poeta de fim do mundo

um pouco de filosofia, um verso de poesia e boas histórias pra contar.

Júlio Soares

Graduando em Filosofia pela UFPR e Gestão Pública pela Univ. Braz Cubas, escrevo poesias, contos, críticas políticas e tudo que me é necessário

Ensaio sobre uma outra D. Keir

Quando André Gorz um escritor austríaco escreveu "Carta a D. - História de um amor" relatando sua história de 54 anos com Dorine Keir, refletia sobre a ausência de sua mulher a qual amava tanto em suas obras, essas, um reflexo da sua vida. Uma mulher incrível que morria aos poucos devido a um erro clínico que sumia dentro de sua cabeça mas ainda permanecia em físico ao seu lado, talvez seu psicológico o preparando para a despedida, talvez. Aqui, um pequeno ensaio inverso a obra original, uma D. que sumiu fisicamente mas está viva mentalmente, ocupando o espaço em todos as palavras presentes aqui.


Antes que me diga como vai sua vida, eu sei como ela anda... ela anda bem, como nunca não é? Vi que está gravida pesado bem mais do que antes, e ainda sim continua linda e desejável como quando pesava 45 quilos no dia em que nos conhecemos. Vi também que irá casar, irá viver do jeito que planejamos, mas não comigo. Nesses anos em que nos despedimos aconteceu muitas e muitas coisas na sua e na minha vida, claro. Porém nenhumas dessas foram tão agradáveis como as suas, tive culpa nisso, total culpa, deixei me levar pelas mágoas e pela dor fiz coisas irreparáveis a tudo e a todos mas consegui minha redenção depois de tanto errar caso queira saber. Se qualquer um perguntasse dos nossos dias juntos, estes sei de cor, só não me lembraria dos dias por que datas não são o meu forte, mas foram os melhores da minha vida com toda certeza.

Aprendi a amar você, sem você. Quando estávamos juntos nossos planos eram da boca pra fora, eu sei e você sabia que nunca iríamos concretiza-los, isto, deixaríamos a cargo de outras pessoas no futuro, mas nunca colocamos isso como razão, tudo iria ser como tivesse de ser e pronto. Se era mentira? totalmente! e não arrependo-me de iludir-me completamente nisso, mergulhar tão fundo até perder o oxigênio, jamais! as mentiras foram tão importantes quanto a verdade, nos esconderam da realidade que um dia viria a tona e veio. Na mentira encontramos a felicidade, mesmo corrupta, éramos felizes e isso já estava de bom tamanho, quem fala a verdade é cruel, quem vê otimismo em tudo não vê nada. Nosso amor foi uma mentira desde o começo, sabíamos que mesmo no inicio existiria um fim, mas o amor é isso, é essa aventura louca do inesperado, e é por isso que todos procuramos amor, adoramos a adrenalina.

Descobri ainda que posso te amar, ainda te amo e sempre será assim. Talvez um dia você esteja com seu filho no carro cesta do mercado na seção de fraldas e eu passando pelos corredores te veja, olhe pra você e esboce um sorriso bobo, imaturo e envergonhado. Ensaiei durante tanto tempo um eventual reencontro mas ele nunca aconteceu então guardei essa encenação para outra coisa.

maxresdefault (1).jpg

Com o tempo, adquiri conhecimentos empíricos. Dolorosos mas de grande valor. Em uma das minhas teorias concluí que todos nós que amamos na verdade somos predestinados a não conviver. Todos nós temos o amor que não nos cabe, por isso paixões duram menos que o esperado e menos ainda do que merecem. E quem sou eu para julgar se nossa paixão era justa, cabe ao juiz do tempo dizer mas quero que ele seja favorável a mim.

Muitos ao ver o fim com você irão te desejar o mal. Eu te desejo, e somente a ti,a chance de viver até onde puder e como queira. Desejo no consenso por merecimento, este, que tem bem mais que a pessoa que aqui escreve, te ter todo o bem do mundo em mãos, e os extrair como o corpo extrai as proteínas do sol. Que alguém que leia essas palavras, sinta o amor que dilata dentro de cada uma, mesmo as vírgulas e os pontos destilam uma fração do que quero dizer como você sentiria dilatar.

No amor que sinto hoje, sentirei amanhã e sentirei sempre, estará lá meu amor por você também, eu amo no mundo aquilo que amo em você, amo nas mulheres, amo nos animais e nas plantas o amor intermediário que leva-me até você. Aquele que não ama o mundo, por completo não é capaz de amar uma única pessoa, não é! Depois que se foi, consigo te ver em outras pessoas. A menos de uma semana encontrei-a, tinha exatamente a sua fisionomia e nessa mulher, com o nome completamente diferente do teu, senti o que senti ao te ver pela primeira vez, na avenida movimentada do final da tarde, o céu cinza com as pombas trafegando nos céus e a velha igreja que se vê lá da rua de baixo. Senti aquele aperto no peito, a nostalgia e a vontade de amar de novo, de sentar ao chão como fazia na minha infância, te amar como uma criança ama seu amigo imaginário. Coincidência ela estar para casar e talvez coincidência também ela aparecer num momento tão conturbado em minha vida. Me reacendendo as questões que tentava esquecer, a saudade por você voltou porém ainda insisto em escrever sem destinatário.

Mesmo depois de tanto tempo você está presente mais do que nunca no que escrevo. Nas entrelinhas do amar você está, da solidão também e até da raiva, mas eu corri muito por você. Me recordo quando ainda estudava e corria atrás das lotações para ir até seu cursinho, lembro da praça, da nossa praça, a qual fica no centro da cidade e é o centro da minha saudade, essa que você levou muitos outros depois. Porém não me incomodo, o sentimento que deixei lá era único e singular, poderiam se sobrepor milhares e milhões, no fundo ainda daria para ver o azul do meu amor reluzir.

Só quero que você saiba que meu apartamento sempre estará de porta abertas para você assim como meu peito. Nada mudou desde nossa última conversa como namorados, como amantes e como sonhadores, sonhamos tanto para um dia acreditar que sonhos se tornam reais. Se tornam sim... mas a minoria deles. Quando você sentir que deve voltar, volte. Mas se não sentir, deixo a saudade me corroer mais uma vez.


Júlio Soares

Graduando em Filosofia pela UFPR e Gestão Pública pela Univ. Braz Cubas, escrevo poesias, contos, críticas políticas e tudo que me é necessário.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// //Júlio Soares