Amanda Moura de Carvalho

Estudante e amante da Filosofia, vivo numa utopia interna e tento esclarecer determinadas verdades todos os dias da minha vida.

REFLEXÕES BUBERIANAS ACERCA DAS RELAÇÕES HUMANAS NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

O presente texto propõe uma reflexão sobre o comportamento do homem nas relações humanas na sociedade contemporânea, tomando como base as definições da obra Eu e Tu, do filósofo Martin Buber, na qual o autor fala sobre como as relações humanas se fragmentaram e que o homem se afastou de uma relação autêntica, convidando-o para uma existência fundada no diálogo.


Professor_Martin_Buber_arriveerde_op_Schiphol_voor_in_ontvangstnemen_Erasmus-prijs._Professor_Martin_Buber.jpg Filósofo Martin Buber. Imagem:commons.wikimedia.org

Com o surgimento das tecnologias criadas pelo homem com o intuito de revolucionar o mundo com suas ideias, surgiram também consequências, pois, apesar de tanto avanço, as relações humanas se fragmentaram e os vínculos foram se afrouxando cada vez mais. O homem se encarcerou, transformando-se em um ser incapaz de ouvir o outro, de falar com o outro, enxergando apenas a si mesmo, tendo um olhar egoico (o homem relaciona-se com “si-mesmo”), reduzindo o outro a um mero objeto de sua experiência, controlando-o e limitando-o com as suas deduções.

O homem criou uma máscara para transparecer aos outros uma imagem “perfeita” de si mesmo. Mas, para quê mentir no ser? Para ganhar aplausos? Há modelos e padrões impostos pela sociedade que impedem que o homem seja quem ele quer ser? Se o homem é um ser de relação, porque vive como se o mundo girasse em torno de sua própria órbita ou às vezes exclui/usa o outro como um objeto?

O filósofo Martin Buber, que sempre teve um grande compromisso com a vida e suas obras desenvolvidas a partir de sua existência, acreditava no humano, sempre buscando uma solução para o problema do homem moderno que vive a partir de uma visão egoica no mundo, que vive mais no parecer do que a partir do ser, que não aceita o outro como ele é, convidando o homem para uma existência fundada no diálogo.

Com a expansão da tecnologia foram construídos meios de comunicações, uma delas é a internet, porém ao mesmo tempo em que beneficiou no tocante a rapidez, reduziu as “relações humanas” a “relações de consumo”, afastando cada vez mais um do outro. O homem está em uma era em que o tempo não pode ser perdido, optando se comunicar cada vez mais através de redes sociais, em vez de pessoalmente, vestindo máscaras e constituindo um “Eu perfeito” para agradar diante de tantas exigências e padrões da sociedade a fim de ser aceito.

Imagem 9.jpg Imagem: vallartaopina.net

Reforça o filósofo Zygmunt Bauman: “Diferentemente dos ‘relacionamentos reais’, é fácil entrar e sair dos ‘relacionamentos virtuais’. Em comparação com a ‘coisa autêntica’, pesada, lenta e confusa, eles parecem inteligentes e limpos, fáceis de usar, compreender e manusear. ‘Sempre se pode apertar a tecla de deletar’.”

Esse modo de viver fragmenta a essência do ser humano, de ser de relação, mostrando um comportamento superficial e egotista, em que ao mesmo tempo suas relações se tornam desvinculadas, surgindo uma relação de manipulação na qual o outro é coisificado, fazendo dele um mero objeto de sua experiência e utilização.

Dessa forma, Buber profere: “... a humanidade reduzida a um Isso, tal como se pode imaginar, postular ou proclamar, nada tem em comum com uma humanidade verdadeiramente encarnada à qual um homem se diz verdadeiramente Tu” .

A humanidade produzida pelas instituições (família, igreja, escola, etc.) está sempre à procura de pessoas perfeitas como se fosse possível aglomerar as pessoas em estereótipos, coisificando a humanidade. Porém, os indivíduos que compõe a sociedade só precisam ser aceitos e aceitarem o outro como ele realmente é, ou seja, em sua autenticidade, pois cada indivíduo é único e singular e não marionete para ser controlado.

Imagem 11.jpg Imagem: virtualmarketingpro.com

Dessa forma, por que não aceitar o outro em sua alteridade, sem interesses e manipulações, deixando surgir à relação Eu-Tu? O homem é um ser de relação e se efetiva devido a ambas as palavras-princípio Eu-tu e Eu-isso. A palavra princípio fundamenta a existência humana, pois quando o homem escolhe uma das palavras, ele irá proferi-la em sua vida. Nas palavras de Buber, “é através dela que o homem se introduz na existência. Não é o homem que conduz a palavra, mas é ela que o mantém no ser”.

