poesia vândala

Cólera e melancolia

Enia Celan

"...desconfortavelmente equilibrado, com um pé num mundo morto ou agonizante e o outro num mundo que a todo custo devemos ver nascer." C.P. Snow / [email protected]

Manifesto Orgânico

Mais do que embalagens no mercado dizendo "orgânico" precisamos de mentes e atitudes orgânicas


os deuses devem estar loucos.jpg"Os deuses devem estar loucos"

Outro dia liguei para a polícia ambiental, aflita, precisava de ajuda... Uma borracharia insistia em descartar seus pneus velhos em uma nascente perto de minha casa, a cena era repugnante, triste e já sem controle... Eles me disseram que estavam muito ocupados contendo incêndios de canaviais... Engraçado, quando vou ao mercado e vejo determinadas marcas de açúcar, anunciando produtos orgânicos, eu penso, mas de onde vem esse açúcar fabuloso! Me levem até esse canavial mágico, por favor! Pra onde olho vejo canaviais, 360° de canaviais, e coincidentemente seus acidentes envolvendo fogo sempre ocorrem no bom momento de maturação da cana? Foto-Canavial-Queimando.jpg

Mas este local dos descartes de pneus ainda é ao lado de um canavial, então talvez um dia todos os funcionários da usina tenham dengue, e isso ofereça algum risco para seus bolsos e finalmente as devidas fiscalizações estarão a par e prontas para investigar os envolvidos no descarte indiscriminado dos pneus... Chegamos a tentar contato com uma TV em prol da causa, mas estavam mais preocupados com buracos em vias públicas, acompanham cada centímetro que se abrem e singularmente gostam de close ups em facas ensanguentadas enquanto você tenta almoçar... Então por favor, se você souber de algum canavial que não queima plásticos, pneus, árvores centenárias e animais silvestres junto ao seu próprio produto, quero agendar uma visita por lá, nesse fantástico projeto. pneu.jpg

Lembro-me com desdém dos meus antigos professores fumantes universitários, antes de entrar na sala de aula apagavam seus cigarros e jogavam suas bitucas naquela valeta de drenagem do pátio. Pensava se tinham faltado as aulas sobre decomposição de inorgânicos, ou das águas que vão pro mar... Ou se ainda nunca tinham visto imagens daqueles animais da tal “Ilha do lixo” no Pacífico, morrendo com objetos dos mais variados tipos em seus estômagos, não pensavam localmente e nem agiam globalmente. Convenhamos ainda que muitos incêndios começam a partir de uma simples bituca. ilha do lixo.jpg

Num estado de ecocídio, caminha o homem, pouco vê adiante, pensa no hoje, no agora, lapidou seu individualismo a tempo demais para mudança tão rápida e brusca, basta sentarmos pra assistir? E outra imagem me veio à mente, outro dia encontrei um monitor de computador abandonado em uma cachoeira... Eu que gosto de surrealismos, não pude com este!

Como consumidores temos o magnífico poder de decidir muitas das atitudes que desejamos ao mundo e ao nosso próprio corpo e consequentemente descendentes. As pessoas se acostumam ao ato hipócrita de saber que determinado alimento faz mal e mesmo assim mantém seu uso de forma inconsequente. Quer um exemplo do mais corriqueiro? Aquele liquidozinho preto (eu o chamo chorume), que você consome com regularidade, são R$ 6,00 gastos em dois litros de algo que todos sabemos que não faz nada bem... Agora saiba que uma maçã custa R$ 0,25 e que fornece um suco delicioso. Você pode me questionar agora sobre os tantos agrotóxicos recorrentes em nossa agricultura. Eu sei bem, estou estudando sobre o processo de regularizar uma fruta como produto orgânico, eu e meu marido precisamos olhar pro céu e rezar pros aviões pulverizarem agrotóxicos um pouquinho mais pra lá, do que pra cá, e pro vento não virar... Meu pai também planta soja do nosso lado, se eu ao menos não der de beber algum agrotóxico em meu leite materno, seria como um belo milagre. Será uma questão de políticas públicas ou será uma questão de políticas pessoais? meio chei ou meio vazio.jpg

Somos agricultores de primeira viagem, agricultores com diplomas... Nossos pais ainda engolem nossa façanha... Não sabíamos afinal quão diferentes podiam ser as enxadas dos bastões de formatura. Nos demos conta que a primeira coisa, que pudemos tirar da terra em que vivemos, foram tomatinhos que passarinhos haviam plantado... Achamos aquilo tão maravilhoso, e junto nasceu a poesia: “Nós comemos tomatinhos que plantaram os passarinhos.” Não eram doces como os dos mercados, mas tinha um sabor delicioso que abria a boca em riso no final.

Rachel_Carson_Feeds_Birds_Environmentalist_Activist_author.pngRachel Carson

Num ato peralta, nosso pequeno Gordon (o porquinho) aprendeu a abrir a janela do calopsita Piano e lhe derramar os girassóis, pouco tempo depois lá estavam os maciços de generosos girassóis cheios de abelhas, bordando nossa entrada de cozinha, logo, todo acidente voltava a ter sua razão própria de ser, pois não esqueçamos do acidente do DDT e sua “Primavera silenciosa”. Pensei, quem sabe aquela tia ridica da minha vó, que escondia açúcar embaixo da saia, ou o tio do meu pai que cortou o pé de abacate pra pararem de comer com açúcar, vai ver, só era pra gente aprender a comer mais mel...


Enia Celan

"...desconfortavelmente equilibrado, com um pé num mundo morto ou agonizante e o outro num mundo que a todo custo devemos ver nascer." C.P. Snow / [email protected]
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