poeira de plutão

há um resquício de grandiosidade em tudo

Tiele

Escreve pelos cotovelos tudo o que silencia a própria voz. Acredita que qualquer assunto pode ser meticulosamente discutido quando a companhia e a bebida são boas

A importância da Didática para a compreensão das Tendências Pedagógicas e a metodologia de Maria Montessori

Compreender os princípios da didática é um passo norteador para a compreensão entre as diferentes tendências pedagógicas que acompanharam os modelos transitórios da prática escolar e da educação. As concepções de didática foram variando e sendo construídas conforme cada sociedade interpretava suas necessidades.


maria-montessori-girl-bbc.jpg Maria Montessori (1870-1952)

Compreender os princípios da didática é um passo norteador para a compreensão entre as diferentes tendências pedagógicas que acompanharam os modelos transitórios da prática escolar e da educação. As concepções de didática foram variando e sendo construídas conforme cada sociedade interpretava suas necessidades.

Na Grécia Antiga, Didática, vinda do grego didaktiké era caracterizada como “a arte de ensinar tudo a todos”. Nesse sentido, o pretenso objetivo era possibilitar o conhecimento e as boas práticas de modo profundo que pudesse ser ensinados de modo fácil a qualquer indivíduo. Grandes pensadores preocupados com a dinâmica e a metodologia dentro dos processos educacionais tiveram seus posicionamentos diante do conceito, como Sócrates, Comenius, Dewey... Contribuindo para a construção dos fundamentos deste tema. Foi a partir de Comenius (1592-1670) que se atribui à didática seu caráter mais pedagógico, que encara as atividades educativas por viés científico e que busca a eficiência.

Compreender os elementos que efetivamente possibilitam a atividade educativa, seja na teoria ou na prática, são questões pertinentes das estratégias de ensino, relativas às metodologias e processo de ensino-aprendizagem. É nessa perspectiva que aparece a didática, preocupando-se com questões como: por que se aprende? Quem pode aprender? Para que se aprende? Onde deve se ensinar? Onde se aprende? Com quais recursos o processo de ensino-aprendizado será efetivo?

Para contemplar essas questões, a didática tem por objeto de estudo os processos de ensino-aprendizagem nos contextos educativos, em prerrogativas científicas e tecnológicas, buscando ainda, na cultura, percepções de integração e intervenção a fim de aperfeiçoar as metodologias.

Quando se fala em Tendências Pedagógicas, a didática que se situa em cada prática escolar deve levar em conta os condicionantes sociopolíticos que configuraram as diferentes concepções de homem e sociedade. (LIBÂNEO, 1982). A partir desses condicionantes, as tendências pedagógicas foram classificadas em Liberais: 1)Tradicional, 2)Renovada Progressivista, 3)Renovada não-diretiva, 4)Tecnicista e Progressistas: 1)Libertadora, 2) Libertária e 3)Crítico-social dos conteúdos.

A pedagogia Liberal não significa uma “pedagogia aberta”, como poderia ser equivocadamente interpretada, mas aparece no sentido conservador da liberdade e interesses individuais a partir da forma de organização social. Nesse sentido, a pedagogia liberal sustenta o princípio de que a escola deve educar o sujeito para que esse saiba seu lugar na sociedade.

Na Tendência pedagógica Liberal Tradicional, o aluno é educado para que possa atingir sua plena realização como pessoa, o caminho cultural que aponta para o saber é o mesmo para todos, desde que se esforcem. Essa tendência é marcada fortemente por uma ideologia meritocrática, embora busque acentuar o ensino humanístico e o desenvolvimento exclusivamente intelectual.

Na Tendência Liberal Renovada Progressivista, a escola deve por fim adequar às necessidades individuais ao meio social, permitindo ao aluno educar-se, e participar ativamente do seu processo de construção do conhecimento. Nessa tendência, a ideia de “aprender fazendo” conduz as tentativas experimentais, a descoberta, à solução de problemas e a compreensão do meio a partir de atividades que sejam adequadas às etapas de desenvolvimento e a realidade do individuo.

