poesia vândala

Cólera e melancolia

Enia Celan

"...desconfortavelmente equilibrado, com um pé num mundo morto ou agonizante e o outro num mundo que a todo custo devemos ver nascer." C.P. Snow / [email protected]

Lowry, o pintor vanguardista em pele de ingênuo

A arte imita a vida? A vida imita a arte? Ou às vezes nenhuma imitou a outra!? O pintor Lowry que já tinha sido criticado como ingênuo, foi se tornando progressivamente mais interessante, teria criado verdadeiras vanguardas particulares; uma sobre as multidões de seu tempo, pós-revolução industrial, outra, por figuras reveladas após sua morte, desenhos sadomasoquistas à moda artística.


lowry.jpg

O excêntrico pintor inglês L.S. Lowry (1887-1976) poderia ter passado por ingênuo: De quem são essas obras com excessos de estilizações humanas? Essas pessoas que se parecem palitos! Não pertencente a estilo algum, estava era criando o seu próprio. Não, Lowry não passaria despercebido, nem mesmo recusando algumas honrarias britânicas. Meu primeiro fascínio semiótico quando pus os olhos num quadro de Lowry foi querer a resposta imediata; isso é alegre ou triste? Eu procurava impressões rápidas em uma obra muito mais complexa; deixei meu maniqueísmo de lado, concentrei-me nos tais homens- palito: transeuntes, por vezes sem pernas, remanescentes da Revolução Industrial, período de superlotação das cidades, a multidão tinha pressa, era apertada, mas minimamente organizada: como pó de ferro guiado ao ímã — o pincel de Lowry. Como já apreciou Baudelaire: “Multidão, solidão: termos iguais e conversíveis pelo poeta ativo e fecundo. Quem não sabe povoar sua solidão também não sabe estar só no meio de uma multidão ocupadíssima.” Lowry foi um povoador de sua solidão, mas não teria a multidão se tornado máquina? Ou bois indo e vindo, absortos nos seus confinamentos pessoais? Embora admitisse não se ver como um reformista social, implicitamente o foi. lowry outro ímã.jpg As pinturas eram sim carregadas de cores tristes, fortes, complexas/terciárias como mostarda, verde musgo, vinho, azul petróleo, cinza; contrastantes, e colorindo um ambiente ora frígido, enevoado, cuja fumaça funde-se a nuvem como se já fossem eternas amigas, ora pálido, ligeiramente aquecido. Ainda assim eu não conseguia ver somente tristeza! A estilização humana tem um quê de: não darei exatidão a esses que não conheço; mas não podia deixar de interpretá-los como seres animados, transcorrendo e colorindo a vida de Lowry. A metade irreal desses seres palitos podiam representar assim, suas particularidades e fantasias, o que se é, mas não pode ser visto a olho nu, e não simplesmente ilustrá-los como conglomerados iguais, e essa é a coisa mais bela que os artistas podem fazer captar a beleza onde muitos só veriam problemas. lowry 2.jpg O apego à beleza das cidades industriais não foi obvia, (não pra quem gastava tempo no Victoria Park); a família teria se mudado por motivos financeiros, para Pendlebury. Demorou anos, até um fatídico dia em que teria perdido um trem, para começar a reparar na cidade com algum encantamento. Era o começo de seu estilo pessoal com as paisagens industriais cheias de homens-palito, negando o impressionismo de seu mais conhecido professor Adolphe Valette. À medida que a fama do pintor crescia, e podia ser reconhecido na multidão que outrora observara anônimo, admiradores passaram a lhe bater à porta em busca de alguma conversa sobre arte (posso imaginar um pintor entre um projeto e outro, entre uma tinta na paleta e outra, tendo que atender a porta). Não demorou muito até se irritar com a situação; criou o hábito de deixar uma mala sempre posicionada à porta pra dizer que estava de saída. lowry auto outro.jpg Nem só de homens-palito essa fama se consolidou, os retratos e paisagens marítimas são também tão bons quanto eles, mas houve uma peculiar cereja no final de sua vida, o artista produziu uma coleção particular, revelada somente após sua morte. Lowry não precisava da mais sensacional inteligência para pintar, apenas sentimentos, como ele mesmo já havia observado. Nessa coleção ele pode comprovar que nunca foi ingênuo; tratava-se de desenhos eróticos bizarros duma boneca em cenas de tortura, tendo como inspiração sua amiga (mais tarde herdeira), 57 anos mais nova, Carol Ann Lowry, de mesmo sobrenome. Quando a garota tinha 13 anos, escreveu pra quem mais tarde chamaria “tio Laurie”, dizendo que também queria ser uma artista. Lowry não a respondeu, mas foi até a sua casa depois de alguns meses, talvez agredido por sua solidão, e a amizade perdurou até a morte do artista. lowry-410294.jpg terraço.jpg Carol Ann Lowry quebrou o silêncio poucos anos antes de sua própria morte em 2003; conta que quando viu os desenhos ficou um pouco atordoada, que nunca houve nada além de uma espécie de laço familiar entre eles, que Lowry teria levado-a inúmeras vezes ao balé Coppélia (no qual o personagem Dr. Coppelius cria uma boneca e se apaixona por ela). Interpretava os desenhos como alguém que queria controlá-la, sim, mas quando entrevistada não deve ter percebido que a palavra controle se encaixava sexualmente aos desenhos. Será que Lowry entendia que todo artista precisa ter algo de enigmático, ou mesmo de louco, para permanecer consagrado? Teria reprimido um amor, um desejo por Carol? E Lewis Carrol, teria a resposta? São essas coisas que os artistas levam para o túmulo, e atormentam nosso próprio imaginário, nos inquietam a querer descobri-los um pouco mais; se não teve a ver com um fetiche, nos contentamos ao menos com a vanguarda da moda artística e seus homens-alfinete. carollowry.jpg Entre as mulheres, que “eram como sonhos” de Dante Gabriel Rossetti, que tanto o inspirou e as conversas populares macabras sobre as prostitutas de um certo Jack, o estripador, e talvez, ainda o ter nascido de uma mãe controladora, que o queria menina... Isto não é pra ser uma patografia. Fato é que Lowry pôde produzir seu melhor meio termo como pessoa, mostrar tudo de si, numa arte nada ingênua. E se até os dias de hoje ele não galgou o topo como “importante” pintor, oras... Mas quem julga isso mesmo?


Enia Celan

"...desconfortavelmente equilibrado, com um pé num mundo morto ou agonizante e o outro num mundo que a todo custo devemos ver nascer." C.P. Snow / [email protected]
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 1/s/artes e ideias// @destaque, @hplounge, @hp, @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Enia Celan