poeira de plutão

há um resquício de grandiosidade em tudo

Tiele

Escreve pelos cotovelos tudo o que silencia a própria voz. Acredita que qualquer assunto pode ser meticulosamente discutido quando a companhia e a bebida são boas

Pare para ler ou morra!


839ff5ba-afa5-45d9-99ed-5309b08c0033.jpg Imagem Ilustrativa

Não, isso não se trata de uma ameaça, nem uma praga rogada, mas traz em sua expressão um grito alusivo à importância da leitura. Muitos artigos se passam despercebidos pelos olhos vorazes dos leitores que preferem evitar distrações e seguem direto às páginas que lhe interessam. E isso é consequência temporal, a necessidade do pragmático, condição da pós-modernidade. A urgência objetiva, mesmo que isso seja descortês com os escritos que excedem um número x de caracteres. Busca-se as informações fragmentadas, resumos, leituras rápidas, “não temos tempo para futilidades” (escreve o sujeito em uma publicação de rede social depois de assistir por duas horas um programa de TV que faz escárnios dos alienados, e coitado, nem se deu conta disso).

Em média, o brasileiro lê 2,43 livros inteiros por ano, segundo a Pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil” (2015) realizada pelo Instituto Pró-livro. Na mesma pesquisa, 43% dos entrevistados responderam que a razão para não ter lido mais se deu pela falta de tempo, 9% por preferirem outras atividades – outras respostas não excedem 9%.

Quando perguntado o que os entrevistados gostavam de fazer em seu tempo livre, 73% responderam assistir televisão, outros percentuais significativos se resumem ao uso da tecnologia.

O que se percebe é que o hábito da leitura é visto como demodé em meio às tantas possibilidades de acesso à informação. Entretanto, é necessário observar que a leitura traz diversos benefícios para o leitor, sendo responsável por contribuir de forma significativa à formação do indivíduo, ampliando e potencializando sua forma de ver o mundo. Pode proporcionar ampliação vocabular, aquisição e formatação de posicionamentos, auxiliando na construção de conceitos. A leitura constitui também uma prática social, pela qual o sujeito, ao ler, mergulha no processo de produção de sentidos, e esta se torna algo inscrito na dimensão simbólica das atividades humanas, mais propriamente, do tratamento da linguagem, recurso pelo qual o homem adentra o universo da cultura, configurando-se com um ser culto, racional e pensante.

Segundo Koch e Elias (2008), a leitura está além de apenas ocupar um importante espaço na vida do leitor. Para as autoras, o ato de ler constitui-se da junção entre os sujeitos sociáveis com a linguagem sociocognitiva, o que lhes possibilita um contato eficaz com elementos significativos do texto. Percebe-se o quão importante é a habilidade de leitura, que ultrapassa os limites da decodificação, efetivando-se como ação, que prepara leitores capazes de participarem da sociedade na qual estão inseridos e, acima de tudo, exercerem o direito e o dever de transformá-la. No momento da leitura, trocam-se valores, crenças, gostos, que não pertencem somente ao leitor, nem tão somente ao autor do texto, mas, sobretudo, a um conjunto sociocultural.

Conforme observa Lajolo (1996, p 28): “A leitura é, fundamentalmente, processo político. Aqueles que formam leitores – alfabetizadores, professores, bibliotecários – desempenham um papel político que poderá estar ou não comprometido com a transformação social, conforme estejam ou não conscientes da força de reprodução e, ao mesmo tempo, do espaço de contradição presentes nas condições sociais da leitura, e tenham ou não assumido a luta contra aquela e a ocupação deste como possibilidade de conscientização e questionamento da realidade em que o leitor se insere.”

A leitura permite o despertar de sentimentos e emoções, inspirando-nos a uma condição de reflexão, questionamento e imaginação. O leitor é agente ativo da constante busca de conhecimento, e necessita afirmar sua posição social, cultural e humana dentro do contexto que preconiza, sem com isso fragilizar a pluralidade intelectual. A prática da leitura é uma possibilidade de possibilidades, e desperta o ser, mantendo vivo o espírito crítico e curioso… afinal, como diria Martha Medeiros: “Morre lentamente quem não lê…”.


Tiele

Escreve pelos cotovelos tudo o que silencia a própria voz. Acredita que qualquer assunto pode ser meticulosamente discutido quando a companhia e a bebida são boas.
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