A Tendência Liberal Renovada Não-Diretiva é acentuada pela formação de atitudes, onde a escola deve se preocupar mais com a questão psicológica do que com os problemas pedagógicos ou sociais que podem inferir no sujeito. O resultado de uma boa educação seria semelhante à de uma boa terapia, sendo então todo o aparato externo de pouca importância, pois a atividade educacional deve estar centrada no aluno, em busca de autodesenvolvimento, autorrealização, e até autoavaliação.

Na Tendência Liberal Tecnicista, a função da escola é atuar no aperfeiçoamento da ordem social vigente, possibilitando a articulação da ação educativa diretamente relacionada com as atividades laborais do sistema produtivo dentro do sistema capitalista. Não há debates, não há discussões, não há subjetividade: o que há é a produção de indivíduos para a mão-de-obra do mercado de trabalho, a partir de um processo educacional objetivo, e de informações rápidas e precisas. O conhecimento e as informações não são construídos, mas devem ser fixados tais como foram passados pelo professor.

Dentro das tendências da Pedagogia Progressista, sustentam-se ideais sociopolíticos a partir da educação, sendo um instrumento da luta de professores junto a outras práticas sociais. A Pedagogia Progressista defende a promoção de uma educação crítica.

Na Tendência Progressista Libertadora, há um diferencial não-formal, como seria institucionalizado nas tendências da pedagogia liberal. A educação Libertadora questiona a realidade das relações do homem em sua dinâmica social e natural, visando à transformação. A proposta dos conteúdos surge da problematização da vida dos indivíduos. Há discussão, o que se aprende não decorre de simples fixação ou memorização, mas da criticidade do conhecimento, que se alcançam através de reflexões, críticas e compreensão, contribuindo para a formação de cidadãos políticos.

A Tendência Progressista Libertária espera que a escola transforme a personalidade dos alunos para que sejam mais autônomos e libertários, críticos e resistentes ao sistema burocrata do Estado. As matérias são colocadas à disposição dos alunos que escolhem e optam pelo o que pode ser mais conveniente às experiências vividas, não sendo exigidas. Coloca-se nas mãos dos alunos toda a liberdade de organização e atividades a partir do conjunto da vida, sendo motivados pela experiência grupal.

Na Tendência Crítico Social dos Conteúdos, os conteúdos indissociáveis das realidades sociais são difundidos como tarefa principal. É a proposta da promoção democrática de ascensão e transformação social. A transferência de aprendizagem se dá a partir do momento da síntese, quando o aluno supera sua visão parcial e confusa e adquire uma visão mais clara e unificadora, possibilitada pela intervenção e experiência do professor, sem anular a experiência do aluno.

Analisando as propostas das tendências pedagógicas apresentadas, percebe-se a evolução da didática. Se a didática traz a compreensão, a análise e o entendimento como pressupostos para a superação do racionalismo técnico e empatia na prática do professor, poderíamos dizer que a pedagogia progressista é mais passível de metodologias didáticas eficazes. Mas novamente, é necessário considerar que as tendências que priorizam o ensino, a hierarquização da relação aluno/professor e o cumprimento de programa de ensino indiferente ao aluno têm suas justificativas em um contexto social que caracterizava a sociedade de tal época. Afinal, se a ideia é alavancar o sistema capitalista, por exemplo, qual seria o sentido de implantação de uma tendência Crítica Social dos Conteúdos sabendo-se que a organização social é primordial para o bom funcionamento do sistema produtivo?

Embora as tendências pedagógicas estejam sujeitas à realidade social, podemos questionar: até que ponto devemos nos acomodar e nos sujeitar a essas formas de organização? Até que ponto, nós, como educadores, estamos contribuindo para a verdadeira formação humana e para autonomia de nossos educandos, se nós mesmos não conseguimos reconhecer em que limites ainda articulamos nossa própria autonomia? Não são as rupturas e as revoluções necessárias para a interpretação do modelo atual e promoção de um método melhor? Embora as questões pareçam pautadas na pedagogia progressista, e assim, difíceis ou impossíveis de serem praticadas, é importante observar que a insatisfação diante de propostas educacionais indigestas pode ser o primeiro passo para se repensar as atividades educacionais, independente da época ou sociedade na qual se está inserido.

