônicas e prosas musicalizadas permanece admirável a todos os bons e receptivos ouvidos. Em sua grande maioria, letras sustentadas com metáforas, e tantas outras materializadas em simples e objetiva linguagem, consolidando-se em verdadeiras crônicas cotidianas. Renato insistentemente se negava a explicar a origem de suas composições, evitava tangibilizar as suas inspirações, alegando a possibilidade de deixar aberta aos ouvintes a liberdade de interpretação. E, não há dúvidas, tal liberdade fez com que a diversidade nas impressões de suas mensagens impactasse os mais variados públicos, fidelizando assim uma verdadeira legião de fãs, legião essa que transcendeu o passar do tempo.

Renato Russo abominava o termo "religião urbana", adotado e difundido pelos seus seguidores, que o idolatravam tal qual um deus. Renato era a voz que clamava o que residia em tantas mentes, o grave de seu vocal gritava o que se calava em tantos milhões de corações. O compositor, que se recusava a ser rotulado como o porta-voz de sua geração, ironicamente ou não, veio a se tornar o porta-voz de várias gerações. O clássico "Que País é Este" confirma a atemporalidade de suas canções. Apesar de escrita em 1978, a cada década a afirmação "Ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação" tornava-se ainda mais ecoada, enquanto o questionamento repetido no refrão passou a representar o hino nacional alternativo de todas as gerações seguintes. Do mesmo modo, "Perfeição", que ironiza o caos nacional, com frases como "Vamos comemorar como idiotas, a cada fevereiro e feriado, todos os mortos nas estradas, os mortos por falta de hospitais" permanece ainda tão atual, que poderia perfeitamente ter sido composta ontem, apesar de escrita há impressionantes vinte e três anos.

Na liderança da Legião Urbana, Renato Russo traçou uma rota musical na qual cada álbum confirmava o seu já notável, marcante e incomparável talento. A cada trabalho, uma nova parada obrigatória, que se transformava de acordo com o cenário nacional, bem como acompanhava as experiências pessoais e os sentimentos vividos e compartilhados por cada integrante, sempre sustentando a identidade musical tão defendida pelos garotos de Brasília. O primeiro álbum, intitulado Legião Urbana, trazia um repertório pronto, composições que Renato já havia escrito ao longo da vida, difundindo a tão clássica Será, primeira música do primeiro disco, bem como Geração Coca-Cola e Ainda é Cedo. Na sequência, Dois emergiu com hits como Eduardo e Mônica, Tempos Perdidos e Quase Sem Querer. Mas, foi em Que País é Este que se solidificou o apogeu da Legião Urbana, com uma proposta mais crítica e pesada, o disco alavancou canções como Faroeste Caboclo, Eu Sei, além da música título do álbum e outros clássicos de sucesso.

Os próximos trabalhos musicais inéditos em estúdio se desencadearam em uma sequência de propostas mais introspectivas, marcando o início de uma fase mais lírica, ao mesmo tempo densa, preservando a essência da banda e o protagonismo do rock. Tal fase inicia-se com o quarto álbum, As Quatro Estações, que fez de Legião uma banda "pop", segundo o próprio Renato Russo, devido à rápida e contagiante difusão de Pais e Filhos e de outros nove hits que estouraram na cena musical. Esse transitar teve como sequência o triste retrato de uma época, pós eleição de Collor, materializado nas lentas, convidativas e reflexivas canções do álbum V. Seguido pelo suave e envolvente lamento sobre perdas, despedidas e críticas sociais em O Descobrimento do Brasil, que nos trouxe a tão atemporal Perfeição. Desaguando na carregada amargura e no predominante pessimismo do último álbum lançado com Renato Russo ainda vivo, o sensível A Tempestade. E, por fim, a póstuma e densa riqueza de Uma Outra Estação.

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Em toda sua jornada musical, Renato Russo orgulhava-se ao dizer que desenvolveu um trabalho sustentado em uma proposta na qual acreditava verdadeiramente. O músico, consciente de seu papel como artista, expressava suas convicções com uma inerente genialidade, acompanhada de sua tão poética sensibilidade. Renato cantou e encantou gerações, viveu além de seu tempo e transcendeu a sua época. O compositor declarou, em uma de suas entrevistas, que escrevia suas músicas de modo que daqui a 200 anos ainda fizessem sentido para quem as ouvisse. Pois bem, Renato, ao que tudo indica, sua intenção tem sido bem sucedida.

Nosso eterno poeta foi embora cedo demais, mas sua presença ainda se preserva aqui, enriquecendo nossas vidas, presenteando nossos ouvidos, dia após dia. Ainda recebemos cada poesia ecoada no grave de seu vocal, seja no som do carro, nos CDs, nas rádios, e agora, inclusive, nas plataformas digitais. Sim, Renato Russo, duas décadas após sua partida, permanece indo além, e, assim esperamos, essa jornada se sucederá pelas próximas gerações, que serão igualmente contagiadas por essa paradoxal nostalgia pelo que não se viveu. Mas, por maior que seja a saudade, por mais intensa que seja a falta, por maior que seja esse nosso lamento pela sua ausência, Renato, como artista, materializou sua arte, deixou sua marca, consolidou o seu legado. Um legado que já está eternizado na história, nas memórias e permanece vivo em nosso cotidiano. Isso a morte não leva e a perda jamais subtrai, a marca deixada por tão valioso legado nem o tempo tem a capacidade de apagar. Ainda bem. Ainda bem...

RenatoRusso3.jpg "É tão estranho, os bons morrem jovens... Assim parece ser quando me lembro de você, que acabou indo embora cedo demais..." Renato Manfredini Júnior (1960 - 1996)


Bruna Testi

Mestranda em Filosofia, bacharel em comunicação, pesquisadora de teatro e cinéfila incorrigível. Aprecio desde Bergman até Spielberg, mas daria meu reino por um café com Woody Allen.
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