poesia vândala

Cólera e melancolia

Enia Celan

"...desconfortavelmente equilibrado, com um pé num mundo morto ou agonizante e o outro num mundo que a todo custo devemos ver nascer." C.P. Snow / [email protected]

Discurso sobre a riqueza da criatividade

Vivemos num mundo um tanto quanto propício para esquecermos de incentivar nossos filhos a se tornarem pessoas criativas, que terão personalidades críticas para a arte e consequentemente para a vida. Quando a fase incômoda dos "porquês" chegar, tenha paciência pra dizer "vamos descobrir". Trato aqui de relatos do meu aprender criativo seja na infância até a atualidade. É possível conviver de forma sadia com o capitalismo? ou com o SUS? A poesia me diz que sim.


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Ouvíamos rádio, a ouvinte telefonou pedindo doação de leite, pois sem este não poderia fazer bolo para suas tantas crianças... Minha mãe e eu nos entreolhamos por instantes e rimos. Isso porque ela é uma mestre cuca em bolos pão de ló, que não levam leite. Refleti com carinho sobre momentos de minha infância, pés descalços num sítio, cercada por animais e plantas de tantas espécies. Pensei sobretudo que a fartura não era mais importante do que a criatividade. Veja bem, fartura sem criatividade acaba (ou gera a corrupção), mas o criativo sempre encontra sua própria fartura...

Quando a Páscoa se aproximava, não ficávamos simplesmente embaixo das pérgolas coloridas dos supermercados escolhendo nossos ovos. Ao invés disso, íamos à “casa da essência” para escolher fôrmas diversas e aquele chocolate hidrogenado: que ainda não sabíamos que não era o mais gostoso, mas a partir dali faríamos ovos para toda a família e brincaríamos de confeitar/enfeitar aqueles. Hoje penso que talvez tenha sido um primeiro contato com a arte (ainda que de forma nebulosa). Também para o pensamento crítico, visto que em casa se criavam coelhos, sabia que coelhos não botavam ovos... Na minha visão, tratava-se de animais um tanto perversos que, quando não separados, comiam os próprios filhotes.

Pêssanka.jpg Pêssanka: onde os ovos de páscoa começaram / sincretismo religioso

Quando meus primos de São Paulo vinham nos visitar, era estranho. Pouco sabiam sobre escalar árvores e perguntavam como deveria se comer tal fruta; Eu me irritava um pouco com aquilo, de a pessoa não sentir algum prazer em descobrir como se deve comer uma fruta. Não estamos falando de comida oriental, afinal. Um dia eu até entendi quando me estrepei com um pequi. De certa forma, eu também precisava aprender a brincar com os jogos praianos que eles traziam, mas em três dias aquilo já não tinha tanta graça. Nada superaria o nosso “bosta-pega”, uma mistura de pega-pega com arremessos ocasionais de cocô de vaca seco.

tippi3.jpgTippi Degré, filha de casal de fotógrafos franceses, passou 13 anos vivendo na selva africana.

O aprendizado de um criativo jamais deixará a desejar, visto que está em constante movimento de aprendizagem. Entre tentativas e erros, vai colhendo um perfil que se desdobra além das coisas imediatas banais de nosso cotidiano. Muitas coisas maravilhosas já foram inventadas por estalos de inspiração em harmonia com a própria natureza. Eu não estou dizendo (aos pais) para tentar criar gênios, e eu mesma estaria absurdamente distante de o ser. Mas ter uma mente sã em termos de aprendizado, a mim inclui que uma criança de 10 anos já seja capaz de olhar para uma libélula e enxergar a intrínseca relação com helicópteros.

O físico David Bohm, em Sobre a criatividade, apontou que “o desenvolvimento criativo... psicologicamente falando... uma vez que ocorre, liberta a mente para ficar mais atenta, alerta, consciente e sensível, possibilitando a descoberta de uma nova ordem e a criação de novas estruturas de conceitos e ideias”. E a teórica de arte e professora Fayga Ostrower defende que momentos de inspiração não são estados de passividade: “Cabe distinguir bem entre passividade e receptividade. Esta última, vinculada às expectativas da pessoa, já indica um estado altamente seletivo, logo, potencialmente dinâmico.” Cada um de nós tem o potencial de desenvolver uma arte única, visto que somos seres com diferentes interações.

Outro dia estive em um ambulatório e resolvi fazer um exercício de tolerância: queria estar ali de forma inteira, aberta. Fechei o livro que estava a ler, me concentrei no ambiente, costumo não deixar que nada me passe despercebido, uma secretária discutia com o namorado pelo celular, uma cachorra perambulava pelo pátio central com a coleira: “se me encontrar, ligue para...” Vi ainda uma lagartixa que quase foi decapitada na porta. Estava na ala dos “surdos” esperando por uma limpeza de ouvido, o cartaz na parede era enfático: uma enfermeira inclinada, de lábios carnudos, o dedo indicador posicionado entre eles, uniforme americano anos 40, ora sexy, ora autoritária, com o anúncio “permaneça em silêncio” ou coisa assim. Eu ri por dentro, mas queria chorar... Pois me sentia em um labirinto sem placas indicativas essenciais, mas precisava esperar o médico com aquela figura me olhando e me mandando ficar quieta. Conheci uma senhora de 88 anos na fila, tão lúcida e ouvindo melhor que eu. Dizia com orgulho que fazia tudo sozinha, eu ficava pensando o que teria definhado meu vizinho aos sessenta. Para mim, era a óbvia falta de descoberta da criatividade e consequentemente de suas próprias potencialidades...

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Abaixo da tal enfermeira do cartaz, a outra metade de parede: azul (que em teoria seria pra causar tranquilidade), estava descascando, mostrando o branco da possível massa corrida. E então, resolvi ver um céu cheio de nuvens e quase pude imaginar desenhos nas mesmas. O piso era desgastado e dum amarelo mostarda mórbido. E, ainda para terminar de sobreviver àquelas horas, pensei que eram como folhas de outono ao chão... Isso mesmo, não encare a criatividade e a arte como algo corriqueiro no ser, precisam necessariamente ser desenvolvidos, cedo ou tarde. Como a consulta terminou? Com o médico resmungando que seu aparelho estava quebrado, mas tentando resolver como pôde. Segurei aquela pequena vasilha de inox empunhada ao queixo. Em vez de pensar “Vai doer!” houve tempo para divagar: era em formato de orelha, uma orelha de inox...


Enia Celan

"...desconfortavelmente equilibrado, com um pé num mundo morto ou agonizante e o outro num mundo que a todo custo devemos ver nascer." C.P. Snow / [email protected]
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