poeta de fim do mundo

um pouco de filosofia, um verso de poesia e boas histórias pra contar.

Júlio Soares

Graduando em Filosofia pela UFPR e Gestão Pública pela Univ. Braz Cubas, escrevo poesias, contos, críticas políticas e tudo que me é necessário

ócio do ofício: mais um dia (tedioso) de trabalho

nossos dias são categoricamente marcados: café da manhã, almoço e janta são um exemplo disso. nem dá tempo pra pensar, o ócio que Sócrates defendia, deixamos morrer pela rotina, deixamos morrer pela preguiça e pela opinião cotidiana plastificada da gazeta local, sem rodeios, engolimos aquela porcaria plástica vendida no editorial ou nas colunas e aceitamos como a verdade contemplativa que nos identifica, aliás, já parou pra pensar que os formadores de opinião morreram? deram lugar a sabichões que ostentam palestras, sintamos falta dos que pensavam e identificavam a realidade, antes que morramos


nesses prédios tão altos, não bastava serem imensos e nos fazerem sentirmos inúteis em comparação a altura, eles guardam também essas taxações dentro de si, como uma cadeia alimentar, do menor pro maior intercalar, é triste.

nos batuques das teclas, barulhos de impressões da máquina de xerox e conversas paralelas formam um coro desordenado de vozes sem o menor sentido tônico, é desenfreado e caótico embora aceitável. aqui dentro é voraz e naturalista, cada um é como o caçador, cada um desenvolve seu papel social e profissional que mata a fome de alguns e provoca o antropofagismo de outros.

cada qual com seu igual. o mais alto escalão toma o cafézinho com seu par, as funcionárias de limpeza a mesma coisa e o mais engraçado é que ninguém de fato troca nada, além de olhares saudosos e falsos. eu? digamos que eu faça parte da metade desta casta, como um burguês no feudalismo. ah, olha só pra mim, um marxista se denominando da burguesia. talvez faça sentido, talvez usemos essa seleção natural pra tudo, pra remetermos olhares na rua, no trabalho, na faculdade e na vida. miramos e direcionamos todo o nosso ímpeto para aquilo no qual convenhamos, achamos que deve ser compartilhado e afinal, seria hipocrisia minha dizer que não colaboro para que essa casta perdure-se nessa sociedade hoje republicana (mas não democrática, embora nisso eu colabore para se tornar).

o procurado.jpg

é estranho ainda pra mim, tentar entender as relações humanas sem precisar retornar a Locke, em seus ensaios, eu ensaio também mas nem sempre me há êxito quando posto em prática. é triste, repito, que as palavras escritas não possam materializar-se, prefiro morrer em palavras, então.

monótono pensar na existência e quanto fazemos tudo ser tão solitário, nesse planeta de um universo igualmente só. aquele bom dia na portaria ainda me faz pensar, se realmente desejo um bom dia, se meu dia é bom pouco importa e ainda mais o seu, porém ainda, o altruísmo fajuto bate em nossas portas, continuamos a desejar bom dia. dane-se o meu, o seu e o nosso dia, ele é só mais um quando não é apenas um, dias diferentes da rotina como quando estou no bar, me dão prazer e esse pode ser um bom dia, exceto o posterior, da ressaca.

continuamos a esperar e-mails que de nada nos vale, continuamos olhando ao redor e escutando a conversa alheia, classificando pares e ímpares, formando aquelas castas malditas, ser segregado é realmente um porre, mas nada tão existencialista que ser descartado, como diria dona cotinha, solidão é vocação que é evocada por quem a quer. se é um rejeitado, logo não passa de um segregado. Solidão é algo lírico, que é dissolvido quando lembramos das coisas, das pessoas e dos prédios que medem dez mil vezes de você.

ser solitário é bom demais e continuo aqui, sem ninguém, vendo panelinhas de conversas enquanto aprecio um bom livro e café não-tão-bom assim, esperando minha vez de ir embora e desejar um bom final de tarde, mergulhado na hipocrisia cotidiana mas ciente disso, menos mal. coitado daquele que nem faz ideia que vive na sua Casta e que acredita na amizade verdadeira. Se sexta-feira não chegar logo, acho que viro antropófago.


Júlio Soares

Graduando em Filosofia pela UFPR e Gestão Pública pela Univ. Braz Cubas, escrevo poesias, contos, críticas políticas e tudo que me é necessário.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Júlio Soares