perspectivas e contemplações

literatura, teologia, filosofia e outras inquietações

Rafael Marques

Frases, parágrafos, versos e estrofes que te ofereço para que "Possas Respirar"... É o meu modo de cantar a vida e as relações humanas... Reparto contigo minhas Inquietações!

Flores de Ipê

A obstinação na labuta por um sonho ou projeto, nos faz calejar, em muitos casos, não apenas as mãos, mas também a alma. Perdemos a sensibilidade para uma carícia, não nos permitimos tempo para reclinar-se em uma poltrona de vime com almofadas macias e desfrutar de um jardim que nossas próprias mãos plantaram. Desejamos que o tempo se abrevie e que logo chegue o tão esperado momento de fartar-se na realização daquilo que aguardamos com ansiedade.


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Trindade, 03 de julho de 2016.

“A esperança que se adia faz adoecer o coração...” Provérbios 13: 12

Em um de seus poemas Roberto Pompeu de Toledo fala “Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão”. Sábio Roberto, de fato doze meses são o suficiente para fazer com que a esperança mingue e o desânimo se expanda. Neste instante nossa marcha já atravessa o meio do ano, e dos muitos planos que fizemos, sonhos que alimentamos, esperança na qual cremos, já se encontram atrasados e o mirar do horizonte não revela o menor indicio de que a providência esperada se aproxima. E o caminhar acelerado na labuta por conquistas, entorpece nossos sentidos e nos dessensibiliza para o que está ao nosso redor.

Semelhante ao sujeito que está dominado por um vírus mortal, aquele que já se encontra incapaz de reconhecer seus amigos mais próximos, nos tornamos frios e nossas relações interpessoais convertem-se em formalismos sociais superficiais. Mesmo o beijo matinal na esposa que vagarosamente desperta, o aroma do primeiro café do dia, o sol que rapidamente vai dominando o breu e se eleva para assentar-se sobre o céu azul, límpido, não são suficientemente atraentes a nossa percepção. O entorno torna-se incapaz de raptar um minuto sequer da nossa atenção.

A obstinação na labuta por um sonho ou projeto, nos faz calejar, em muitos casos, não apenas as mãos, mas também a alma. Perdemos a sensibilidade para uma carícia, não nos permitimos tempo para reclinar-se em uma poltrona de vime com almofadas macias e desfrutar de um jardim que nossas próprias mãos plantaram. Desejamos que o tempo se abrevie e que logo chegue o tão esperado momento de fartar-se na realização daquilo que aguardamos com ansiedade.

Por vezes nos surpreendemos no futuro, devaneios oriundos da febre que pouco a pouco nos vence, e ensaiamos discursos, largos sorrisos adiados por muito tempo, abraços fraternos, noites de amor e plenitude. Em meio à jornada, boas notícias nos dão fortes indícios que tudo está prestes a acontecer, de que poderá ser amanhã, talvez ainda hoje, um pouco mais tarde. Prenúncios da viva esperança, expectativa utópica, que não se converte em realidade, que o mínimo detalhe – considerado, mas desprezado por sua insignificância – tornar-se, repentinamente, o grande hiato entre o sonho e a realidade. E o que era certeza, passa a ser frustração.

Frustração pelos dias abreviados, noites mal dormidas, e pela magoa da distância daqueles a quem ferimos com nossa distração, pelas manhãs nas quais não nos permitimos sentar a mesa para desfrutar do café da manhã, pelas noites que não nos acercamos de amigos, que não beijamos apaixonados a mulher que amamos. Acordamos depois de longos dias sob o efeito da morfina e nos damos conta que o nosso corpo está pesado, as ideias estão confusas e todos ao redor sofrem com a nossa agonizante e lenta morte.

Desejamos, então, com todas as forças recuperar o irrecuperável, beijar nossos filhos, sentar para ouvir os conselhos de nossa mãe e as infindáveis histórias do nosso pai. Queremos rever nossos irmãos, novamente ser um menino que carrega no terreiro arenoso sua irmãzinha na velha bicicleta branca desviando-se das galinhas, dos limoeiros e laranjeiras. Acordamos e percebemos que alguns dos nossos queridos já nem existem mais, que não nos permitimos ao menos o luto.

Logo, percebo que o bom da vida não é realizar os sonhos, mas sim o caminho que se percorre na direção do alvo. As belas estradas, aquelas cujas paisagens de tão verdes e frescas nos distraem – como se fossem telas de um hábil pintor -, são aquelas cheias de pedregulhos e desníveis que maltratam os pés daqueles que por ela caminham. E por essa estrada fazemos amizades, criamos raízes na alma de outrem, no simples silêncio de outros viajantes que se fazem próximo encontramos o afeto de que necessitamos – é como pão fresco num dia de fome -, o calor de outro corpo pode ser imprescindível para a sobrevivência em uma noite fria.

Como disse certa professora numa manhã, quase primavera, “de repente os Ipês já estão floridos e você apenas percebe pelas flores que despencaram ao chão, já faz tempo que não nos permitimos tempo para simplesmente olhar para o céu”. Sim, é verdade já faz algum tempo, que não me permito à ociosidade, mirar o céu.

Curiosamente, há dois dias saí da sala de redação e o pátio estava coberto por flores, lindas flores. No estacionamento vários carros cobertos pelas mesmas flores, cheguei a considerar que se tratava de surpresa romântica para alguém. Foi então que uma brisa refrescante – do tipo que só o Cerrado Goiano possui – me proporcionou uma chuva de flores de Ipê, então olhei para o céu e despertei depois de meses de uma forte febre viral, chamada por alguns de ansiedade, stress... sei lá.


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