poeira de plutão

há um resquício de grandiosidade em tudo

Tiele

Escreve pelos cotovelos tudo o que silencia a própria voz. Acredita que qualquer assunto pode ser meticulosamente discutido quando a companhia e a bebida são boas

Considerações sobre a obra “Educação para além do Capital” – István Mészàros

A proposta “para além do capital” traz literalmente, em suas entrelinhas, o interesse por uma mudança radical na estrutura, de modo revolucionário e legítimo. É necessário “romper com a lógica do capital” se a pretensão foca em um sistema educacional significativamente diferente.


meszaros.jpg István Mészáros (1930-2017)

Em sua obra “Educação para além do Capital” (1994), István Mészáros [1] traz considerações sobre perspectivas educacionais, e assim, sociais. Discorrendo sobre as estruturas que propiciam mudanças e transformações, Mészáros critica o capital afirmando que em nenhum momento as estruturas capitalistas podem favorecer alguma mudança. De modo filosófico, há de se argumentar que sempre haverá a probabilidade de sujeição em juízo de valor, e assim se faz nesta realidade: pequenas mudanças não seriam sugestivas de transformações, mas sim de adaptações. Qualquer breve alteração dentro do capital seria uma alteração promovida por questões de interesse do próprio sistema, sujeitos às ideologias na qual foram estabelecidas. A proposta “para além do capital” traz literalmente, em suas entrelinhas, o interesse por uma mudança radical na estrutura, de modo revolucionário e legítimo. É necessário “romper com a lógica do capital” se a pretensão foca em um sistema educacional significativamente diferente.

Quando Adam Smith demonstra sua preocupação afirmando que a educação no sistema capitalista é negligenciada, acaba de maneira equivocada a colocar a culpa nos próprios trabalhadores. Estes, além de ter que dedicar exclusiva atenção ao seu trabalho, concentram e se desgastam em atividades que impõe limites à capacidade cognitiva. Nas palavras de Smith: “Estas são as desvantagens de um espírito comercial. As mentes dos homens são contraídas e tornadas incapazes de elevação.” Ao diagnosticar a culpa como sendo incapacidade racional dos trabalhadores, seria fácil apontar a solução: Torna-os cônscios da amplitude da realidade e o problema quanto a educação será resolvido. Todavia, o argumento isolado dentro do sistema é insuficiente em si mesmo, pois se o modelo educacional dispersa a atenção para a produtividade é porque a estrutura o condiciona a isso, além de que, se de maneira utópica a solução fosse alcançada, colocaria em risco todo o modelo estrutural capitalista, pois os indivíduos em gozo da razão não se sentiriam satisfeitos em reduzir sua capacidade ao labor em escala de produção manufatureira.

É forte a crítica que Meszaros faz a Robert Owen, por exemplo. Quando Owen supõe que a mudança deva vir gradativamente, Meszaros reestabelece sua posição no discurso que enaltece a mudança radical. Owen sugere que através da razão alavancada a pequenos passos, o empregador reconsideraria sua visão e não julgaria o trabalhador como “mero instrumento de ganho”. Mas é irônico pensar nessa condição ao se pensar que o sistema capitalista visa o lucro para a sua manutenção. Mais uma vez, a estrutura não permite essa possibilidade. De acordo com Meszaros: “Quando os pensadores castigam o "erro e a ignorância", eles devem também indicar o fundamento a partir do qual se elevam os pecados intelectuais criticados (...) A contradição insolúvel reside na concepção de Owen da mudança significativa como a perpetuação do existente.” É impossível repensar a educação de modo isolado e planejar transformações dentro de uma estrutura que por si só já reprime e condiciona a capacidade cognitiva para o seu funcionamento.

No mesmo sentido, quando o liberal John Locke insiste que “a causa para o crescimento dos pobres não pode ser nada mais do que o relaxamento da disciplina e a corrupção dos hábitos”, esquece-se de considerar as variáveis históricas, políticas, econômicas e sociais que sujeitaram os indivíduos a uma existência precária e sem posses. As relações de poder que sustentam o capital diferem o tratamento nas diferentes classes sociais, e isso é apreendido no próprio meio educativo, favorecendo àqueles que já estão na parte privilegiada da sociedade. O problema visto por estes pensadores é muito superficial, o funilamento de condições temporais não pode ignorar a estrutura histórica que sustenta tais condições. Problemas superficiais apontam para soluções superficiais e isso está longe de promover transformação alguma.

Nesta condição, Meszaros aponta que “os remédios não podem ser formais; eles devem ser essenciais". Como o individuo é condicionado de acordo com o meio social na qual está inserido, é interessante para o capital que ele tome para si e interiorize como objetivos pessoais os objetivos propagados pelo sistema. E aí está a importância das instituições formais. Elas são disseminadoras das aspirações do capital, das necessidades e da realidade que fomenta em palavras de ordem: “Produção! Consumo! Produção! Consumo!...” Porém, não só a educação formal molda o individuo. Meszaros chega ao ponto crucial da questão educativa e salienta que “o que precisa ser confrontado e alterado fundamentalmente é todo o sistema de interiorização, com todas as suas dimensões visíveis e escondidas.”.

A partir da mudança do modo de interiorização é que será possível questionar as bases que remontam a concepção do domínio do capital. A palavra-chave dos argumentos de Meszaros é “consciência”. Segundo Marx, os seres humanos devem mudar "dos pés à cabeça as condições da sua existência industrial e política, e consequentemente toda a sua maneira de ser". E não somente os educandos, mas também os educadores. Todos devem ser educados. A educação não deve ser reduzida a um modelo de reprodução de ideias, mas deve ser norte estratégico para a criação, para a imposição.

A partir da consciência a capacidade de relacionar fatos e reconhecer-se na história irá dispor ao individuo probabilidades de escolhas e interesses individuais legítimos. E cabe aqui Charles Wright Mills, quando este discorre que é necessário que o indivíduo entenda toda a estrutura na qual está submetido, pois os problemas devem ser compreendidos a partir de uma perspectiva capaz de situar ao simultaneamente a história, a biografia e a estrutura social do individuo. A partir dessa consciência social é que o individuo poderá se dizer consciente. Suas ideias e ideais não serão apenas reprodução regida pela estrutura na qual vive, mas terão razão de ser. Serão escolhas que concernem com sua essência, e não apenas com sua existência.

[1] István Mészáros (1930-2017) foi um filósofo húngaro e está entre os mais importantes intelectuais marxistas da atualidade.


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