A atitude do homem se traduz e é atualizada pelas palavras-princípio: Eu-Tu e Eu-Isso. A primeira é dialógica, o Eu não existe sem o Tu e a segunda é monológica, egocêntrica. O homem não conduz a palavra, mas a palavra que o conduz e afirma sua existência. Ser Eu é proferir uma das duas palavras-princípio. Ressaval Buber, “homem algum é puramente pessoa, e nenhum é puramente egótico; nenhum é inteiramente atual e nenhum totalmente carente de atualidade. Cada um vive no seio de um duplo Eu. Há homens, entretanto, cuja dimensão de pessoa é tão determinante que se podem chamar de pessoas, e outros cuja dimensão de egotismo é tão preponderante que se pode atribuir-lhes o nome de egótico”.

Ao proferir a palavra-princípio Eu-Isso o homem se impõe ao mundo, esse mundo é tratado como objeto de seu uso e experiência. Ele transforma-se em um Eu egoico, que só pensa em si próprio e se relaciona com interesses e ambições, reduzindo o outro ao seu controle, visando à relação como uma forma de manipulação, negando-se a conhecer o Tu que está diante dos seus olhos, na sua frente.

Um exemplo claro da relação Eu - Isso é quando o outro é usado como objeto de experiência, que serve para informar, servir, como se o outro vivesse em prol do Eu, ou, quando se aproxima do outro com interesses fazendo amizades, mas apenas porque este irá beneficiar ao Eu, como se outro não tivesse nenhum valor além dos benefícios que traz consigo, submetendo-o a um mero objeto sob seu controle que pode ser manipulado.

Para tanto, o mundo do Eu-Isso não é totalmente um mal, ele se torna um mal à medida que o Eu começa a controlar; centrado apenas em sua existência e deixando de se encontrar com o outro e com o mundo. O mundo do Isso é essencial na vida do ser humano, pois é da natureza humana querer conhecer e explorar com vistas ao conhecimento científico, para que esteja em seu controle, mas não deve ser predominante.

Afirma o filósofo Buber: “a palavra princípio Eu-Isso não tem nada mal em si porque a matéria não tem nada de mal em si mesma. O que existe de mal é o fato de a matéria pretender ser aquilo que existe. Se o homem permitir, o mundo do Isso, no seu contínuo crescimento, o invade e seu próprio Eu perde a sua atualidade, até que o pesadelo sobre ele e o fantasma no seu interior sussurram um ao outro confessando sua perdição”.

É natural que o homem tenha uma relação Eu-Isso, pois para ele é muito mais fácil controlar, impor, experenciar o outro, e muitas vezes o homem utiliza esses métodos como mecanismo de defesa, talvez por medo de ser rejeitado pelo outro, não mostrando seu verdadeiro Eu. No entanto, Buber afirma que: “Se o homem não pode viver sem o Isso, não se pode esquecer que aquele que vive só com o Isso não é homem”. O homem moderno tem se comportado como se não fosse mais capaz de se relacionar com autenticidade, manipulando a relação, experenciando o outro. Ele precisa de uma relação autêntica, de viver a presença do encontro, pois está lhe faltando à doação e libertação para o encontro com o Tu.

“Sem dúvida, alguém que se contenta, no mundo das coisas, em experenciá-las e utilizá-las erigiu um anexo e uma superestrutura de ideias, nos quais encontra um refúgio e uma tranquilidade diante da tentação do nada. Deposita na soleira a vestimenta da cotidianeidade medíocre, envolve-se em linho puro e reconforta-se na contemplação do ente originário ou do dever-se, no qual sua vida não terá parte alguma".

Por isso que o homem não pode viver apenas no mundo do Eu-Isso, pois perde sua essência, seu “Eu”, sua identidade, sua verdadeira essência de um ser de relação. Quando ele tem uma relação Eu-Tu, ele entrega-se ao evento face a face, revelando-se verdadeiramente ao outro, sem restrições, porque ele está pronto e aberto para uma relação autêntica. Pois, no encontro haverá a doação, e a aceitação de ambos sendo uma relação mútua. Mas essa relação não acontece só com o homem, mas também com Deus, os animais, as plantas, uma obra da arte. O Tu está em qualquer lugar.

