poeira de plutão

há um resquício de grandiosidade em tudo

Tiele

Escreve pelos cotovelos tudo o que silencia a própria voz. Acredita que qualquer assunto pode ser meticulosamente discutido quando a companhia e a bebida são boas

IDENTIDADE: Possibilidades externas de Ser

Um texto confuso. Assim como nossa identidade.


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Rádio, televisão, internet: Caos político, agentes políticos, propina, esquerda, direita, desvio de dinheiro, economia, confiança, crédito, público versus privado, interesses, judiciário, executivo, democracia, corrupção. Constantemente, um bombardeio de informações atreladas à política e economia nacional são disseminadas pelos meios de comunicação que interpelam pelos discursos em juízo de valor – porque o juízo de fato por mais óbvio que pareça está também sujeito à subjetividades. Por mais que se ouça esse turbilhão de informações em decibéis aleatórios nada é claro e o que prende a atenção são as sátiras – que nem sempre são inteligentes, mas porque fazem rir, e rir parece ser neste cenário absurdo, o melhor remédio.

Não é preciso remontar a Roma Antiga para experimentar a prática do “Pão e Circo”. A realidade dos fatos é banalizada e naturalizada desta forma, pois custa pensá-la. Acenam positivamente ou vibram euforicamente pela barbárie, pela ridicularização. O espetáculo da alteridade ora cômico e ora trágico, contorna as possibilidades abstratas de frágeis expectativas. Em pompa, a massificação ideológica estrutura as instituições possibilitando a configuração de um modelo que pode ser aparentemente questionado, mas que submete a existência a um alheamento protagonista. Neste contexto social e político, desenrola-se um reality show onde a piada se constitui de figuras da própria condição de espectador.

A provocação ainda é pertinente: assumem-se discursos e vozes que não são próprios. Assumem porque não participar dos processos sociais é um massacre à condição como “individuo social”. Só se vive se souber proferir em mesma linguagem o discurso daqueles que querem ouvir. Pensamentos adestrados. E por isso Nietzsche se irrita com aqueles que o lêem e absorvem suas verdades. Trocam deuses por deuses – só diferem as estátuas. Limitamo-nos a exaltar e estimar pensamentos, sem saber em que momento posicionamos autonomia em nossas concepções. Vendem-se e se compram verdades, mas que verdades?

Desde crianças, as questões concentram um anseio pela vida de produção e consumo: “O que você vai ser quando crescer?” E enquanto se espera que o filho responda prontamente e objetivamente com alguma profissão que garanta status, respostas fora dessa expectativa surpreendem ou decepcionam. O maniqueísmo existe aqui em forma de notas de cem reais acumuladas na caixinha do que pode ser concebido como a própria felicidade. O sucesso é a garantia do ter. Na escola as crianças aprendem sob perspectivas morais que é “justo e necessário” obedecer as regras e aos comandos de disciplina, pois isso será determinante para a consolidação de uma geração de empregados que (terão dinheiro) serão felizes.

Em “Educação Para Além do Capital”, István Mészáros (2004) defende que é necessário romper com essa lógica do capital se quisermos uma alternativa educacional significativamente diferente. Limitar a mudança educacional à estrutura do capital seria apenas uma readaptação dentro do modelo de reprodução desse sistema, em que a emancipação humana é equivalente à acumulação de capital. No mercado de trabalho a história se repete e o movimento da economia da máquina capitalista é tão lógico, que questioná-lo é quase uma heresia. Todo esse jogo insano é condição de identidade. Desestabilizá-la é desestabilizar-se.

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Para os primeiros filósofos gregos, a exemplo de Pitágoras, a Natureza é constituída de um sistema de relações e proporções matemáticas. Somos números. Esse pensamento pode ser identificado hoje, nos nossos documentos. Isso, de fato, organiza a vida social, mas qual a legitimidade de um número representar minha condição como ser humano? A liberdade é regida. Algoritmos concentram os códigos necessários para “o identificar-se”. Nessa transição das possibilidades externas que configuram nossa própria identidade, nem todo o ideal social vem ao encontro dos interesses individuais. Se não há resignação, as formas tradicionais são pouco a pouco decompostas pelas inovações (in)transigentes do eu. A identidade parece bastar-se naquilo que eu sou, mas o que eu sou enquanto sujeito obediente no sistema.


Tiele

Escreve pelos cotovelos tudo o que silencia a própria voz. Acredita que qualquer assunto pode ser meticulosamente discutido quando a companhia e a bebida são boas.
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