Um exemplo disso surge com a preocupação de Maria Montessori (1870-1952), uma das primeiras médicas a se formar na Itália. Uma mulher sonhadora, atuante e corajosa, em uma época em que a mulher deveria assumir papel submisso na sociedade. No filme “Maria Montessori: uma vida dedicada às crianças”, a metodologia montessoriana é apresentada junto aos traços de sua biografia, marcados pela persistência de uma mulher que enfrentou os paradigmas de sua época. Em seus estudos psiquiátricos, Montessori participa de um projeto com crianças e percebe que o tratamento dado a elas era desumano, o que a faz buscar métodos para compreender a situação e o processo de desenvolvimento daquelas crianças.

Montessori percebe que o atraso apresentado pelas crianças que eram diagnosticadas com distúrbios comportamentais e de aprendizagem era em grande parte oriundo da ausência de estímulos externos, tanto do ambiente como do profissional que cuidava da criança, dificultando seu desenvolvimento. Desse modo, toma seus estudos psiquiátricos a fim de buscar soluções para estas questões.

Maria Montessori observa que as crianças se interessavam por qualquer coisa que pudessem sentir. Assim, Montessori busca materiais que possibilitassem essa experiência, e criou vários outros que foram disseminados junto à metodologia montessoriana em vários lugares do mundo, como o material dourado. Por meio da utilização destes materiais, as crianças aprenderam com mais facilidade e se desenvolveram muito bem, acabando por saírem bem melhores que boa parte das crianças italianas educadas em escolas normais.

No Lar das Crianças, onde Maria foi convidada a desenvolver um projeto em 1907, Montessori adapta os móveis ao tamanho das crianças e na medida do possível, deixa à disposição das crianças os materiais sensoriais. Sendo bem sucedida em suas propostas metodológicas que favoreceram o desenvolvimento das crianças, Montessori passa a fazer palestras e ministrar cursos em diversos lugares, sendo reconhecida mundialmente. O método montessoriano que surge com a necessidade de manter a concentração em atividades para crianças com necessidades especiais passa a ser utilizado no ensino de todas as crianças, tendo aplicabilidade universal, visto que o método desenvolvia as inteligências, mas respeita a unicidade a personalidade de cada aluno.

As características do método de Montessori que tratam da liberdade no espaço de ensino, à utilização de materiais que facilitavam a associação com a realidade em aspectos multissensoriais que propiciavam a autoeducação foram de grande contribuição para a tendência liberal renovada progressivista. A motivação depende da força de estimulação, e do quando isso pode estar consoante com os interesses do aluno. A criança só aprenderá a fazer fazendo, logo, todas suas tentativas experimentais poderão ser enriquecedoras para o seu desenvolvimento.

Concluindo, o que percebe-se nas tendências pedagógicas é que por trás de cada metodologia aplicada pelas instituições e financiada pelo Estado, sempre haverá um interesse que pode abarcar questão econômica, social e até cultural. Quando Montessori rompe o projeto com Mussolini e “foge” da Itália, ela demonstra que além de não submeter sua condição de gênero aos padrões da sociedade, também não queria submeter seus ideais dentro do âmbito da educação às questões políticas de Mussolini, que implicava na perca de liberdade dentro das escolas montessorianas. Entre as tendências da pedagogia progressista, o que vemos em comum é a visualização de um individuo autônomo, capaz de desenvolver os princípios básicos, seja da tendência libertadora, libertária ou crítico-social dos conteúdos. Mas para se chegar a esta autonomia do individuo, no sentido mais genuíno e despreocupado com a realidade de produção e consumo, a formação exige um rompimento com o sistema capitalista. Pois, de acordo com Itsván Mèszaros (2004), qualquer mudança ainda dentro do sistema capitalista não passa de uma adaptação da educação para o próprio mercado.

Seguindo as teorias de Vygotsky, a construção do conhecimento e a formação do sujeito dependem da síntese materialista-dialética. O ambiente, os fatores externos, a história e a cultura podem influenciar a formação do homem. O saber vem da experiência e da interação socioconstrutivista. E a didática, ciência preocupada com a “arte de ensinar”, não pode eximir-se da responsabilidade de reconhecer o sujeito para promover o conhecimento para o sujeito. O processo de ensino-aprendizagem não deve ser estranho, mas natural ao processo de desenvolvimento, e primordial para que o sujeito possa (em sua própria percepção) reconhecer sua existência e suas capacidades.


Tiele

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