perspectivas e contemplações

literatura, teologia, filosofia e outras inquietações

Rafael Marques

Frases, parágrafos, versos e estrofes que te ofereço para que "Possas Respirar"... É o meu modo de cantar a vida e as relações humanas... Reparto contigo minhas Inquietações!

QUERO QUE RESPIRES FUNDO

Escrever é a pura manifestação da liberdade, mas o saber escrever não nos torna alforriados, antes de tudo, mesmo antes de conhecer as letras é necessário que sejamos livres na alma. Apenas uma alma livre pode ser capaz da alquimia de converter dores, solidão, desencontros, medos, paixões, amores e alegrias em versos que inspirem, que façam respirar.


respirar.jpg Trindade, 05 de junho de 2016.

Luís da Gama foi um poeta brasileiro do século XIX, filho de mãe negra livre e de pai branco aristocrata. O poeta sobre sua mãe disse: "Sou filho natural de uma negra, africana livre, da Costa Mina (Nagô de Nação) de nome Luísa Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã”. Sobre seu pai: “Ele foi rico; e nesse tempo, muito extremoso para mim: criou-me em seus braços. Era apaixonado pela diversão da pesca e da caça; muito apreciador de bons cavalos; jogava bem as armas, e muito melhor de baralho, amava as súcias e os divertimentos: esbanjou uma boa herança, obtida de uma tia em 1836; e reduzido a uma pobreza extrema, a 10 de novembro de 1840, em companhia de Luís Cândido Quintela, seu amigo inseparável e hospedeiro, vendeu-me, como seu escravo, a bordo do patacho ‘Saraiva’”.

Sim, seu pai o vendeu como escravo, Luís era apenas um menino de 10 anos de idade. Permaneceu analfabeto até seus 17 anos. Quando finalmente conheceu as letras, também reavio sua liberdade. Foi soldado, ordenança, copista, secretário, tipógrafo, jornalista, advogado, autoridade da maçonaria e principalmente poeta. Conheci sua poesia, ainda menino, o poema “Coleirinho” me causou tamanha emoção que simplesmente passei a considera-lo um dos “grandes”, sem ao menos conhecê-lo. Naquele tempo conhecia literatura como um meio, talvez, um portal de passagem a outros mundos, outras vidas, amores e desamores. Não sabia nada sobre rimas, métrica e análises enfadonhas que nos privam do mais doce e fresco sabor que a poesia produz.

Escrever é a pura manifestação da liberdade, mas o saber escrever não nos torna alforriados, antes de tudo, mesmo antes de conhecer as letras é necessário que sejamos livres na alma. Apenas uma alma livre pode ser capaz da alquimia de converter dores, solidão, desencontros, medos, paixões, amores e alegrias em versos que inspirem, que façam respirar. Certa vez Mário Quintana, outro dos grandes poetas segundo meu cânone infante, disse: “Quem faz um poema abre uma janela / Respira, tu que estás numa cela abafada, / esse ar que entra por ela. / Por isso é que os poemas têm ritmo / - para que possas profundamente respirar. / Quem faz um poema salva um afogado”.

Mesmo que um menino de 10 anos seja vendido como escravo, mesmo que alguém desacreditado seja por vezes menosprezado, mesmo que todas as vozes da sociedade gritem em volume superior ao seu, ainda que tudo convirja para seu azar, ainda assim há dentro de si uma estranha, conhecida, voz lhe insiste: podes ser livre. Livre para cantar versos, para lutar com a pena, para debater e estender a mão àqueles que se afogam, que seguem mudos, acorrentados pelo consumismo, entorpecidos por falsos sonhos – aqueles que nos confundem fazendo com que coisas valiam mais que as pessoas.

A escrita deve ser libertadora, mas apenas poderá ser libertadora, se aquele que lê se permitir libertar. Libertar-se do excesso de trabalho, da presa que nos faz perder o tempo que é precioso, da falta de afeto, da distância dos amigos, da falta de paixão, da ausência dos que amamos, do luto dos que já partiram, das magoas e cicatrizes. Outro dia numa livraria me deparei com o novo volume de Ferreira Gullar, outro dos grandes da minha infância, e sua introdução dizia apenas: “Por favor, leia devagar”.

Estes são dias de muita presa, as pessoas passam pelas ruas, mas as ruas não passam pelas pessoas. Preferimos a fria lembrança de uma imagem ou o compartilhar com os estranhos momentos íntimos que não nos permitimos dividir com aqueles que se assentam ao redor da mesa conosco. Os velhos bilhetes de amor, aqueles que escondíamos no fundo das gavetas ou caixinhas de relicários, agora são públicos.

Sinto falta dos segredos, dos amores proibidos, das paixões em que sofremos solitários pelo amor não concretizado. Da furtiva troca de olhares, do flerte, do beijo roubado e, em seguida, reavido. Das longas conversas, debates sem fim com bons amigos, alguns dos quais discordamos em quase tudo, mas mesmo sendo grande a discordância não é o suficiente para impedir ou diminuir o amor fraternal que sentimos e a cada reencontro novamente celebrar em gratidão a existência do outro.

Luís foi um menino livre, mesmo quando escravo – solitário e triste – era livre, mais tarde seus versos, artigos e o trabalho como advogado foram instrumentos de assistência a outros escravos, alguns presos a correntes, outros cerceados já naquele tempo, pela vil ganância. Os versos desconhecem o analfabetismo, desconhecem a escravidão, talvez já o habitassem antes mesmo de seu nascimento. Os versos desconhecem os meus e os seus limites.

Talvez tenhamos vendido aqueles a quem devíamos amor. Os vendemos em troca de um pouco de dinheiro, trabalhamos mais, corremos muito e deixamos de ser o melhor amigo da pessoa que amamos, em momentos de lucidez somos surpreendidos pelo tanto que nossos filhos já cresceram, reencontramos nossos pais e descobrimos que seus cabelos (antes negros) agora são predominantemente brancos. Sim o tempo vai passando, quando de fato, nós deveríamos passar pelo tempo.

Faço dessas considerações um segredo, quero apenas dividir com você.

É o meu jeito de te pedir que respires fundo.


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