poeira de plutão

há um resquício de grandiosidade em tudo

Tiele

Escreve pelos cotovelos tudo o que silencia a própria voz. Acredita que qualquer assunto pode ser meticulosamente discutido quando a companhia e a bebida são boas

Crise política/econômica como manifestação da crise ética contemporânea


Captura-de-tela-2018-02-01-11.jpg Da esquerda para direita Friedrich Nietzsche e Jürgen Habermas. (Imagem ilustrativa)

Pensar a ética é pensar a condição de reflexão que estuda a moral e a conduta humana. Pensar a conduta e a moral humana sem pensar as teias que preservam as relações sociais é refutar a condição do Homem como Ser. Não nascemos morais, mas ao nascer somos submetidos a uma sociedade regida por uma “consciência coletiva”. E dentro dessa sociedade, através da consciência coletiva que abarca tradições, crenças e toda uma construção moral, construímos ao longo de nossa vida um ser moral. Pois amoral é somente o animal, e dizer-se imoral, é considerar a presença da moralidade em alguma circunstância. Na tentativa de analisar toda essa conjuntura social, aparece então a Ética. Ou seja, se a moral só existe a partir da relação entre dois ou mais indivíduos, a Ética necessariamente também abrange considerações que vão além de verdades individuais.

Se antes o problema ético detinha-se em uma visão maniqueísta, entre bem/mal, certo/errado, sustentado principalmente por valores de uma moral religiosa, a partir dos ideais enfatizados pela Revolução Francesa e o Iluminismo, a razão é posta como caminho para autonomia e felicidade. A felicidade está na própria capacidade racional do homem em orientar-se e ser atuante na sua vida terrena.

Mas se agora a razão é instrumento para manutenção e compreensão da vida, como aceitar o fato de que vivenciamos uma crise ética hodierna? Não é o homem como ser atuante o único responsável pelos problemas que assolam sua vida? Não é o homem como ser pensante o único que pensa sua realidade e assim, tem o trabalho de problematizá-la? Esse é o primeiro argumento a ser pensado criteriosamente. A questão não se reduz a existência antropocêntrica, pois o homem deve ser entendido como ser que é, na sua profundidade ontológica. A crise Ética não tem a ver de modo simplório com alguma problematização racional, mas com o bom e belo uso da própria razão.

Friedrich Nietzsche, no aforismo 125 de A Gaia Ciência declara a morte de Deus[1] e como o homem não consegue se livrar do cadáver dele. A crise Ética Contemporânea pode começar a ser entendida a partir desse momento. Ora, já não reconhecemos a existência de Deus, mas também não conseguimos nos livrar dos dogmas impostos pela doutrina religiosa. O homem diz-se dono da própria condição, mas remete ao transcendente quando no desespero se entrega às aflições sem tentar racionalizá-las afim de promover soluções/mudanças. Tentamos pensar a crise ética contemporânea, mas sem tal profundidade que acabamos por reduzir nossos discursos em opiniões moralistas e maniqueístas. E nesse sentido, opiniões que muitas vezes vão de pretensões individuais que se sobrepõem aos problemas de ordem pública. Ouso dizer então, que a Crise Ética contemporânea é senão uma Crise de legitimidade.

Entende-se por legitimidade: legalidade, genuinidade, conformidade com a razão. E isto abarca a vicissitude da identidade de uma sociedade. Primeiro, é necessário salientar a crise de legitimidade conceitual. No mesmo sentido em que Habermas[2] apresenta a linguagem como ponto de destaque no cerne da contemporaneidade e a comunicação como o paradigma que norteia a ética, entende-se que é necessário um cuidado com a transmissão de signos. Entende-se que é necessária uma atenção com a forma de comunicação, pois a linguagem que sustenta as relações sociais também é uma linguagem que determina o que as coisas são, não sendo admissível, portanto, banalizá-la. Em outras palavras, há um descuido com a sistemática etimológica.

A política perdeu sua consistência ontológica. O que na Grécia era oriundo de um cuidado com a vida pública, com a esfera pública, com o bom e belo uso da razão para servir ao bem comum acima de interesses individuais, não é o mesmo teor que sustenta a palavra nos dias de hoje. Qual a legitimidade naquilo que entendemos por política? Qual a legitimidade que há nos discursos políticos se pensada a palavra na sua etimologia? E isso também acontece com a Democracia e tantas outras palavras do cenário político.

Com o advento da tecnologia e da fácil exposição e diversidade de opiniões, a mídia também se torna um instrumento de manobra de interesses. Diante desse show que parte de pressupostos niilistas, que inflam o próprio ego com discursos vazios mas de verdades absolutas, o homem se perde de si mesmo. E isto é demasiado interessante, visto a diferença que há entre o homemperder-se em si mesmo – vale aqui a reflexão introspectiva que põe em jogo a ontologia do próprio ser; e a figura do homem que perde-se de si mesmo – aqui não há uma preocupação reflexiva porque longe de quaisquer condições do exercício de autonomia, o homem torna-se mais um mero individuo que segue o rebanho.

E qual a proporção participativa da tecnologia nesse cenário de crise? É possível utilizar-se dela como se ela fosse instrumento de evidência. Aqui sucede um importantíssimo apontamento: a evidência de uma sociedade de aparência. A possibilidade dos indivíduos demonstrarem seus discursos trouxe a eles uma falsa ideia de liberdade. Redes sociais acabam sendo depósitos de opiniões que não necessariamente estão preocupadas em estar fundamentadas de modo legítimo, mas são exibidas na expectativa de desenrolar uma aparente contribuição – mais um equívoco, visto que essa contribuição é entendida como jogar opiniões aleatórias para aparentemente demonstrar que há algum conhecimento sobre algum fato da atualidade.

O conceito de autonomia toma-se por distorcido. Execrar antipatias publicamente não torna nenhum senhor absolutamente autônomo. E isso muito menos tem a ver com liberdade. E aqui cabe resgatar o velho Kant[3], quando este fala que a liberdade só pode ser alcançada pela autonomia, mas não consentido aos valores da libertinagem e qualquer desprezo por todas as construções morais políticas, religiosas, sociais, econômicas,mas no sentido de consciência de ser. Toda liberdade exige uma certa conduta, pois a liberdade tem relação com a moral.

Mas qual a relação da crise política/econômica com a crise ética contemporânea? Pois bem, uma sociedade que visa a gratificação imediata, não tem uma concepção histórica como referência e busca concentrar as verdades na sua existência isolada e efêmera, sobrepõe interesses particulares sobre questões públicas, não tem uma preocupação e um cuidado com a própria razão de ser, ou com a própria capacidade como ser pensante, prostitui sua parcialidade como cidadão em favor de manobra de interesses, que não legitima nem a própria existência na questão ontológica, e assim estética, política e ética, acaba sim por fazer com que vários setores que regulam a vida em sociedade entrem em crise. Não é a crise ética fator desencadeante da crise política e econômica, mas são eles formas de manifestação da crise ética contemporânea.

[1]NIETSZCHE, F. A gaia ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 147-148

[2]Jürgen Habermas , Filósofo e sociólogo alemão.

[3]Immanuel Kant (1724 – 1804), Filósofo prussiano.


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