percepções culturais e quimeras cotidianas

A abstração de um inquietante olhar contextual

Bruna Testi

Mestranda em Filosofia, bacharel em comunicação, pesquisadora de teatro e cinéfila incorrigível. Aprecio desde Bergman até Spielberg, mas daria meu reino por um café com Woody Allen

BEATRIZ

Aquela seria mais uma noite qualquer, se sua voz não tivesse ecoado naquele bar: "Baba O'Riley!".


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Instantaneamente olhei em volta. E lá estava você, lançando uma pedida clássica do The Who à banda que ali tocava um repertório eclético, mas seu pedido soou diferenciado. De cara, constatei: essa mulher é rara. Sozinha, você se entregava à noite, com uma long neck na mão e um sorriso estampado no rosto, blusa preta, calça jeans e all star. Básica, mas exuberante aos meus olhos.

Já eu, um cara de 20 anos, trajando roupa social e com um notório cansaço de quarenta. Happy Hour com os colegas após o estágio. "Só toca musicão no Jhonny's Pub", eles disseram, "bora lá tomar umas". Ok, bora. E cá estou. Até o presente momento não compreendia o que diabos eu estava fazendo em uma noite de terça-feira, com um frio do cão lá fora, no meio de uma galera meio desconhecida, com a qual eu passo seis horas do dia e troco a mesma meia dúzia de palavras. Me pergunto "Por que não um Netflix? Esse tal 'protocolo social' é chato demais!"

Mas todos os meus questionamentos e críticas sobre aquela noite despencaram por terra abaixo quando sua voz soou novamente, interrompendo o hiato entre uma música e outra: "Baba O'Riley!", você insistiu, e decidi endossar o seu tão clamado pedido: "Manda um Baba O'Riley aê!". Repentinamente seu olhar me buscou, pela primeira vez. De longe, você me sorriu e ergueu sua long neck e eu retribui, erguendo minha caipirinha (precisava de algo forte para aquela noite), brindamos à distância, e meu coração parecia querer saltar pela boca. Ah, Platão... Meus pensamentos foram subitamente interrompidos por uma introdução em fá maior na guitarra, seguida da voz que cantava "Out here in the fields..." Pedido finalmente atendido. Olho em volta procurando por você, e sou surpreendido com uma voz ao meu lado direito: "Pete mandou bem demais nessa música, cara!". E aqui está você. Te olhei paralisado, as palavras sumiram, e apenas soltei um tímido "Uma das melhores...". Você trocou a long neck de mão e me estendeu a mão direita: "Ah, prazer, Beatriz!", "Prazer, Thiago!", "Pensei em pedir alguma do 'Tommy', mas seria clichê demais, não acha?". Entre risos e conversas, a noite fluiu.

Beatriz tem 27, formou-se em jornalismo, mas sonha estudar artes. "Um dia, quem sabe.", ela diz. Beatriz odeia clichês e tem dois gatos. Ah, Beatriz ama rock clássico, mas me apresentou duas ou três bandas nacionais independentes quando me convidou para conhecer seu apartamento. "The exodus is here", ela disse cantando quando passamos pela porta. Beatriz foi paixão quente em uma noite fria.

Hoje é quarta-feira e amanheci ao lado de Beatriz, que já está na cozinha passando o café e me gritando: "Vamos, rapaz, levante! Ou você vai perder a chamada na faculdade, baby! (risos)" Levantei e preparei nossos mistos quentes. Brindamos com um café forte, enquanto eu desejava somente estar ali na manhã seguinte. "Me leva para sempre, Beatriz!", disse cantando ao me despedir pela primeira vez. Peguei um número de telefone, roubei um beijo, ganhei outros vários.

Perdi a primeira aula da faculdade.


Bruna Testi

Mestranda em Filosofia, bacharel em comunicação, pesquisadora de teatro e cinéfila incorrigível. Aprecio desde Bergman até Spielberg, mas daria meu reino por um café com Woody Allen.
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