perséfone e seus devaneios

o inconsciente a céu aberto

Priscilla Medeiros

Mulher, feminista, psicóloga, psicanalista em formação.

Das tempestades que nos perpassam...é preciso balançar para manter o equilíbrio!

Ceticismo x superstição: qual dos dois prevalece no amor?

"Mágoas, decepções, relacionamentos substitutivos, estamos todos com excesso de bagagem de sentimentos negativos. Mas mesmo assim, admitindo ou não, ainda depositamos muita fé nos rituais românticos."


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Quando se fala em amor, surge logo a ideia de casais melosos apaixonados, cinema com pipoca e casalzinho, passeio com sorvete e casalzinho, tem até mesmo os adoráveis casais siameses, e esses realmente são insuportáveis. Minha ferramenta de comunicação, nossa foto juntos... Meu whats app, nossa foto juntos. Nesses casos, pode-se até parar para pensar como é estranho ver um sujeito único querendo a todo custo se fundir a outro.

Enfim, não falo dos obsessivos casais dependentes do ar “puro” um do outro, pois pra eles é aceito a ordem do desejo do outro. Falo do amor que caminha a passos largos, não o amor de status, que esbanja por aí que “tem” alguém, mas o amor de cuidado, de compreensão, de respeito, de lealdade. Quase como um amor platônico de tão perfeito. Quisera que todos os amores fossem platônicos, na medida em que os pares se percebessem como par ideal. Os “amores líquidos” de Bauman é o melhor exemplo de que em algum ponto ficamos descrentes do amor. Mágoas, decepções, relacionamentos substitutivos, estamos todos com excesso de bagagem de sentimentos negativos. Mas mesmo assim, admitindo ou não, ainda depositamos muita fé nos rituais românticos. O clichê só é clichê porque funciona, e não há nada mais clichê do que juras de amor eterno! A Pont des Arts, em Paris, sabe bem disso. Os cadeados, retirados da ponte, sabiam bem disso.

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É claro que, mais cedo ou mais tarde, a lenda urbana dos cadeados do amor iria se espalhar, mas, quem adivinharia que a crença dos casais de todo o lugar do mundo iria crescer tanto a ponto de os inofensivos cadeados trazerem problemas? Então...Ponto pra superstição.

Os céticos enxergam pela ótica da função do cadeado prender, aprisionar, trancar aquele amor pra sempre, e ainda há o questionamento: “que tipo de amor é esse que precisa ser preso?”. Quem vê apenas com os olhos voltados para o estigma dos cadeados, não enxerga a metáfora do amor que ali está incluída. Os supersticiosos viram nos cadeados uma forma de ainda acreditar no amor. Ora, ver um casal investir tempo e dinheiro para ir fazer juras de amor representado em um cadeado é loucura? Sim, é a loucura inabalável do amor! Essa da qual precisamos voltar a acreditar. Não como uma prova de amor, pois quando o amor é posto a prova, já não é mais amor. Mas como um segredo, como um voto de confiança, como uma oração muito forte de que dessa vez vai dar certo e que desse amor não passa, pois já estamos muito cansados para tentar de novo.

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Que me perdoe o Morais mas: “que seja eterno enquanto dure” chega a doer nos ouvidos de tão falso que soa. Os românticos enamorados que fazem suas juras, não pensam no tempo que leva até o amor terminar, não querem medir o amor em tempo cronológico, querem a eternidade para amar. Não se põe em questão um fim (a não ser que seja para morrer ao lado do amado, vide aquele romance Shakespeariano).

Façamos então como na Bahia. Troquem os cadeados pelas fitinhas, aquelas tão queridas lá da igreja do Bonfim. As fitinhas são amarradas no portão da igreja, e embora elas não sejam igualmente destinadas apenas as demandas de amor, como os cadeados, são também amarradas com o desejo de que se realizem pedidos. E toda superstição não tem sua dose de crença? Entrar com pé direito, usar roupa branca no ano novo, desvirar a sandália para a mãe não morrer, não quebrar espelho, pegar o buquê da noiva para ser a próxima a casar, dentre tantos outros exemplos, mostra que ainda somos sim sujeitos bastante supersticiosos. Então, por que também não acreditamos nisso quando se trata do amor?

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Priscilla Medeiros

Mulher, feminista, psicóloga, psicanalista em formação. Das tempestades que nos perpassam...é preciso balançar para manter o equilíbrio!.
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