poeira de plutão

há um resquício de grandiosidade em tudo

Tiele

Escreve pelos cotovelos tudo o que silencia a própria voz. Acredita que qualquer assunto pode ser meticulosamente discutido quando a companhia e a bebida são boas

DURKHEIM E A RESPONSABILIDADE SOCIAL DAS INSTITUIÇÕES SOBRE O INDIVÍDUO NO BRASIL


depressao1.jpg Fonte: FIOCRUZ (2018)

Compreender a atual conjuntura brasileira exige uma análise crítica, metodológica e sistemática, e nisso reside a importância e o papel da sociologia como ciência. Considerando os últimos fenômenos que vêm acometendo a realidade deste país, podemos considerar que o Brasil enfrenta diversas situações que se originam nos conflitos sociais - ou desencadeiam estes. Analisar esse contexto sob um viés sociológico possibilita inferir a determinação do social sobre o comportamento individual.

Nesse sentido, a contribuição dos estudos de Emile Durkheim (1858-1917), sociólogo francês que contribuiu efetivamente para a concepção da sociologia como ciência, constituem um grande avanço na percepção da relação entre o individuo e a coletividade. Para o autor, essa relação dá-se pela determinação do social sobre o individual através do conjunto de regras e normas produzidas coletivamente. Quando não há coesão e integração da sociedade para que ela se mantenha em harmonia e a insuficiência das relações sociais ou a ausência de instituições que normatizem as relações, há conflito, o que o autor chamará de anomia. Anomia seria, portanto, uma espécie de patologia nas relações sociais.

No último dia 13, fomos assombrados pela notícia de que dois jovens, ex-alunos, da Escola Estadual Professor Raul Brasil no município de Suzano (SP) teriam invadido a escola, com revólver, machadinha e outros artefatos com o único intuito de massacre. Os jovens, de 17 e 25 anos, entraram na unidade escolar no horário de intervalo e atingiram dezenas de alunos. No ataque, 10 pessoas morreram, incluindo os próprios assassinos, sendo que o atirador ao avistar a polícia, matou seu comparsa e se suicidou em seguida.

As reações sobre esse caso e outros semelhantes, são diversas, e a grande maioria deposita nos dois jovens o pior dos julgamentos. Cabe ressaltar que não se trata de eximir a culpa dos assassinos, mas olhar com mais profundidade ao caso: é necessário questionar quais as causas que levaram esses jovens à esse tipo de comportamento brutal. Ora, se o social determina o individual, é possível considerarmos que há fatores externos que afetam o comportamento do indivíduo. Estariam esses jovens, projetando algum tipo de violência que internalizaram de alguma relação em algum momento?

Em seus estudos sobre Suicídio, que culminaram na sua famosa obra em 1897, Durkheim analisa que embora os indivíduos se vejam como detentores de liberdade de escolha, seus comportamentos são moldados socialmente, e frequentemente padronizados. Até mesmo o suicídio, fato social que parece tão pessoal e próprio da escolha do sujeito é influenciado por fatores externos. No caso de Suzano, ainda sob investigação, a polícia obteve informações através das mensagens enviadas pelo celular do suicida, que este vinha planejando o crime com no mínimo seis meses de antecedência, segundo as informações divulgadas no noticiário. Nessas mensagens, o jovem enfatizava a ideia de que o massacre seria “inesquecível”, depositando no ato uma brutalidade e frieza que tinha por objetivo chamar a atenção. Isso evidencia um certo deslocamento que o suicida concebia de sua relação enquanto indivíduo no meio social.

Para Durkheim, o suicídio está relacionado diretamente à ideia de integração e regulação social. Indivíduos que não estão fortemente integrados em sociedade e cujos desejos e anseios não são regulados pelas normas sociais são mais predispostos a cometerem suicídio. No Brasil, de acordo com dados apresentados pelo Ministério da Saúde (2018), o número de suicídios aumentam 2,3% em um ano, sendo, em média, um caso a cada 46 minutos. A maior taxa de mortes ocorre entre jovens entre 15 e 29 anos. Entre os principais fatores de risco que motivam as vítimas, tem-se o desemprego (pontuado na obra de Durkheim).

De acordo com o Ministério da Saúde (2018), existem políticas públicas que podem prevenir casos assim, sendo que a presença de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) diminuem em 14% o risco de suicídios nos municípios que o possuem. O que se percebe, nessas situações, é que sim, os estudos apontam a correlação dos fatores externos com as taxas de suicídio, e isso implica na responsabilidade das instituições sociais, que devem investir em políticas públicas visando a promoção da integração e regulação social, visto aqui, sociologicamente como harmonia social.

É necessário olhar com atenção para os casos de anomia na ordem social. A sociedade se mantém coesa justamente pela internalização que realizamos dos valores e de todo o contexto simbólico existente nela. Somos seres sociais, e o individual é perpassado por uma personalidade coletiva. Compreender nossa realidade social é a chave para que casos como o de Suzano não se repitam na nossa sociedade.


Tiele

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