percepções culturais e quimeras cotidianas

A abstração de um inquietante olhar contextual

Bruna Testi

Sou constituída pelas minhas perspectivas, minha alma é quase visível a olho nu. Sou meu ofício. Publicitária por formação, cinéfila por opção. Aprecio desde Bergman até Spielberg, mas daria meu reino por um café com Woody Allen

O irresistível lirismo de Manhattan

Da delicadeza à sofisticação, da comédia à melancolia, da simplicidade à erudição. Foi na leveza desse transitar que Woody Allen brilhantemente presenteou o cinema e homenageou Nova York, em 1979, com um de seus filmes mais líricos e envolventes: o imponente e irresistível longa Manhattan.


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Em 1979, Woody Allen ofertou uma das suas mais ricas contribuições à indústria cinematográfica, com seu imponente longa Manhattan. Sofisticação, cultura, beleza, diálogos ricos, timming impecável e seu necessário humor ácido compõem a obra que Allen desenvolveu em sua melhor forma, como fora ovacionado por grande parte dos críticos.

Manhattan ousa em sua proposta inicial, por nos trazer não somente os personagens vivos, interpretados em brilhantes atuações, mas Allen apresenta Nova York como uma estrela à parte, uma das grandes protagonistas de sua obra. O longa materializa-se em uma declarada carta de amor à cidade. A fotografia toda em preto em branco, rica em contrastes, juntamente com a exploração de tomadas que exaltam a metrópole, explicitam a intenção de imortalizá-la, ressaltando seu inerente glamour, tornando-a eternamente clássica.

Logo na primeira cena, Nova York é explorada e apresentada em suas diversas tomadas, em suas mais variáveis nuances. Ao som da 40ª Sinfonia de Mozart, enquanto a voz do personagem de Woody Allen tenta descrever sua adoração pela cidade, resume uma das mais grandiosas homenagens à Nova York já feitas pelo diretor. As tentativas de descrição transitam entre os aspectos filosóficos, políticos, religiosos, sexuais e cômicos. Mas "Ele adorava Nova York", a mensagem era clara.

O longa, porém, vai além dessa imponente homenagem à Nova York. Uma das obras mais líricas de Woody Allen, Manhattan nos presenteia com um enredo leve, delicado, simultaneamente rico e sofisticado, personagens bem estruturados e tramas amplamente desenvolvidas, um filme de inevitável identificação. O desenvolver da obra cerca-se de Isaac, interpretado por Woody Allen, um roteirista na casa dos quarenta anos, que se envolve em um intrigante triângulo amoroso, dividido entre a jovialidade e inocência de Tracy (Mariel Hemingway) e a intelectualidade e forte personalidade de Mary (Diane Keaton). A película também nos traz Meryl Streep, no papel da ex-esposa de Isaac, uma escritora que está lançando um livro, no qual revela constrangedoras intimidades sobre o ex-marido.

A elaboração das múltiplas narrativas foi executada com maestria em Manhattan. Sustentando a maior trama paralela, Yale, interpretado por Michael Murphy, contracena outra vértice de um imbróglio triângulo, juntamente com Woody Allen e Diane Keaton. Yale é o melhor amigo de Isaac que, na morosidade de seu casamento, relaciona-se extraconjugalmente com Mary, personagem de Keaton. O personagem de Murphy representa a ponte que liga Isaac a Mary, constituindo elemento essencial no desenrolar dessa conflitante relação.

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Diane Keaton, a grande musa do diretor nos anos 70, mais uma vez, ofertou ao público uma deslumbrante atuação ao lado de Woody Allen. A sintonia dos personagens é transcendente, representando o já típico e conturbado envolvimento entre duas mentes altamente intelectuais, neuróticas e cultas, relacionamento bastante exaltado ao longo da filmografia do diretor. Os diálogos entre Isaac e Mary são dotados de erudição e riqueza cultural, ao passo que ambos compartilham de dramas pessoais, inseguranças e inerentes neuroses, muitas vezes contrastantes, o que torna o casal interessante, ao mesmo tempo intrigante.

Mary surge inicialmente como uma presença que Isaac abomina. A personagem de Keaton emerge exaltando a sua intelectualidade, e rotulando os mais admiráveis ídolos de Isaac (entre eles, uma das maiores inspirações de Allen, Ingmar Bergman). O repúdio inicial, porém, gradativamente evolui para a curiosidade, alcançando o mútuo interesse, até a concretização de uma exacerbada paixão. O transitar entre os sentimentos é guiado com maestria pela enredo da obra, juntamente com as brilhantes atuações. Não foi à toa que Allen guardou as cenas mais grandiosas da película para serem protagonizadas pelo casal, como as incríveis tomadas no Planetário. Cena essa que fora dirigida com tamanha poesia, que é quase irresistível o ímpeto de retornar para seu início e contemplá-la, mais de uma vez.

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Porém, o que faz de Manhattan uma das obras mais sensíveis e delicadas de Woody Allen é a leveza com que fora desenvolvida a relação entre Isaac e Tracy, personagem da ainda tão jovem Mariel Hemingway. Tracy é uma garota de 17 anos, enquanto Isaac um quarentão neurótico. Uma relação comumente inapropriada pela notável diferença de idade, mas desenvolvida com tamanha sensibilidade e leveza na mão do diretor, que tal discrepância não chega sequer a incomodar o espectador. A beleza, a energia e a juventude de Tracy, ao mesmo tempo que seduzem, levam Isaac a ofertar um olhar mais adocicado perante a vida, deixando, por vezes, esvair seu lado demasiado crítico.

Os momentos vivenciados pelo casal são contrastantes, se comparados à grandiosidade e erudição da companhia Mary. Ao lado de Tracy, os diálogos são leves, os momentos são simples e cotidianos. Como, por exemplo, um programa de TV a dois e uma comida chinesa para acompanhar, entre trocas de comentários irônicos e inevitáveis risadas compartilhadas. Até mesmo um passeio noturno de carruagem por Nova York, antes brega, agora torna-se convidativo e irresistível aos olhos do público. Allen e Hemingway protagonizam talvez a relação mais suave e delicada já elaborada pelo roteirista, fazendo de Manhattan um trabalho mais inocente do que o usual, o que leva o espectador a uma doce e inevitável entrega.

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Manhattan é uma autêntica obra prima cinematográfica, de se deliciar com os olhos e também com os ouvidos. O rico jazz da trilha sonora de George Gershwin embala a película em um ritmo mais suave, consolidando uma harmonia invejável com a romântica proposta de Manhattan. Enquanto a fotografia de Gordon Wills, "o mestre da escuridão", mais uma vez enriquece uma obra de Woody Allen, transformando cada tomada em pintura.

Aos apreciadores de cinema, Manhattan não é nada menos do que imperdível. O longa transita da sofisticação à delicadeza, da erudição à simplicidade, da comédia à melancolia, sem impactar no público nenhum tipo de estranhamento, o que confirma a genialidade de Woody Allen ao definir o tom exato para sua obra. Manhattan é desses filmes para se envolver, se apaixonar, se reapaixonar, incontáveis vezes. Uma carta aberta de amor eterno a uma cidade, a uma pessoa, a uma convicção, a uma ideia, ainda que essa eternidade se encaixe no mais perfeito enquadramento dos meses, das semanas ou até mesmo no efêmero transcorrer dos dias.


Bruna Testi

Sou constituída pelas minhas perspectivas, minha alma é quase visível a olho nu. Sou meu ofício. Publicitária por formação, cinéfila por opção. Aprecio desde Bergman até Spielberg, mas daria meu reino por um café com Woody Allen.
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