Imagem 10.jpg Imagem: genialmentelouco.com.br

“Não é somente um outro homem que se torna um Tu para mim – pode ser um animal, uma árvore, até uma pedra e, através de todos esses, Deus, o Tu Eterno... E eu devo estar presente aí, atento, abrindo o meu ser em toda sua totalidade para perceber a palavra que me é dirigida pelos acontecimentos do mundo e recebê-la como minha palavra – recebê-la e responder a ela e por ela”.

O homem só pode entrar em uma relação autêntica quando estiver pronto para mostrar-se no ser, com reciprocidade, autenticidade, aceitando o outro em sua alteridade, pois aí sim se revela o que se quer conhecer, porém enquanto o homem estiver comparando o outro, deduzindo, limitando e procurando respostas, nunca se conhecerá o outro verdadeiramente e o Tu se tornará Isso.

“Para realizar plenamente o seu Eu, o homem precisa entrar em relação dialógica com o mundo - ele precisa dizer Tu ao outro, e este dizer – Tu só se faz com a totalidade do ser. É preciso perceber e aceitar o outro “na sua totalidade, na sua unidade e sua unicidade”.

A relação Eu-Tu acontece de forma fugaz, a partir do momento em que o outro não é enxergado como um objeto de experiência e controle, que pode ser caracterizado. Mas na relação em que o outro é reconhecido em sua essência e sem limitações e pressupostos, pois o outro é muito mais do que o homem pode caracterizar, ele é singular.

Cabe ao Eu reconhecer o Tu, pois o Tu não deve ser procurado, visto que se oferece gratuitamente, se encontra diante do Eu esperando que este esteja pronto para uma relação Eu-Tu. No entanto, com esse hábito de vida doentio, em que o mundo do consumismo, do capital e do crescimento desenfreado tem mais importância do que o outro, ou seja, o outro perdeu sua importância para coisas supérfluas, o homem esqueceu-se de contemplar a natureza e a paz que esta o transmite de estar aberto para uma relação verdadeira e recíproca, passa por pessoas em condições precárias nas ruas e, em vez de ajudar, as ignora.

A sociedade moderna tornou-se superficial e as relações que se adaptaram ao capitalismo fragmentaram-se perdendo o seu valor, a sua essência; a relação autêntica foi suprimida pelas relações de consumo, ou seja, relações de negócios, de manipulação e controle. Como Buber reforça: “O homem que se conformou com o mundo do Isso, como algo a ser experimentado e a ser utilizado, faz malograr a realização deste destino: em lugar de libertar o que está ligado a este mundo ele o reprime em lugar de contemplá-lo ele o observa, em lugar de acolhê-lo serve-se dele”.

Esse comportamento diante dos acontecimentos que se passam por seus próprios olhos está se tornando quase uma alienação, pois o homem simplesmente ignora todos esses fatos como se não enxergasse ou não tivesse consciência, seguindo adiante, continuando o curso de sua vida normalmente.

“A vida do homem não pode, como ele mesmo, prescindir do mundo do Isso, sobre o qual paira a presença do Tu, como o espírito pairava sobre as águas. A vontade de utilização e a vontade de dominação do homem agem natural e legitimamente enquanto permanecem ligadas à vontade humana de relação e sustentadas por ela”.

Apesar desse comportamento do homem moderno, com o outro e com o mundo, ele pode seguir outro caminho e isso foi o que permitiu o otimismo de Buber, e que a obra Eu e Tu sobrevivesse a críticas, ideologias, movimentos e doutrinas; por tantos anos. A obra Eu e Tu permanece atual e atuante, pois tem uma presença muito forte no modo de convivência do homem moderno com o outro e com o mundo. Portanto, impacta na forma de viver do homem, fazendo com que este reflita sobre sua existência, pois diante de uma sociedade frenética e doentia pelo consumo, em que as relações humanas se adaptaram ao capitalismo, as relações autênticas entre as pessoas foram extintas e a solução para esse problema é que o homem descubra o caminho para sua existência e a viva, aceitando o convite para uma existência fundada no diálogo.

Referências

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004. BUBER, Martin. Do Diálogo e do Dialógico. Editora Perspectiva, São Paulo, 1982. BUBER, Martin. Eu e Tu. Tradução do alemão e notas por Newton Aquiles Von Zuben. 10. ed. São Paulo: Centauro, 2001.


Amanda Moura de Carvalho

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